
Capítulo 465
Re: Blood and Iron
Golpes de estado raramente resolviam os problemas de uma nação. Na verdade, tinham uma tendência brutal de abrir uma ferida ainda maior em uma já mortal, tentando fechá-la com pouco mais do que bandagens e oração.
A maioria das pessoas não percebia como era difícil limpar litros de sangue de tapetes, carpetes e tapeçarias — especialmente se quisessem preservar o patrimônio manchado por isso.
Para Manuel, que havia retornado ao país de seu nascimento, ao palácio onde deveria governar, aquela era uma lembrança sombria do preço que se paga para estar sentado ali, naquele momento.
Ele notou, mais uma vez, a mancha de sangue teimosa perto da base do trono — mais escura agora. Talvez tivesse penetrado mais fundo na pedra. Uma consequência da violência que ele desejava que pudesse ter sido evitada — e que ele sequer soube até a pesada coroa divina ser colocada sobre sua testa.
O exército havia deposto a República de Portugal praticamente da noite para o dia. E o fizeram porque, apesar de permanecer neutros na grande guerra, a Península Ibérica sofreu as consequências da derrota da França.
A democracia não foi feita para suportar dificuldades, e isso se mostrou lamentavelmente verdade para a jovem república, que tinha menos de uma década de fundação antes de ser levada ao abismo.
Qual seria a alternativa? O marxismo era desanimador, pois onde quer que osbolchevistas surgissem, traziam morte e desespero, e as alternativas nacionalistas pareciam favorecer a coroa nesta vida, mais do que o trigo e os fasces.
Por isso, Manuel foi trazido de volta, numa tentativa de restabelecer o Reino de Portugal, que existira de forma estável por quase 800 anos, antes que um grupo de industriais ricos achasse que podia governar melhor o país por meio de representantes eleitos democraticamente.
Mas o exército? Ele sabia que essa utopia tinha feito apenas Portugal sangrar até não suportar mais a crise atual. Então, o que fizeram? Eliminarem todos os responsáveis pelo estado em que o país se encontrava.
Em uma única noite, a junta militar e seus soldados prenderam e executaram sumariamente os capitalistas, os políticos eleitos e os burocratas sem mandato que, de alguma forma, tinham participação na revolução de 1910, além do assassinato do rei Carlos I, dois anos antes.
Agora, Manuel sentava-se em um trono manchado de sangue, se preparando para seu casamento com a Arquiduquesa Hedwig de Habsburgo. Na vida passada de Bruno, ele tinha se casado com uma Hohenzollern da Ramificação Suábia, mas o efeito borboleta era forte neste mundo.
Ao orquestrar a restauração da Liga dos Três Imperadores no início dos anos 1900, Bruno tinha praticamente tornado qualquer tentativa dos alemães de tentar conquistar Portugal irrelevante e inútil.
Na sua vida anterior, o Hohenzollern suábio tinha se casado com Manuel, na esperança de que ele recuperasse seu trono e se alinhando a Berlim. Contudo, nesta vida, essa ideia nem passava pela cabeça.
Por isso, Manuel II permaneceu solteiro até agora… Até o momento em que seu trono foi devolvido e um descendente da casa de Habsburgo passou a ser uma opção viável. Claro, os Habsburgo não eram mais soberanos — o Arciprestado da Áustria tinha sido anexado pela Alemanha e o resto do antigo Império se desfez em guerra civil. Mas ainda assim, eram uma família importante na política europeia.
O legítimo rei voltou a Portugal, mas não estava nada feliz com isso. Desde pequeno, foi criado para governar esta terra, e o sangue foi derramado pelo Exército para assegurar o seu retorno — mas tudo que conquistou foi um reino cheio de crises em cascata.
Em vez de trazer estabilidade imediata a uma situação caótica, o golpe simplesmente reabriu as feridas da revolução de 1910, que o forçou ao exílio em primeiro lugar. Lisboa agora estava sob o pulso de ferro do Exército português — mas isso não significava que todos os elementos ainda fiéis à República deposta tinham sido completamente eliminados.
Não, eles haviam fugido para outras cidades, para o interior, e reuniram apoio, seja de fontes nacionais ou internacionais; armas e homens fluíam para o lado republicano, e tudo indicava que uma guerra civil estava se formando.
Esse casamento com os Habsburgo era mais importante do que nunca, porque Manuel sabia que sua esposa, pelo menos em alguns aspectos, tinha uma relação amistosa com o homem que os alemães consideravam como seu Deus da Guerra vivo. Se seu auxílio fosse solicitado, qualquer violência poderia ser evitada antes mesmo de começar… Basta citar o que aconteceria se o Carniceiro de Belgrado entrasse em Lisboa com um exército de voluntários.
Porém, considerando o estado de segurança em Lisboa e em Portugal como um todo, Manuel percebeu que o casamento não poderia acontecer em sua terra natal, uma proposta quase insultuosa para o povo de Portugal e que, se tentasse, minaria totalmente sua soberania e legitimidade.
Mesmo assim, o exército português, fragmentado, não tinha condições de assegurar de fato a cidade nem a área ao redor da catedral para uma cerimônia de casamento pacífica, sem incidentes.
Manuel já estava à beira de uma crise em seu estado mental quando, felizmente, um enviado da Junta Militar, que atuava temporariamente como governo sob sua liderança oficial, se aproximou dele com uma carta na mão.
"Senhor… Esta carta chegou pelo correio… Acho prudente que a leia imediatamente, considerando o selo nela…"
O soldado não falou mais nada, entregou a carta e recuou, quase como se ela estivesse possuída pelo diabo. E quando Manuel a virou, observando a cera que a fechava, ele quase sofreu um ataque cardíaco.
Porque o símbolo era da Casa von Zehntner-Tirol: um leão rampante de gules, com uma coroa dourada, e cuja pata dianteira pisava em um crânio preto com ossos cruzados. Todo em um escudo de prata, havia somente um brasão tão único neste mundo — e ele soube exatamente a quem pertencia.
Assim, as mãos de Manuel tremeram intensamente ao abrir a carta e ler as palavras escritas ali. Era uma proposta de contrato — uma que poderia resolver seus problemas, mas a um preço terrível.
Manuel leu uma vez. Depois, duas. E então levou as mãos ao rosto, atônito. Por quase uma década, esperou para voltar para casa e reivindicar seu trono; e agora que tinha, sua única maneira de garantir isso era assinar um contrato com o diabo.