Re: Blood and Iron

Capítulo 495

Re: Blood and Iron

Bruno passou a tarde no palácio de Luise, relembrando os momentos em que serviu ao lado de Erich. Ele não escondeu nada. Nem ela.

Conversaram sobre como cada uma conheceu o homem. Luise começou. Eles tinham se encontrado por mero acaso numa cafeteria em Berlim. Ela visitava uma parente distante, tentando conseguir um empréstimo pequeno. Mas foram rejeitados.

Em um estado de penúria e depressão, ela estava prestes a gastar seu último pfennig em café, quando Erich decidiu comprá-lo para ela. E a partir daí, eles se deram bem. Foi uma história romântica, algo que poderia sair de uma comédia romântica.

Ele não afirmou isso em voz alta, mas Bruno suspeitava que, pela maneira como ela descrevia Erich, Luise havia se apaixonado pela máscara que ele usava em público para esconder o demônio que tinha por trás.

Depois, foi a vez de Bruno compartilhar. No começo, falou de forma leve e bem humorada. Contou sobre seu primeiro encontro com Erich, quando o homem era quase uma criança mimada de uma aristocracia privilegiada na academia, uma revelação que deixou Luise surpreso.

"Você nem vai acreditar agora, mas ele era um criança mimada quando nos conhecemos na academia," disse Bruno com uma risada seca. "Muito orgulhoso para calçar os próprios sapatos no começo. Mas o campo de batalha ensina humildade a qualquer um, cedo ou tarde."

Então seu tom mudou, como uma sombra atravessando a memória.

"Ele nunca lamentou os mortos. Nem os nossos. Depois de Mukden, eu o vi dar a ordem de matar como se fosse rotina. Os últimos russos estavam refugiados numa vala, feridos e esperando. 'Acabe com isso.' Era só o que ele dizia. E eles fizeram. Todos eles."

"Foi aí que percebi que alguma coisa nele tinha mudado. Ou talvez sempre tivesse ali, esperando uma guerra cruel o suficiente para despertá-la."

Luise ficou em silêncio por um longo tempo... Ela não sabia como responder a isso. Queria negar que fosse verdade, defender o homem que amava. Mas também sabia como ele tinha morrido. E soube, naquele instante.

Ela entendeu que Bruno tinha contado a verdade, na medida de sua memória. Era evidente pelo rosto dele que não havia conforto naquilo, mas havia honestidade. E, no fim, Luise recebeu algo que não tinha há três anos: encerramento. Ela não se sentiu melhor. Não de imediato. Mas finalmente compreendeu.


Quase ao sair, Bruno ouviu algo; passos leves descendo as escadas, rápidos e ansiosos.

"Mamãe! Mamãe!"

Uma menina, com pouco mais de três anos, apareceu do batente da escada. Rabo de cavalo preto como o baú, enquadrava seu rosto, mas os olhos de um azul profundo, inconfundíveis. Ela congelou ao ver Bruno, meio escondida atrás da parede, com curiosidade e medo dançando no olhar.

Uma empregada correu atrás dela, claramente aflita.

"Sinto muito, minha senhora. Eu mandei ela não descer ainda! Ela não me escuta!"

Bruno demorou um pouco para perceber de quem eram os olhos da criança. Sua voz ficou presa na garganta ao ver Luise se aproximar, pegando a menina no colo.

"Érika," ela disse suavemente. "Quero que você conheça alguém. Este é Bruno. Ele era amigo do seu pai... Eles serviram juntos por muito tempo. Pode dar um oi?"

A menina enterrou o rosto no peito de Luise. Luise riu baixinho, pedindo desculpas com um olhar.

"Normalmente ela não é tão tímida… Não sei o que deu nela. De qualquer forma, Bruno, obrigado por tudo. Acho que está na hora de você voltar para sua família, não é? Não se atrase."

Bruno ficou ali, pasmo. Uma filha. Erich tinha deixado uma filha para trás. E, pelo jeito, ela poderia ter nascido depois da morte dele. Era totalmente possível que ele nunca tivesse sabido da existência dela.

Ainda atordoado, Walter assentiu lentamente.

"Você tem razão. Perdi a noção do tempo. Ficar relembrando... um hábito horrível meu. Mas digo o que sentei. Se precisar de alguma coisa, especialmente agora, por favor, me procure. É o mínimo que posso fazer."

Ele se despediu sem mais palavras. A viagem de trem de volta ao Tirol foi longa e silenciosa.

Quando a porta se fechou atrás dele, Luise lançou um suspiro profundo. Érika apareceu, espiando de seu esconderijo, olhando para a mãe com curiosidade silenciosa.

Wolfgang deu um passo à frente, com voz suave.

"Minha senhora... agora que conhece a verdade... Você se sente melhor? Consegue finalmente seguir em frente?"

Luise olhou para sua filha, depois voltou o olhar para Wolfgang, com um sorriso agridoce.

"Que escolha tenho? Uma casa cheia de criados não cria uma criança. Ela já perdeu o pai... Então, tenho que trabalhar o dobro para criá-la direito."

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Bruno chegou em casa exatamente no horário previsto. Nos Reich, os trens funcionavam com precisão absoluta.

Seu palácio, ainda em construção, estava longe de estar pronto. Projetado como um monumento e um lar futuro para gerações dos von Zehntner, levaria anos para ficar completo.

Mas Bruno não reparou na estrutura de andaimes nem na poeira de mármore. O que chamou sua atenção foi um borrão de movimento, e, de repente, foi derrubado.

Suas duas filhas mais velhas saltaram nele como lobos.

Bruno, instintivamente, segurou Eva e Elsa no ar, mantendo-as em pé para que não se machucassem. Elas olhavam para ele, sem fôlego e animadas.

"Pai, você está bem? A mamãe falou da sua visita—"

"Papai, precisa de alguma coisa? Uma cerveja bem gelada, talvez?"

Uma terceira voz cortou com autoridade severa.

"Já estou na sua frente, meninas. E não disse para não pularem em cima do seu pai assim? Vocês duas não são tão delicadas quanto pensam! Ainda bem que ele é forte o suficiente para aguentar esse tipo de ataque!"

Heidi apareceu com um litro de cerveja e entregou ao marido com um sorriso maroto. Eva e Elsa se afastaram envergonhadas.

Heidi, que sempre foi o pilar da vida de Bruno, sabia exatamente o que ele precisava após um dia longo. Sua presença sozinho já trazia calma.

"Sua cerveja está fresquinha, e o spa já está preparado. Vá lá tomar banho. Quando acabar, volte que o jantar já vai estar na mesa."

Bruno virou-se, deu-lhe um beijo suave, cheio de gratidão.

"Obrigado, querida. Você é a melhor."

Enquanto Bruno se afastava, Heidi virou-se para as filhas, que agora faziam cara de derrotadas, em tom de brincadeira.

"E é por isso, meninas," disse com orgulho, "que seu pai nunca sequer cogitou arrumar uma amante. Lembrem-se disso."

Ela saiu do cômodo, deixando Eva e Elsa se olharem, surpresas, como se tivessem descoberto o segredo de um casamento longo, feliz e duradouro.

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