Re: Blood and Iron

Capítulo 479

Re: Blood and Iron

Erwin talvez fosse um dos estudantes mais jovens do país. Tinha acabado de se formar no ensino médio no ano anterior — numa idade em que a maioria dos estudantes ainda estaria na metade do curso.

Mas Erwin não era uma criança comum. Foi criado com os melhores tutores e, desde cedo, herdara os intelectos anormais de seus pais. Não era exagero dizer que formar-se dois anos antes do tempo era, na verdade, uma grande subestimação do que Bruno esperava do garoto.

Porém, para sua defesa, a realidade era que ele tinha deliberadamente tomado seu tempo crescendo — queria estar na mesma faixa de idade que os colegas e aproveitar a juventude enquanto durasse. Algo que parecia quase irônico agora, dado que foi forçado a se casar ainda jovem, mais cedo do que a maioria.

Assim, ele rapidamente concluiu seus estudos e começou tanto uma carreira profissional quanto a rotina universitária. Durante o dia, Erwin trabalhava no conglomerado de seu pai — ou, mais precisamente, treinava sob a orientação de seu tio, que geria o negócio familiar original de onde surgiram todos os demais, graças aos investimentos globais de Bruno.

À noite, Erwin cursava uma das universidades mais prestigiadas de Berlim. Depois, voltava para casa, para sua mulher e filhos, aproveitando o pouco tempo que sobrava para estar com eles — sendo o melhor marido e pai que podia.

Hoje à noite, porém, era um de seus dias de folga. As crianças já estavam nos bercinhos, alimentadas pela mãe. Alya agora estava na cozinha, certificando-se de que a refeição que preparou para si e para o marido estivesse bem feita.

Erwin, por sua vez, estava sentado na velha poltrona de balanço que seu pai usara há tantos anos. Folheava um diário que encontrou escondido atrás do colchão do quarto principal — esquecido, empoeirado, cheio dos pensamentos de uma era que já passou.

Era um diário que Bruno escrevera nos primeiros anos de casamento com Heidi — contendo desde seus pensamentos como recém-casado até o nascimento dos filhos, as guerras às quais saiu para lutar e as razões que alegava para fazê-lo.

O que Erwin achou mais questionável, no entanto, foi uma frase recorrente — repetida várias vezes, especialmente nas entradas mais sombrias do seu pai.

"Tempo... Sempre falta tempo..."

Quando apareceu pela primeira vez, Erwin achou que Bruno se referia à juventude encurtada dele próprio — quão rapidamente fora lançado à adultez. Mas, na segunda, terceira, quarta e quinta ocasiões, Erwin começou a entender.

Seu pai sabia. Desde o final dos anos 1800, ele já tinha consciência de que a Grande Guerra se aproximava. E tudo o que fez foi em preparação para ela. Erwin estava prestes a virar a página quando ouviu uma batida na porta.

Nessa hora, era raro que ele e Alya recebessem visitas. E quem considerasse passar sem avisar sabia que era melhor não aparecer à porta de surpresa. Assim, Erwin alcançou a mesa ao lado — deixando o diário de lado e pegando uma pistola Mauser C96. Conferiu se uma munição estava carregada e liberou o safety enquanto se aproximava da porta.

A mira da pistola pressiona contra a moldura de madeira enquanto ele olhava pelo olho mágico, verificando quem havia ousado incomodá-lo.

Quando viu que era seu tio Christoph, Erwin suspirou aliviado e descarregou manualmente o cão da arma, antes de abrir a porta com uma expressão quase perturbada.

"Tio… você sabe que horas são? Já quase na hora do jantar. Em breve, Alya vai servir a comida que preparou — e duvido que tenha feito uma porção extra pra você. Se tivesse chamado antes, eu podia ter me certificando de que tinha o suficiente."

Christoph deu uma risada e bagunçou os cabelos do sobrinho enquanto Erwin abriu mais a porta para deixá-lo entrar. Mas seu comentário carregava um tom muito mais sério:

"Vejo que herdou a paranoia do seu pai. Atender a porta com uma arma na mão assim — realmente, você é filho do Bruno. Sabendo como você trata visitas indesejadas, da próxima vez vou ligar antes. Enfim, ia passar por aqui e pensei em deixar isso com você."

Ele puxou de dentro do sobretudo uma pasta e a colocou na mesa da sala. Erwin pegou e começou a folhear, enquanto Christoph passeava pelo salão da antiga mansão — o patrimônio familiar que estava sob sua guarda há muito mais tempo do que Bruno havia percebido.

A visão trouxe antigas memórias em Christoph, que transbordaram dele com uma nostalgia silenciosa.

"Esse lugar não mudou em cinquenta anos… Pelo jeito, nem queria que mudasse."

Erwin não ouviu. Estava demasiado perplexo com o conteúdo da pasta. Levantou o olhar para o tio, com incredulidade, e questionou o que tinha acabado de ler.

"Tio, sério isso? Vai contra séculos de tradição."

Christoph suspirou, sentando-se numa velha poltrona forrada de feltro, com uma expressão cansada e resignada.

"Infelizmente, sim. Seu tio — aquele sujeito inconsequente — manchou sua reputação aos olhos do seu avô. Aqui está uma cópia da declaração formal do testamento dele."

"Seu pai foi nomeado único herdeiro da família von Zehntner… do ramo original. Parece que o velho quer juntar as linhagens, para que todos sejamos príncipes como seu pai."

“Não que eu o culpe. Sempre ficamos atrás do nosso irmão mais novo. Era óbvio."

Erwin mal acreditava — mesmo após ler o documento e ouvir a confirmação verbal. Levantou novamente o olhar, uma nova pergunta surgindo conforme as implicações começavam a se firmar.

"Se isso for verdade… por que veio primeiro falar comigo? Por que não contou direto ao meu pai?"

Christoph bufou — não com amargura, mas quase com medo.

"Porque, se seu pai se preocupasse com questões mesquinhas e de visão curta como herança familiar, nada disso estaria acontecendo agora, não é? Além disso, esse homem tem olhos e ouvidos por toda parte. Aposto que ele soube antes de eu."

Ele se levantou, ajustou o sobretudo e deu um sorriso cansado a Erwin.

"Agora, entendo que sua esposa talvez não tenha preparado comida suficiente para três, mas, antes de eu sair, posso realmente tomar uma cerveja. Se não for pedir demais?"

Erwin não tinha certeza se devia sentir pena de Christoph — que, em circunstâncias normais, seria o segundo na linha de sucessão, caso algo acontecesse ao Franz — ou respeito por como ele estava lidando com a notícia com tanta tranquilidade.

De qualquer forma, o mínimo que podia fazer era arrumar uma cerveja para o homem. E assim fez, ainda tentando compreender o quanto a última jogada do avô poderia ser decisiva.

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