
Capítulo 500
Re: Blood and Iron
Meses haviam se passado desde que Pétain esmagou a Milícia Galliana e tomou Paris. Mas a paz não chegou, ao menos não daquele jeito que ele imaginava.
Por um tempo, houve um silêncio absoluto de de Gaulle. Apesar das tentativas de perseguir o homem, a lenda desaparecera na névoa, como um espectro. E embora fosse uma amarga deglutição, Pétain teve algum sossego, acreditando que seu maior rival tinha simplesmente decidido desaparecer no pôr do sol e admitir a derrota.
Porém, isso não correspondia à realidade, não… de Gaulle e os membros remanescentes de sua Milícia Galliana aproveitaram o tempo para se reconstruir, infiltrar-se no novo governo de Paris e conquistar apoio das massas.
Atualmente, porém, de Gaulle estava escondido em uma região rural fora de Paris. Viviam ocultos no porão de uma humilde família de fazendeiros, sem quaisquer suspeitas de vínculo com ele ou com a revolução.
Neste momento, ele estava sentado no subterrâneo, com um cigarro numa mão, enquanto apontava para o mapa sobre a mesa. Iluminado apenas por uma lanterna de óleo, discutia seus planos para o futuro com uma expressão grave no rosto.
"Não vou mentir para vocês… Os últimos meses foram difíceis para todos nós e testaram a determinação de muitos entre vocês… Mas não ficamos parada apenas esperando que nos esqueçam. Não, estamos aproveitando o tempo para fazer uma grande reemergência."
"E nenhuma oportunidade maior se apresentou do que agora… Na sexta-feira. Pétain viajará a Genebra para se reunir com o inimigo que mais odiamos. Essa informação vem diretamente de seu círculo íntimo."
Enquanto ele estivesse fora, um de nossos alvos mais importantes ficaria sob controle de Paris. Em termos antigos, pode-se considerá-lo um regente enquanto o rei estivesse fora em missão diplomática.
Nosso alvo é Maxime Weygand… Como muitos de vocês sabem, após Pétain assegurar Paris e desafiar os outros senhores da guerra, Maxime foi o único a se submeter voluntariamente ao novo Governo de Restauração Nacional. Assim, consolidou sua posição como segundo de Pétain e sucessor.
Ele é mais competente que Pétain, e muitos acreditam que é a verdadeira força por trás do governo. Se conseguirmos eliminá-lo, o progresso que Pétain fez nesses últimos meses — proporcionando estabilidade e apoio às pessoas sob seu domínio — irá rapidamente se deteriorar. E, quando isso acontecer, mais pessoas se voltarão para o nosso lado.
Áxel… quero você encarregado de planejar o assassinato. Não podemos falhar aqui, pois toda a nossa revolução morrerá ainda na sua infância, entendeu?"
Um homem avançou. Era velho… Demasiado velho para ter lutado na Grande Guerra como recruta. Talvez fosse um oficial? Contudo, seu porte não lembrava o de um oficial.
Tinha cabelos curtos e bagunçados, de tom laranja que começava a envelhecer em tons cinzentos. E uma barba por fazer de cor semelhante. Seus olhos eram esmeraldas, e falava com sotaque parisiense perfeito, apesar de estar vestido como um fazendeiro no momento.
"Entendido… Vou garantir que o alvo não viva para ver o domingo… Há algo que devo saber antes de preparar a operação?"
De Gaulle não disse nada… Axel, um recruta recente, tinha ingressado apenas após a queda da Milícia Galliana. Mas já havia se mostrado um ativo incrivelmente capaz, além de leal à resistência. Tanto que o general envelhecido não pôde evitar suspeitar que fosse um anjo enviado por Deus para salvar a França de seus problemas atuais.
"Não… Confio no seu julgamento, Axel. Faça do jeito que achar melhor…"
Dito isso, de Gaulle rapidamente encerrou a reunião, e Axel partiu para começar seus preparativos para o assassinato.
Axel logo se afastou do grupo de rebeldes que se escondia no interior, e se viu numa velha e feia espelunca. Onde rapidamente abriu barris de madeira que, à primeira vista, pareciam estar cheios de feno.
Porém, assim que levantou o falso revestimento de dentro do recipiente, um pequeno rádio portátil apareceu. O homem rapidamente conectou-se ao aparelho e enviou uma mensagem para o leste. Que, por meio de um dispositivo enigma —[1] — estava perfeitamente criptografada.
A mensagem foi interceptada do outro lado do Reno, em Berlim, por agentes do Reich e do seu serviço de inteligência militar. Que rapidamente decodificaram seu conteúdo e o repassaram a Bruno na Tirol. Que leu em voz alta para Eva, que estava sentada do outro lado, durante uma de suas aulas diárias.
"Parece que a resistência francesa contra o novo governo de Pétain pretende atacar seu segundo em comando quando eu me encontrar com ele em alguns dias, em Genebra. Você pode agradecer ao seu tio por ter reunido essa inteligência para a gente."
"Mesmo na velhice, esse homem continua atuando como agente de campo. Não posso reclamar, porém. As informações que ele coletou para o Reich têm sido inestimáveis em várias frentes. Ainda assim, me preocupo com a segurança dele — mais cedo ou mais tarde, pode acabar deitado numa cova comum, se não se aposentar logo…"
Os olhos de Eva arregalaram de preocupação enquanto ela pulava da cadeira, assustando-se.
"O tio Max está em perigo? Por que vocês não o resgatam imediatamente?"
Bruno suspirou, olhou para a filha e balançou a cabeça decepcionado, batendo a língua várias vezes para deixar bem claro o seu ponto.
"Calma aí… Se um dia você ajudar seu futuro marido a governar essa nação, precisará pensar com clareza e objetividade, sem se deixar dominar por apego pessoal, mesmo que se trate do seu próprio sangue numa crise grave. Menos do que isso só colocará mais risco a ele…"
Eva sentou-se, visivelmente nervosa, sentindo-se bastante envergonhada por sua suposta fragilidade. Tanto que Bruno suspirou e sorriu suavemente, tentando tranquilizá-la, mostrando que ela não havia completamente falhado em suas expectativas de crescimento.
"Relaxa, Eva, como eu disse, você ainda tem um longo caminho pela frente. Felizmente para você, estou aqui para orientar sua jornada. Seu tio está bem, por enquanto. Só estou expressando meus temores do que pode acontecer com ele no futuro, se não desistir de sua posição atual."
"Agora que você teve um tempo para respirar e pensar com calma, como acha que devemos prosseguir?"
Bruno tinha razão. Eva realmente teve tempo de acalmar-se e pensar melhor. E, quando conseguiu, mais uma vez mostrou uma expressão de satisfação, lançando ao pai uma resposta espirituosa.
"Ah? Então agora somos nós, hein? Não foi faz poucos dias que você disse que ainda não sou capaz de ditar a política externa do país? O que mudou?"
Bruno não conseguiu segurar uma risada ao ver a resposta da filha, que devolvia suas próprias palavras contra ele. Na verdade, ele teve que admitir que ela o vencera no próprio jogo, com uma única frase.
"Boa resposta…"
[1] - Dispositivo de criptografia altamente sofisticado usado para comunicações secretas.