Re: Blood and Iron

Capítulo 453

Re: Blood and Iron

Bruno estava sentado em seu escritório no dia seguinte, após as antigas bandeiras de Portugal voltarem a tremular sobre Lisboa. Um jornal repousava em suas mãos, enquanto sua filha mais velha sentava-se à sua frente. Ela já era praticamente adulta naquele momento.

Embora definir isso fosse complicado.

Fisicamente, ela estava totalmente formada. Mentalmente? Seu cérebro mais ou menos já tinha completado seu desenvolvimento — exceto, talvez, o córtex pré-frontal. Ou talvez já tivesse. Não havia como saber com certeza sem uma varredura na área, e essa tecnologia ainda não existia.

Comumente, erradamente, dizia-se que o córtex pré-frontal só se desenvolvia completamente aos vinte e cinco anos — mas isso era uma média. Em muitos casos, abusos de drogas ou álcool podiam atrasar sua maturação. E no caso dos hiper-superdotados? Podia se desenvolver bem mais cedo.

Legalmente, ela não seria considerada plenamente adulta até completar vinte e um anos — assim eram as leis do Reich alemão. Mas mesmo assim, isso não a impedia de participar de muitas atividades geralmente relacionadas à vida adulta na vida passada de Bruno.

No próximo ano, ela se casaria com o Príncipe da Prússia — o neto do Kaiser, um homem destinado a herdar o trono assim que seu avô e seu pai morressem… ou abdicassem de seus direitos.

Mas Eva não estava pensando em Wilhelm agora. Seus olhos estavam fixos no pai, questionando — calculando. A garota não era tola. Muito pelo contrário. Ela herdara a mente brilhante de Bruno e sua paixão por geopolítica.

Ela entendia exatamente o que significava o golpe de Portugal. O retorno do monarca a um trono há muito deixado vago por políticos corruptos eleitos por meio de concursos de popularidade e promessas vazias. E, claro, os bureaucratas igualmente detestáveis que — em toda república — roubavam a nação, vendiam sua alma pelo menor centavo, ou por um tiro na cabeça que não fosse regulation.

Portugal entrava na corrida. O exército havia apoiado o rei exilado — Manuel II — que herdara o trono de seu pai após o assassinato dele em 1908. Ele governara por apenas dois anos antes de ser deposto por rebeldes republicanos e forçado a fugir do país em que nasceu.

Agora, Manuel tinha sido convidado a retornar pelo exército. A República estava se desfazendo — suas bases eram de areia molhada. O peso dos vizinhos e dos vizinhos deles era demais para o pequeno país costeiro suportar.

Para aqueles com uma noção mais antiga de virtude, trazer de volta o rei — numa época em que monarquias e impérios floresciam — era um passo natural para consolidar laços com a Alemanha que nunca se formariam sob uma bandeira republicana.

Eva sabia de tudo isso. Ela exibia um sorriso de superioridade enquanto observava o pai tomando seu café e lendo o jornal em silêncio. Ele estava silencioso demais — e, no final, ela ficou impaciente. Com um suspiro, exigiu uma resposta do homem que sabia estar provocando deliberadamente.

— Então? O que você acha? Isso muda tudo, não é? Agora temos acesso costeiro ao Atlântico! Pai, isso é uma notícia incrível!

Sem que Eva percebesse, Bruno estava exausto. Precisava de mais tempo do que o habitual para acordar completamente. Sua voz saiu baixa enquanto mais uma vez tomava um gole de café e olhava casualmente a seção de esportes. Quando finalmente falou, foi como uma aula — baixa, calma e incisiva.

— Sabe, minha filha… embora inteligência seja uma qualidade admirável… paciência é considerada uma das sete virtudes celestiais. Seria sábio você moderar essa sua ansiedade enquanto ainda é jovem. Porque, se chegar à minha idade e não tiver aprendido essa lição… a vida vai te colocar de joelhos.

Ele não disse mais nada. Virou a página do jornal e continuou lendo — deixando Eva em silêncio por tempo bem maior do que ela esperava.

Tempo demais.

Bruno ergueu o olhar — e a viu ali, esperando pacientemente, com o mesmo sorriso satisfeito ainda em seus lábios. Ela não só processara suas palavras, como as assimilara rapidamente e de forma tão completa que parecia que tinha estado testando-o o tempo todo.

E naquele sorriso, ele viu sua esposa amada — sua mãe. Aquela expressão que Heidi sempre tinha quando sabia que estava certa.

Ele não conseguiu conter um sorriso de volta enquanto dobrava o jornal e se sentava ereto.

—Muito bem. Vamos discutir o assunto. Parece que aquela pequena — a arquiduquesa Habsburgo. Como era o nome dela mesmo? Hedwig? Vai se casar com Manuel. Isso sugere que os Habsburgo já estavam em conluio com os conspiradores que lideraram o golpe contra a república…

Eva estreitou os olhos, levemente irritada com a má-fama fingida do pai.

