
Capítulo 470
Re: Blood and Iron
Uma planta de giesta rolou pelas ruas enlameadas de Tijuana, perto da fronteira com os Estados Unidos, e ainda assim ninguém esteve lá para testemunhar. Ninguém ousava atravessar as ruas, a não ser quando era absolutamente necessário. Não agora… Desde que as Cabeças Negras passaram por ali.
A lei e a ordem tinham sido restabelecidas numa região que, até poucos meses atrás, era controlada pelo seu conterrâneo guerreiro revolucionário do momento. E agora? Agora havia paz—não conquistada por palavras, mas pelo fim de uma forca.
A cidade parecia um povoado fantasma, salvo pelos civis audaciosos que se arriscavam além de suas portas, e pelas forças ocupantes que, agora, pareciam já não ter mais corda devido ao número de corpos balançando em postes.
Essa era a coisa que a maioria não percebia… Uma vez que a lei e a ordem desabaram, a única maneira de restabelecê-las era eliminar aqueles que se deliciaram no caos… E havia apenas uma forma eficaz de fazer isso.
No entanto, mesmo assim, Tijuana estava mais limpa e segura do que nos últimos dez anos. Do que se ouvia não era o som de tiros ou combates… Bem, salvo pelos gritos de um jovem sendo arrastado pelas ruas pelos policiais do momento, chutando e gritando em espanhol enquanto assim fazia.
"Són ofídias! Vocês venham aqui! Vocês roubam nossa comida, bebem nossa água! E ainda têm a coragem de nos chamar de ladrões só por pegar de volta o que é necessário para sobreviver! Vocês não passam de um grupo de bandidos de araque!"
O rapaz sendo arrastado tinha recém saído da infância ou estava bem perto disso. Mas aqueles que o puxavam não reagiram, pelo menos, não com palavras. Nem dava pra ver o rosto deles, que estavam cobertos por bandanas com caveira.
Em vez disso, eles calaram o menino com a ponta do rifle, que bateu bruta e rapidamente em seu plexo solar, arrancando-lhe o fôlego com um tiro preciso. Ele se dobrou, ofegando por ar, a respiração completamente arrancada dos pulmões. Enquanto era arrastado até a viela do carrasco, onde iria juntar-se aos outros criminosos ao descanso eterno.
O menino não tinha medo da morte, já que, sendo uma criança, tinha visto demais aquilo. Não… Seus olhos não estavam cheios de terror, mas de ressentimento. Esses homens prometiam ordem, e quando chegaram, eram só mais um bando de senhores de guerra, com uma bandeira diferente e armas mais pesadas.
Ele simplesmente cuspiu em direção aos captores enquanto eles colocavam a forca ao redor do pescoço dele e enumeravam seus crimes. Roubo menor era só um dos muitos. Não, esse menino era prova da podridão que infectava uma terra quando a ordem desaparecia e os instintos mais baixos prevaleciam.
Entre suas acusações estavam crimes como sequestro, assalto à mão armada e outros crimes mais hediondos que não deveriam ser falados em roda de pessoas decentes. E, após os homens que o prenderam pronunciá-lo, com a mesma autoridade, para alguns poucos espectadores corajosos de presenciar a justiça sendo feita, eles chutaram o assento sob suas pernas e seu corpo ficou rígido após um estalo breve e audible.
Os homens que o condenaram à morte nem sequer olharam para o cadáver que acabou de morrido. Ao contrário, se foram com os rifles na mão, procurando outro criminoso para caçar.
Esse era o cenário que dominava o norte do México naquele momento. Não importava em que cidade ou povoado você estivesse, era uma cena comum.
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Bruno estava sentado em seu escritório, observando relatórios de lá do Atlântico. O grupo Werwolf tinha conseguido extrair de determinado lugar no México, agora não atuando mais como assessores, já que Washington, ou melhor, o presidente dos Estados Unidos, não tinha mais necessidade deles.
Fizeram seu trabalho, treinaram marionetes para que os EUA pudessem agir, e um preço em lingotes de ouro foi pago pelo serviço. Mas agora? Os Estados Unidos poderiam cuidar do resto, ou assim pensava o presidente…
A verdade é que o presidente tinha caído exatamente na armadilha de Bruno, e não era só ele, mas toda a sua administração. Bruno analisava gravações, tanto áudio quanto documentos escritos, de conversas que tinha com o homem.
Como o presidente dos Estados Unidos sabia que existia gravação de chamadas telefônicas? Ou que os homens que instalaram a linha telefônica na Sala Oval eram de uma empresa da qual Bruno tinha participação por trás dos bastidores?
Tudo o que se dizia na Sala Oval Bruno ouvia de alguma forma ou de outra. E todas as chamadas feitas de lá estavam gravadas em rolo ou em páginas. Bruno tinha provas convincentes contra o governo federal dos EUA a ponto de desencadear uma revolução num piscar de olhos.
Essa era a verdadeira razão de ter se aproximado do presidente… Porque queria que ele confessasse que ultrapassara todos os limites constitucionais e legais de seu cargo.
Bruno era extremamente cuidadoso na forma de falar com o homem, justamente porque sabia que tudo era gravado, e ele nunca admitiria conspiração ou ações criminosas.
Aliás, até hoje, esse era seu jeito de se expressar em qualquer ambiente formal. E, sobre sua mesa, havia tanta evidência coletada que, sinceramente, ele sentia pena dos opositores, que entravam de cabeça na armadilha sem sequer perceber.
A questão agora era: como usar melhor essas provas contra a Presidência e toda sua administração? Vazá-las para a imprensa? Provocar uma guerra civil nos EUA? Ou usá-las como chantagem para vassalizar o país de forma informal?
O problema era o tempo: tinha uma janela de oportunidade, pois em um ano haveria outra eleição, e duvidava que o atual presidente concorreria a um terceiro mandato…
E quando a ideia finalmente surgiu na cabeça de Bruno, não veio um sorriso ou uma expressão de satisfação, mas uma expressão de pesar, enquanto balançava a cabeça e suspirava…
"Eu realmente posso ser o diabo… Com um pouco de editorialização e uma ajudinha do Hearst... Eu consigo colocar o Congresso de joelhos na terça-feira, e ainda chamam isso de democracia."