Re: Blood and Iron

Capítulo 452

Re: Blood and Iron

A Duquesa Hedwig de Habsburgo, da Áustria, observava a janela do palácio de sua família, deitada na cama sob uma cortina de seda e luz do luar. Seu roupão cintilava suavemente na penumbra, mas seus olhos estavam fixos nas luzes que brilhavam em Viena — uma cidade que, no último ano, se tornara a alma do Reich alemão.

Ela não tinha ideia do que acontecia naquela noite, em Lisboa, do outro lado do continente. Tudo o que sabia era o que seu pai lhe tinha contado mais cedo naquele dia: ela se casaria com o rei exilado de Portugal, Manuel II, que agora vivia na Inglaterra.

Ele tinha apenas sete anos a mais — uma diferença de idade notavelmente pequena, pelos padrões dinásticos. Ela nunca o tinha conhecido pessoalmente, apenas visto fotografias e ouvido sussurros.

Mas não foi a surpresa do noivado que a manteve acordada, que fez seu peito ficar pesado e seu sono escasso. Era a sombra em seu coração. Um homem que ela um dia admirou. Um homem com quem ela já pensou em se casar: Bruno. Aquele que traíra sua família às suas costas — e deu um golpe final.

Ela não tinha estado presente na troca final entre seu avô, o imperador Francisco José I, e Bruno. Mas tinha visto as consequências. Ouviu as palavras bêbadas do velho: “Eu fui iludido pelo diabo.” As histórias contadas nos cantos silenciosos da corte eram ainda piores.

Bruno tinha oferecido mercenários para sufocar a rebelião. Mas tinha advertido: “Vocês não vão conseguir pagar tudo de uma vez. Tem certeza de que querem me oferecer uma coisa dessas?” Francisco José — orgulhoso demais, convencido demais da riqueza dos Habsburgo — descartou a proposta. “Posso pagar por um exército privado de elite. Não somos uma principautébalcânica.”

Bruno sorriu. Não de forma cruel, nem com entusiasmo. Apenas inevitável. Calculou cada bala, cada kit de primeiros socorros, cada litro de combustível, cada respiração de morphina administrada aos pobres de Viena — até que a conta chegasse.

E então, com o sorriso do próprio Lúcifer, ele deixou o livro-razão de lado.

“Eu avisei, não foi?”

Mas Hedwig não tinha visto essa parte. Só o tinha visto — anos antes — vestindo o uniforme de Marechal de Campos da Áustria-Hungria. Regali, frio, deslumbrante. Naquele tempo, ela confundia admiração com amor.

E depois, quando ele voltou a Viena não como servente de seu império, mas como seu colecionador — usando o uniforme do Reich alemão, a corrente de comando ao pescoço, e a faixa da Ordem Real Húngara de São Estêvão no peito...

Ela percebeu quem ele realmente era. Não Michael, o arcanjo. Mas Lúcifer — não expulso do céu, mas convidado a entrar. Naquela noite, ela soube.

Bruno não era o príncipe que ela sonhara. Era um soldado, não um príncipe. Um conquistador, não um parceiro. Uma força da história. Não alguém com quem se caminharia lado a lado. Mas Manuel? Pelo que havia aprendido, ele tinha o charme sem manipulação, a honra sem crueldade, a nobreza sem os pecados do campo de batalha.

De fato, o que mais assombrava a duquesa era não o que Bruno tinha feito à sua família — era que uma vez ela desejou estar ao lado dele. Não o homem. Não o soldado. Mas a mito que ela havia criado para encaixar na sua silhueta. Um príncipe, radiante em bravura, espada em punho, halo de ouro a brilhar.

Porém, agora ela via a verdade: o que ela tinha confundido com halo era uma coroa de sangue. Que suas asas não eram brancas e de penas, mas negras de cinza e pecado. As asas de um soldado — rasgadas, queimadas, conquistadas na guerra e mergulhadas em fogo.

Bruno não tinha caído. Ele tinha descido. Não expulsado — mas acolhido por homens desesperados demais para negá-lo. Manuel, por outro lado, nunca tocou o fogo. Não tinha cicatrizes. Nenhum sangue nas mãos. Não foi forjado na luta, nasceu na luz.

Enquanto o halo de Bruno jorrava como uma coroa de espinhos, o de Manuel brilhava puro e intocado — dourado, simples, verdadeiro. Bruno permanecia sozinho em um reino de sombras. Mas Manuel? Esperava com uma mão estendida. Sem fogo. Sem fúria. Apenas fé.

Se Bruno era um príncipe feito pela guerra, Manuel era um rei nascido da paz. E, talvez — só talvez — essa fosse exatamente a busca dela. Ela não chorou ao deixar a última brasa de desejo por Bruno se apagar. Simplesmente permaneceu ali, com os olhos abertos para a lua, deixando o sonho partir.


E naquela noite, enquanto as bandeiras da República Portuguesa incendiavam e Lisboa gritava sua renovação, Hedwig deixou o diabo partir. Libertou a última brasa do sonho infantil, e, em seu lugar, surgiu algo mais quente. Não paixão. Não adoração. Mas determinação.

Ela caminharia ao lado de Manuel — não como uma garota à procura de fogo, mas como uma mulher que entra na aurora. Bruno era o Príncipe das Trevas. E as sombras? Obedeciam a ele. Mas Manuel seria seu Rei da Luz. E onde ele andasse, nada se queimaria.

E embora ainda não tivesse conhecido Manuel, ela já sabia: ele não era uma lenda. Nem uma força. Nem uma nuvem de tempestade que molda a era. Era simplesmente um homem — um bom homem, por todos os relatos — e, nessa simplicidade, ela encontrava mais conforto do que mil tronos poderiam oferecer.

Pela primeira vez na vida, ela não era levada pela história. Ela fazia a escolha. Escolhia a paz em vez do fogo. A luz em vez da sombra. Um caminho silencioso, de mãos dadas, em vez de sozinha pela fumaça e a ruína.

Alguns diriam que ela estava se casando abaixo de seu status. Que um homem exilado não tinha nada a oferecer a uma arquiduquesa de sangue imperial. Mas eles não sabiam o peso que ela carregava por esse sangue, quantas noites ficou olhando uniformes e medalhas, perguntando se o amor algum dia seria dela.

Agora, talvez, fosse mesmo.

Ela fechou os olhos ao perceber como a luz do luar suavizava, deixando seu último pensamento flutuar junto com ela: Que o diabo fique com seu reino. Não tenho mais nada para lhe dar. Vou construir algo meu — e não será feito de cinza.

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