
Capítulo 486
Re: Blood and Iron
O Imperador Taisho olhou intensamente para Bruno por um bom tempo. O que o homem havia dito era algo que ninguém jamais tinha ousado a transmitir na sua presença até então. Ele não iria se ajoelhar? Isso era uma afronta à sua condição de Imperador do Japão, uma figura de poder quase divino entre seu povo.
Para esse estrangeiro recusar um ato tão simples de submissão, mesmo atuando como emissário do exterior, era um golpe direto em seu prestígio. Mas Bruno não piscou. Não hesitou. Não demonstrou medo, ao rejeitar de forma descarada e aberta a ideia de se ajoelhar e baixar a cabeça.
Vozes próximas começaram a se manifestar em resistência, indignadas com a falta de "Educação básica" de Bruno. Ao mesmo tempo, um par de olhos familiares fixou seu olhar sobre Bruno, surpresos por ele ter retornado, por ter envelhecido tão bem.
Ela era uma princesa que nunca deveria ter existido neste mundo, e ainda assim existia, uma aberração em uma linha do tempo que era quase idêntica à de onde Bruno vindo. E ela havia se apaixonado por Bruno na primeira vez que se encontraram, quando ainda era apenas uma garotinha. Agora, como uma mulher adulta, que há anos não via ou pensava em Bruno, ela não pôde deixar de sentir uma mistura profunda e complicada de emoções no peito, enquanto seu marido, o herdeiro aparente do Trono Japonês, observava Bruno com uma pontada de desprezo nos olhos.
Bruno, afinal, era um homem de grande notoriedade nos círculos militares do Japão. O nome Mamushi ainda era lembrado pelos generais e almirantes de mais altos cargos. O conselheiro estrangeiro que havia sido "enganado" a assumir a responsabilidade pelos fracassos em Port Arthur, apenas para vencer a batalha com um ataque decisivo na colina de 203 metros.
Ele conseguiu então perseguir a retirada russa até Mukden, onde destruiu o exército até o último homem com fogo de metralhadoras e artilharia esmagadora. Meiji tinha uma afeição por Bruno, especialmente porque Bruno compartilhava livremente suas profundas análises militares com o envelhecido imperador.
Por outro lado, a nova geração de comandantes não era fã dele. Eles enxergavam Bruno como alguém que havia roubado a glória dos generais em Port Arthur e Mukden. Ele não era um herói, quanto mais alguém digno do orgulho que o imperador anterior havia atribuído a ele.
E agora, Bruno permanecia de forma desafiadora na frente do novo imperador, seus olhos transmitindo uma intenção clara. No final, o ambiente ficou completamente silencioso, enquanto todos aguardavam a resposta do Imperador, que ao fim respondeu de uma forma que cortou de vez os laços diplomáticos com a Alemanha.
"Se você não se ajoelhar, então não tem lugar nesta corte. Volte para onde veio, estrangeiro. Por causa de quem você é e do que representa para o seu Kaiser, concedo sua afronta uma única vez, mas volte a essas terras e serei forçado a exigir sua cabeça! Vá embora!"
Bruno não reagiu em absoluto. Não fez nenhum gesto de contestação, nem mesmo falou alguma coisa a respeito. Simplesmente virou-se e caminhou em direção à porta. Anteviu quase de antemão esse desfecho, e mesmo assim, sabia que pouco poderiam discutir em relação às disputas em andamento.
O Japão queria as ilhas alemãs por seus próprios motivos, e Bruno não conseguiria convencê-los do contrário. Não havia outro resultado possível, e essa visita mais parecia uma formalidade do que uma intervenção real.
Por isso, saiu do palácio do Imperador com a resposta que o Kaiser buscava. Uma justificativa para investir em defesas e de colocar tropas na região. E Taisho foi induzido a dar essa razão ao Reich.
Porém, ao quase desembarcar no navio para retornar ao Reich, Bruno foi parado por alguns guardas armados. A princípio, pensou que talvez o Imperador estivesse tentando mandá-lo assassinar em segredo, mas então o guarda falou com ele, garantindo-lhe com um saludo formal e respeitável que não eram hostis.
"General Mamushi! Entendemos que nossa ordem é garantir sua partida o mais breve possível, mas antes de partir, há uma pessoa que deseja falar com o senhor, para se despedir antes de você partir para sempre dessas terras…"
Bruno não fazia ideia de quem fosse aquela pessoa, mas decidiu esperar, mesmo assim. Os seus próprios guarda-costas estavam em alerta máximo nesse momento. Contudo, logo um carro chegou ao cais, e uma jovem mulher, vestida de forma bastante luxuosa com traje ocidental, avançou na direção dele.
Tantos anos se passaram, que Bruno mal reconheceu a Princesa do Japão, mas jamais esqueceria seu nome, pois ela era uma entidade desconhecida nesse mundo, que só soube sobre graças a um cruzamento fatídico de seus destinos.
Quando a Princesa Sakura ficou lá na sua frente, com as mãos juntas e mexendo nervosamente em ansiedade, ela se preparava para dizer algo, qualquer coisa, para colocar seus pensamentos em palavras, mas Bruno levantou um dedo para seus lábios, silenciando-a com um simples gesto de silêncio.
"Nem uma palavra, Princesa... A maior maldição desta vida é ter sido agraciado com a aparência e o charme de um mulherengo, sem o coração para ser um... Vou repetir o que já disse aos outros que nunca deixaram de nutrir suas ilusões infantis em relação a mim.
Jamais foi para ser, e eu nunca te considerei algo além de uma amiga… Viva bem sua vida, e caso nossas nações entrem em conflito num futuro próximo, honre sua família e sua pátria."
Após dizer isso, Bruno virou-se e foi embora, deixando a Princesa do Japão, que achava que já havia superado Bruno, com uma frieza absoluta e a certeza final de que assim deveria ser. Se o Império do Japão e o Reich alemão iriam declarar guerra por colônias no sudeste, isso ainda estava por ser decidido.
Mas, para Bruno, sua história com a Terra do Sol Nascente e seu povo tinha chegado ao fim. Afinal, seus sonhos não estavam no Oriente, mas na Europa. E foi para lá que toda sua atenção passaria a se direcionar a partir daquele dia.