
Capítulo 451
Re: Blood and Iron
Os Bálcãs estavam em chamas, a França passava por uma fase de destabilização após dois anos de destruição total, e a Grã-Bretanha, de algum modo, conseguiu conter o avanço das revoluções sem perder muitas colônias.
Quanto à América Latina, ela era tanto estável quanto instável. O México vivia uma revolução, e os países do sul enfrentavam seus próprios problemas. Mas essa era uma questão para discussão em outra ocasião. Não, o outro lugar na Europa mais afetado pelas consequências da Grande Guerra era nada menos que a Península Ibérica.
Refugiados da França haviam invadido o país nos últimos dias da guerra, muitos usaram a Espanha como rota para o norte da África, enquanto outros tentaram permanecer. Mas o peso de cuidar de centenas de milhares, talvez milhões, de recém-chegados súbitos era muito maior do que qualquer nação poderia suportar razoavelmente.
E logo a própria Espanha se tornou estéril e esgotada, sem os recursos que antes a tornavam uma linha de vida ideal, enquanto as economias locais e nacionais começavam a colapsar. Portugal tornou-se outro destino dos refugiados, como gafanhotos sobre uma lavoura de trigo, tentando e falhando em devastar a nação.
Portugal tinha visto o que o asilo tinha feito à Espanha e mobilizou seu exército em defesa. Durante a guerra, manteve-se neutro, mas ajudou indiretamente as Potências Centrais patrulhando suas águas e interceptando diversas violações britânicas ao seu território.
Ataques flagrantes às colônias comerciais alemãs foram impedidos por isso, e a Alemanha respondeu com agradecimentos na forma de armas e engenheiros para a construção de defesas na fronteira, a fim de melhor repelir a crise migratória vinda da França e da Espanha.
Porém, mais do que isso, a Alemanha não deu apoio adicional, por uma razão simples: Portugal havia assassinado seu monarca em 1908 e conseguiu derrubar seu sucessor dois anos depois, em 1910, um ato que desconcertou a Alemanha, que na época mantinha uma espécie de guerra fria não oficial com governos republicanos após o fim da Grande Guerra.
Assim, o Reich fez o que pôde: retribuiu a gentileza em armas, mas não buscou ativamente uma amizade verdadeira além do comércio justo e recíproco. E, por quê? Porque Portugal, na época, buscava fortalecer laços com outros lados, e a relação com a Alemanha permanecia distante.
No entanto, muitos no atual governo republicano de Portugal sentiam que trocar o monarca por uma república, em uma era em que os impérios estavam em ascensão e as repúblicas em declínio, tinha sido um movimento pouco sábio.
A Alemanha e a Rússia eram, agora, as duas maiores potências do mundo, e os anúncios do noivado entre o Kaisers e os herdeiros futuros do czar, que iriam se casar com as filhas mais velhas de Bruno, consolidaram essa aliança de longo prazo.
Apenas um tolo não compreenderia o que isso significava para o mundo — do ponto de vista econômico e militar. Ainda pior, rumores de acordos de cooperação em pesquisa, padronização de sistemas ferroviários de alta velocidade e equipamentos militares vazaram além das fronteiras dos dois impérios, criando uma grave preocupação para aqueles que tinham o pensamento adiantado suficiente para entender quão assustador seria esse cenário se fosse verdade.
Mas o exército português lembrava quem eram antes da república, e a marinha nunca esquecia quem ordenara que seus navios fossem desmantelados, vendidos ou scuttled em nome de uma visão que nunca chegou a se concretizar.
Nos quartéis silenciosos e fortalezas costeiras, nos salões de oficiais de Lisboa e nos bastidores das ordens, começaram os sussurros. Sussurros que se tornaram mais ousados a cada remessa de comida que atrasava, a cada erro na política externa, e a cada humilhante evento imposto pela administração republicana.
Acabou o tempo dos poetas. Portugal, diziam, precisava de um rei de novo.
E assim, sob os arcos decadentes de um antigo forte com vista para o Tejo, um grupo de homens se reuniu sob ordens falsas de uma inspeção rotineira de defesa costeira. O general Silveira, um dos últimos oficiais treinados antes da queda da monarquia, presidia a reunião com uma calma que deixava até seus assessores mais próximos desconcertados.
Havia dez homens presentes, nenhum abaixo do posto de major. Três da Marinha, o restante do Exército.
"Todos vocês viram o futuro," disse Silveira, diante de um mapa de giz da linha costeira ibérica. "Ele pertence às coroas. A águia e o urso acasalaram, e o leão está morrendo. E aqui estamos nós, sem escudo, sem soberano, implorando migalhas de pessoas idiotas em Lisboa que ainda falam de liberdade enquanto seu povo morre nas ruas."
Ele deixou o silêncio tomar conta — deixou a verdade se estabelecer como poeira.
"Esta república," continuou, "foi criada na covardia e sustentada pela corrupção. Mas ela acaba conosco. Nossos amigos em Berlim não agirão, mas vão assisti-la. E se restabelecermos a coroa, com ordem, com unidade... eles lembrarão da nossa lealdade. Talvez assim, também sejamos lembrados."
Um dos comandantes navais inclinou-se para frente, sua voz carregada de sal e fumaça. "E quem usará a coroa?"
Silveira permitiu-se um sorriso raro, delgado.
"Isso... está sendo providenciado."
Um murmúrio baixo percorreu a sala — incerto, mas não resistente. Todos sentiram o peso da noite, a mesma amargura que queimava nos seus estômagos ao ler jornais estrangeiros que chamavam a sua pátria de irrelevante, decadente, derrotada.
O major Esteves, mais jovem que os demais, mas com olhos que testemunharam o pior do colapso espanhol, esclareceu a voz.
"E se Lisboa não ceder?"
Silveira virou-se lentamente, o sorriso desaparecendo do rosto.
"Então Lisboa queimará."
Uma pausa — medida, deliberada. Não uma ameaça. Uma previsão.
Os homens trocaram olhares — alguns sombrios, outros ansiosos. Nenhum protestou.
"Temos apoiadores discretos dentro da Guarda, e leais ainda integrados ao Ministério da Guerra," continuou Silveira. "Quando chegar a hora, a capital será tomada antes do amanhecer. Os restos da república podem optar pelo exílio, ou pela corda. Não tenho preferência."
Uma respirada agitada de um oficial naval. "E o rei?"
Silveira caminhou até a mesa e desenrolou um pergaminho menor. Nele, uma declaração formal, não assinada, com o selo real da Casa de Bragança — levemente embossado, mas inconfundível.
"Sua Majestade, Manuel II, aguarda nossa palavra. Ele voltará como rei — não como político, não como negociador — mas como soberano. E ao seu lado, uma noiva Habsburgo para ligar nosso destino à ordem imperial da Europa. Esse casamento já está em andamento."
Havia agora um peso na sala, que ninguém falou — mas todos sentiram. Não era mais um sussurro. Era uma decisão. Uma conspiração, no nome apenas. A partir daquele momento, tratava-se de uma operação. Silveira olhou para cada homem, um por um.
"Vamos devolver Portugal sua alma. E, se for preciso, vamos arrancá-la da carne dos traidores — assim seja."
Ninguém aplaudiu. Não precisavam. Levantaram-se, um por um, e deram ao general um aceno silencioso. Lá fora, o Tejo se movia lentamente sob uma lua pálida. Lisboa dormia, sem saber que, nas ruínas de um antigo forte, o reino já começava a ressurgir.