— Sério, pai? Devo acreditar que você não lembra o nome da arquiduquesa? Não era ela uma das meninas que orbitavam ao seu redor como se você fosse o sol? Na época — quando você ainda era jovem, isto é…

Bruno lançou um olhar que poderia ter cortado pedra — uma sobrancelha levantada e um olhar assassino que fez teias invisíveis rastejarem pelas suas costas.

— Ah? Tô velho agora? Engraçado… é o que o espelho me diz. Eu mal pareço ter trinta anos.

Eva respirou fundo, aliviada ao ouvir a brincadeira retornar à voz dele. Ela se recomposou, recuperando a confiança ao perceber que ele não estava realmente de mau humor.

— Pai… em um ano, você vai fazer quarenta. Não importa como você pareça jovem. Não é aceitável que você finja que ainda está na fase de conquista com uma mulher quase metade da sua idade…

A expressão de Bruno desapareceu.

Sua postura afundou.

E seus olhos mudaram — não para Eva, mas para algo atrás dela.

As palavras de Eva ficaram travadas quando ela percebeu o frio no ambiente. Não era calor — era frio. Um sussurro ao seu ouvido — suave, mas mortal na mesma medida.

— Ah? E do que vocês estavam falando tão cedo pela manhã?

Eva parou. Um suor frio percorreu suas costas. Ela não se atreveu a virar a cabeça — não precisava. Sentiu a expressão da mãe antes de vê-la.

Só agora, ela percebeu que tinha se aprofundado demais no passado do pai — e sua sombra materna assistia a tudo o tempo todo.

Bruno, sempre o pai carinhoso, mesmo diante da repreensão verbal da filha, interveio para redirecionar a tensão — mudando de assunto com precisão calculada.

— Ora, estávamos falando sobre a situação atual em Portugal — e como isso afeta a posição do Reich no cenário global. Se pudermos negociar uma base naval na costa ibérica, ela nos dará uma posição semelhante ao controle britânico sobre Gibraltar… e obrigaria os britânicos a pensar duas vezes antes de bloquear nosso acesso ao Mediterrâneo. Certo, Eva?

Eva conseguiu concordar ainda mais rápido.

Ela acenou com rapidez, lançando um olhar para o pai que dizia "obrigada por me salvar mais uma vez" antes de oferecer à mãe a meia-verdade mais doce que conseguiu fazer.

— Isso mesmo. Estávamos discutindo como uma daquelas meninas pitifully que orbitavam ao redor do pai finalmente vai se casar com o rei de Portugal. Não é ótimo, mãe?

Heidi, ciente da verdade desde o começo, deixou a temperatura no ambiente diminuir. Sua aura fria suavizou-se, substituída pela mãe e esposa amorosa que realmente era.

Claramente, ela só interveio para poupar o marido do vexame de ser caluniado de brincadeira — mesmo por sua própria filha.

Ela respondeu com palavras suaves e um sussurro afiado o bastante para cortar ossos.

— Ah? Bem, isso soa promissor. E Eva, minha querida… nunca fale mal do seu pai, nem mesmo como uma brincadeira. Não tolerarei tais mentiras infames — nem mesmo vindo da minha própria filha amada. Compreendeu?

Eva assentiu silenciosamente enquanto Heidi se virou e foi buscar um pouco de chá, dando tempo ao pai e à filha se recuperarem e se recomporem.

Foi Eva quem quebrou o silêncio.

— Desculpe… não quis colocar você nessa posição. Estava apenas brincando um pouco às suas custas.

Bruno bufou, balançando a cabeça.

— Eva, acha que me importo com uma coisa dessas? Já sobrevivi a bombas, artilharia, baionetas e tiros de metralhadora. Não dou a mínima para o que dizem de mim — especialmente de brincadeira.

Mas você deveria entender… Não era minha honra que você estava insultando. Era a sua mãe.

E eu já fiz príncipes sangrarem por menos.

Ele se inclinou para frente, deixando a lição pairar como cinza no ar matinal.

— Sei que você estava querendo fazer uma conversa amigável com seu velho. Mas pense no que essas palavras realmente significam — e quem elas afetam quando são ditas em voz alta.

Ele se recostou novamente, a voz suavizando.

— Então, onde estávamos? Portugal, sim — e meus pensamentos sobre o assunto?

E assim, passaram a conversar sobre poder versus alianças, e por que nunca se deve confiar nas promessas de aliados quando a força pode ser conquistada por autossuficiência.

Mas, para Eva, a lição mais importante daquela manhã não estava nos mapas ou tratados.

Era esta:

Existiam homens no mundo dispostos a matar para proteger suas esposas. E mulheres que fariam o mesmo pelos homens delas.

E, naquele momento, Eva começou a perceber…

Talvez seus pais não fossem tão santos assim.

Talvez, só talvez…

Eles fossem profundamente humanos.

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