
Capítulo 478
Re: Blood and Iron
Bruno terminou seu trabalho cedo, antecipando que sua filha fosse bater à porta logo após o almoço—por volta do meio-dia. E foi exatamente assim, pois o encontro aconteceu justamente quando o relógio marcou trinta minutos.
A porta já estava destrancada—raramente algo diferente disso. Ele só gostava de aviso prévio antes que alguém interrompesse o que estivesse fazendo. Tantas pastas continham materiais confidenciais ou sensíveis que, por segurança da própria família, preferia que não entrassem e vissem algo que não deveriam.
Por sorte, Bruno já esperava a garota, e quando deixou claro que a porta estava aberta, só apareceram dois copos na mesa—ambos com capacidade de um litro—cheios até a borda com cerveja recém-tirada do mini barril que Mantinha em seu escritório.
Eva ficou surpresa com isso. Raramente consumia álcool, e tinha vindo ao seu escritório com roupas casuais, mas ainda carregava a graça tranquila de uma princesa legítima. Quando se sentou em frente ao pai, aguardou que ele concedesse a permissão para beber.
Bruno suspirou e revirou os olhos, tomando um gole da caneca da filha como uma brincadeira—e uma lição de timidez.
"Não finja modéstia agora, garota, não na minha frente. É feio e você sabe disso. Mas tudo bem—se você está me oferecendo sua parte, aceito com prazer!"
Os olhos de Eva arregalaram-se quando seu pai arrancou a caneca de suas mãos ao invés de simplesmente dar a permissão. Ela lhe lançou um olhar de reprovação, sua voz afiada de indignação.
"Que diabo, velho? Eu te respeito e tenho cortesia, e você mesmo assim pega meu drink? O que você é—um patife qualquer?"
Bruno riu enquanto devolvia a caneca para ela, finalmente acendendo a fagulha em seus olhos. Tomou um gole de seu próprio copo enquanto ela fazia bico com raiva e pegava a dela. Achou aquilo adorável, mas decidiu que era hora de dar uma lição que ela não esqueceria.
"Lição número um, garota: no mundo da política, nunca conte com que o homem sentado em frente a você jogue pelo 'regras'. Todo mundo que não compartilha seu sangue ou seu nome por lei é suspeito—e ninguém é quem aparenta ser."
Eva logo percebeu que seu pai estava no modo professor. Estava atenta para ouvir, mas pronta para desafiar o que via como hostilidade desnecessária.
"Não é um pouco paranoico isso? Nem todo mundo é mau."
Os olhos de Bruno se estreitaram, a voz entrando em um tom mais sério, mais calculado—uma verdade lapidada pela experiência.
"Todo homem, mulher e criança tem capacidade tanto de grande virtude quanto de horrores indescritíveis. Achar o contrário é ingenuidade, no melhor dos casos—e estupidez deliberada, no pior."
Eva bebeu sua cerveja em silêncio. Do ponto de vista dela, seu pai era o homem mais brilhante e capaz que conhecera—talvez a mente política mais genial da história. E, embora pudesse discordar de sua visão de mundo, não era tão tola a ponto de rejeitá-la de cara. Afinal, se esse é o jeito dele de pensar—andou construindo seu mundo com base nisso—há claramente algo a aprender.
Bruno via nos olhos dela que ela ainda não estava completamente convencida. Ainda não. Então, decidiu testá-la.
"Tudo bem, deixa eu te propor um cenário."
O rei da Hungria e seu futuro marido estão em uma disputa pela Transilvânia. Eu dividi a terra de modo a resolver a questão, garantindo a proteção do estado-tampão entre romenos e húngaros.
Porém—estou indisposto. Aposentado. Ou simplesmente morto.
O rei da Hungria tenta reivindicar sua alegação e reuniu forças na fronteira. Prometeu a mim que a disputa estava resolvida. Prometeu ao seu marido que não invadiria.
No entanto, tropas estão se concentrando na fronteira—húngaras e romenas. Qual seria a consequência lógica desse cenário? E como você aconselharia seu futuro marido?"
Eva ponderou cuidadosamente a situação. Agora que era algo pessoal, entendeu o peso da questão. Não era ingênua a ponto de acreditar que todo mundo poderia se entender e coexistir pacificamente. Isso não é a realidade, é o sonho de um louco ou de um tolo.
Esse era um problema sério, que poderia explodir no instante em que Bruno não estivesse mais por perto para manter as pessoas sob controle. E, se ela um dia fosse a Kaiserin, talvez precisasse mesmo enfrentar isso. Por isso, levou a questão a sério, como se fosse algo que estivesse acontecendo aqui e agora. Após trinta segundos de reflexão, ela suspirou e balançou a cabeça.
"Sem dissuasão adequada—and a força para apoiá-la—suas promessas não valem nada.
Wilhelm, que então—se Deus desejar—virá a ser Wilhelm IV, não é você nem seu avô. Ele provavelmente tentará resolver a questão com palavras, não com sangue. Mas se as tropas já estão na fronteira, a guerra já começou em tudo, exceto na declaração.
Se não conseguimos proteger nem mesmo um pequeno ducado na Transilvânia, tampouco podemos ser uma potência de peso.
E, se isso acontecer, será apenas uma questão de tempo até os Leões do Tirol serem usurpados por uma matilha de chacais e hienas—demasiado covardes para agir até que pareçamos fracos, velhos e decadentes…
Minha orientação é simples: envie o exército com força total. E se qualquer disparo cruzar a zona desmilitarizada, Romênia e Hungria terão que responder ao poder do aço alemão."
Bruno deu um longo gole na sua caneca, um sorriso orgulhoso se formando nos lábios. Suas palavras eram simples—um reconhecimento, e um elogio de pai.
"Essa é minha pequena princesa."
Ele e Eva continuaram uma longa e profunda conversa sobre história, filosofia, moral, ética e a natureza da força, e quando a primeira discussão terminou, pois não era mais só uma palestra, o jantar chegou, e Eva saiu de lá com uma compreensão bem mais profunda e pragmática do mundo ao seu redor, e da natureza humana como um todo.