
Capítulo 477
Re: Blood and Iron
Conforme prometido, Von Bethmann trabalhou durante o restante da noite e até tarde, coordenando com os departamentos responsáveis para assegurar que os conspiradores no Reichstag — e seus apoiadores partidários — fossem presos antes que pudessem organizar uma revolta em grande escala.
Esse foi o golpe final para a SDP, que agora estava oficialmente banida por ser considerada uma organização extremista política, considerada sediciosa e revolucionária por natureza. As provas coletadas durante as operações na sede do partido — e nas casas de seus membros — foram mais do que suficientes para justificar suas prisões sob acusação de conspiração contra o Reich.
Outros partidos que se aliaram ao chamado "bloco moderado" também foram alvo de investigação. Oficiais armados com mandados apreenderam quaisquer materiais que pudessem levar à identificação e captura de outros revolucionários.
Ninguém ousou resistir — certamente não quando as operações eram feitas sob a vigilância da Polícia Secreta do Kaiser, que chegou em forças completas e deixou claro que qualquer resistência seria enfrentada com força — esmagadora.
E assim, numa única noite, o Reichstag foi reduzido a pouco mais que um adereço — uma ilusão de "poder popular" destruída além de recuperação — sua última pretensão de relevância democrática varrida em uma noite silenciosa.
No dia seguinte, Bruno tomou seu café com calma, após seu treino matinal e rotina de banho, sentado confortavelmente com um almoço reforçado diante de si. Do outro lado da mesa, jornais se espalhavam com manchetes dramáticas sobre as prisões — expondo a corrupção e a conspiração que, da noite para o dia, tinham sido erradicadas com precisão cirúrgica.
Enquanto lia, percebeu Eva remexendo-se na cadeira — inquieta, de uma forma que chamou sua atenção. Afrouxando um pouco a leitura, ele levantou uma sobrancelha e perguntou, num tom preocupado:
"Tá tudo bem? Você não está se sentindo bem, minha filha?"
Eva piscou, percebendo que tinha atraído o foco do pai sem querer. Rápida, endireitou-se e fez um pequeno gesto de vergonha com a cabeça.
"Desculpe, pai — não foi minha intenção interromper seu café matinal. Mas, quando vi a manchete, fiquei um pouco impaciente esperando você terminar de ler."
Bruno inclinou a cabeça levemente, confuso por um instante… até a compreensão bater.
"Ah," murmurou, dobrando o jornal com cuidado e entregando-o a ela sem hesitar.
Ela aceitou com um "obrigada" silencioso, e seus irmãos nem sequer olharam duas vezes — claramente, aquilo era algo normal. Voltaram a comer ou continuar suas conversas, deixando Bruno de observar sua filha com um interesse renovado.
Contemplou enquanto os olhos de Eva percorriam a página — não espremendo, não adivinhando, mas processando o conteúdo com uma precisão cirúrgica. Ela lia rápido, sim, mas não ao acaso. Ele viu o pequeno brilho nos olhos dela ao reagir aos detalhes, a sobrancelha se contrair sutilmente em pensamento.
"Há quanto tempo você está lendo o jornal matinal?" ele perguntou finalmente. "E por que se importa com essa bobagem que eles escrevem?"
Eva bufou e revirou os olhos, como se a pergunta fosse absurda.
"Pelo mesmo motivo que você lê, pai," ela respondeu com tom controlado. "Gosto de saber o que está acontecendo no mundo — especialmente aqui na minha própria terra. Como posso apoiar meu futuro marido quando ele assumir o trono se ficar na ignorância do povo e dos problemas deles?"
Bruno gargalhou — alto — achando que era uma brincadeira. Mas, quando ninguém mais riu e Heidi, em particular, lhe lançou um olhar como se ele tivesse zombado dos sonhos da garota, a risada morreu na garganta dele. Ele se ajeitou desconfortavelmente e se recostou na cadeira.
"Você está falando sério?" ele perguntou.
"Sim, pai," Eva respondeu sem pestanejar, com expressão calma e determinada.
Bruno deu um leve recosto, deixando sua xícara de lado. "Querida, eu não leio o jornal para saber de alguma coisa. Eu controlo o jornal. É propaganda — moldada para a narrativa que eu decido que o público precisa acreditar naquela semana. Investi na propriedade da Imprensa por um motivo."
Ele deu um ombro de leve, casual. "Quem controla a notícia controla o povo. Se você realmente quisesse saber o que acontece de verdade, poderia ter vindo falar comigo. Minha porta está sempre aberta — se quiser uma aula de política ou filosofia. Claro que preferiria que batesse na porta antes…"
Isto gerou uma reação inesperada. Heidi quase engasgou com os ovos, e Eva abaixou o jornal, chocada.
"Espera… você fala sério?" ela perguntou.
Bruno piscou. "Claro. Por que não?"
O choque de Eva se transformou numa expressão calorosa, quase radiante. Ela assentiu, talvez rápido demais, como se tivesse medo dele retrucar na mesma hora.
"De jeito nenhum, pai. Na verdade, ficaria muito feliz em passar um tempo com você. Você se importaria se eu passasse aí mais tarde?"
Bruno sorriu com entusiasmo, fazendo coro com ela, com um sorriso sincero.
"Claro. Pode aparecer quando quiser — só bate na porta antes."
E assim, a dúvida que vinha martelando Bruno há semanas — o que diabos eu faço de leisure? — foi resolvida. Ele não era um homem de filmes, livros ou caça esportiva. Não, ele era um homem que preparava seus filhos para liderar reinos, impérios e exércitos.
Pelo fato de ser assim, ele e Eva compartilhariam um café da manhã repleto de intrigas e debates políticos. Primeiro, sobre as ações tomadas contra os dissidentes dentro do sistema político alemão, e depois, sobre qualquer outro assunto que surgisse durante o resto do encontro.
Isso dava a Bruno uma boa noção da formação da garota, que, apesar de avançada, era ingênua e bondosa demais para entender a posição que um dia teria que assumir como futura Imperatriz.
E, por isso, Bruno decidiu que sua primeira aula formal sobre o reino da política com sua filha mais velha não seria sobre os acontecimentos do dia, mas sobre a dura realidade deles — quando despojada da fachada, da máscara falsa que usam para o público.
Bruno, afinal, era um pragmatista primeiro, e um ideólogo em segundo — e sua filha aprenderia por que isso era assim, quando ela fosse ao seu escritório mais tarde. Quando ela deixasse o local, o mundo pareceria um pouco menos belo — e um pouco mais real.