Re: Blood and Iron

Capítulo 481

Re: Blood and Iron

Mesmo depois que Eva começou a atingir a fase adulta e a perspectiva de casamento entrou no horizonte, ela continuou praticando esgrima. Sua habilidade com a espada era fácil de colocar no nível olímpico, e ainda assim ela não tinha vontade de competir em uma arena internacional que ainda não existia, pelo menos não para mulheres.

Não, ela entendia seu papel na vida. Dentro de um ano, ou talvez no próximo, ela se casaria com o neto do Kaiser, e juntos teriam filhos. Ela seria sua Kaiserin, sua imperatriz.

Como sua mãe, ela não tinha intenção de simplesmente parecer bonita e ficar à toa. Seja continuando o trabalho filantrópico que sua mãe fazia para formar a próxima geração de governantes ou aconselhando seu futuro marido sobre política e assuntos internacionais, Eva passava seus dias dominando todas as habilidades que podia, enquanto cuidava de sua saúde, beleza e intelecto.

De manhã, treinava esgrima. À tarde, debatias política com seu pai. À noite, realizava suas tarefas domésticas. Apesar de ser uma princesa literal, Eva herdara o senso de responsabilidade de seus pais. Por mais poderosos ou ricos que se tornassem, ainda estavam subordinados ao povo que os servia.

Enquanto isso, Erwin avançava na aprendizagem de comandar o conglomerado do pai. Tinha formação em assuntos militares, sabia marchar, atirar e liderar homens, mas escolheu um caminho diferente do de seu pai.

Por isso, estudou direito, economia e política na universidade, enquanto treinava com o irmão mais velho de Bruno, que tinha décadas de experiência no mundo dos negócios.

Mas Elsa, a mais nova dos três filhos mais velhos de Bruno, era uma presença silenciosa e observadora.

Se Bruno não fosse tão próximo dela, até ele mesmo talvez não soubesse exatamente do que ela era capaz. Elsa era tímida e introvertida por natureza, mas possuía um talento artístico que Bruno não podia deixar de admirar.

Ela tinha uma pegada clássica em suas pinturas fotorrealistas, inspiradas por mestres renascentistas e do início da era moderna. Elsa sonhava em retratar figuras e eventos importantes de sua época—óleo sobre tela, atemporal e tocante.

Embora sempre tivesse sido uma artista talentosa, algo mudou no instante em que viu o retrato de seu pai pendurado no Palácio de Inverno do czar. A partir daquele dia, ela se fechou no seu quarto fora da escola e das refeições familiares, trabalhando silenciosamente numa obra-prima.

E, é claro, o tema de sua primeira pintura verdadeiramente inspirada foi seu pai.

Mas não o pai que sorria para ela no café da manhã ou que a deitava na cama à noite. Não, essa pintura retratava o homem assombrado que retornara da guerra. As linhas ressecadas de cansaço em seu rosto, os olhos que nunca realmente a olhavam, mas através dela.

O tempo suavizou algumas dessas feridas, e Bruno há anos se tornara mais presente, mais carinhoso. Mas Elsa ainda se lembrava daqueles olhos. Os que enchiam seus sonhos.

Não porque a assustassem, mas porque doíam. Porque ela chorava, silenciosamente, pelo sofrimento do pai e dos homens como ele que suportavam tudo para que outros puderem viver em paz.

Sua obra foi inspirada em fotografias de Ypres, onde uma geração inteira de jovens franceses se afogava na lama e no sangue. A chuva caía sobre um campo de batalha destruído. As trincheiras alemãs resistiam à barragem de bombas. Aviões biplanos pairavam como silhuetas nos céus escurecidos pela tempestade.

Jovens soldados buscavam abrigo às pressas, mas seu pai permanecia imóvel. A chuva cobria seu uniforme de marechal-do-exército. Ele fumava um cigarro. Não se movia. Ficava ali como uma estátua de bronze, sem vida, marcado pelo tempo; olhando não para quem assistia, mas além deles. A mesma expressão de olhar a mil metros de distância que ela tinha visto mil vezes.

Com um último toque de pincel; acrescentando a cicatriz de esgrima na face do pai, adquirida na Academia anos atrás, Elsa deu um passo para trás, satisfeita. Ela acabara de guardar o pincel quando houve uma batida na porta.

"Elsa," a voz do pai chamou de fora. "Você está aí? Quero falar com você… se tiver um tempinho, é claro."

Elsa congelou. Estava coberta de tinta; seu avental encharcado de óleos e manchas. O pavor tomou conta.

"Eck! Espera—espera um minutinho! Segura aí!"

Bruno, que tinha muitas lembranças de suas próprias travessuras na adolescência, estreitou os olhos ao ouvir o tom. Sem hesitar, pegou a chave mestra que tinha para todas as portas da mansão e destrancou a porta, desconfiado de alguma encrenca.

Ao invés disso, encontrou sua filha enrolada em tela e pano manchado de óleo, tendo acabado de tropeçar em um pano. Ela estava toda marcada de tinta, mas sua obra-prima permaneceu intacta, preservada.

Correu até ela e a ajudou a ficar de pé. "Está bem? Você caiu feio, hein?"

Elsa, envergonhada e corada, aceitou sua mão. Sua voz era tão baixa que Bruno quase não conseguiu ouvir.

"Eu… Não queria que você descobrisse assim. Ia esperar até o Dia dos Pais…"

Bruno franziu a testa até seus olhos encontrarem a pintura. Ele paralisou. Olhou fixamente. E continuou olhando. Elsa quase chorou. Achava que ele odiava a pintura. Que odiava o trabalho dela. Que tinha interpretado tudo errado.

Porém, então Bruno pegou a obra, examinou e um sorriso amargo apareceu em seus lábios. Acariciou a cabeça da filha com suavidade e falou.

"Isso… isso é uma verdadeira obra-prima. Você mesma pintou? Tenho que dizer… gosto mais dessa do que a que Nicholas encomendou."

Elsa ficou sem resposta. Só conseguiu piscar, boquiaberta, antes de dar um passo à frente e envolvê-lo em um forte abraço.

"Acho que… já que você já viu, tenho que pintar outra para você. Para o Dia dos Pais."

Bruno aceitou o abraço da filha e a apertou com força, enquanto continuava a observar a pintura, até virar ela para ver as palavras inscritas no verso da tela e a assinatura dela abaixo.

"Ao Homem que Encarou a Tempestade—E Optou Por Ficar Parado

Você nunca me contou o que viu. Mas eu vi o que isso lhe custou. Não em palavras, mas na quietude por trás dos seus olhos. Na forma como sua mão tremia quando achava que ninguém observava. Na maneira como você olhava além de nós, como se temesse que o passado voltasse.

Este mundo não foi construído sobre paz. Foi feito por homens que atravessaram o fogo e carregaram o peso de mil fantasmas, para que pudéssemos viver sem o fogo em nossas vidas.

Você nunca pediu para ser lembrado. Então, eu vou lembrar de você. Não como o mundo vê, mas como eu vejo—Cansado, corajoso e ainda belo na chuva.

Esta obra não é apenas para você. É por você. E por aqueles como você, que passaram pelo inferno para que o resto de nós não precisasse.

– Elsa von Zehntner"

Elsa nunca viu, mas o poema que escreveu no verso foi o toque final que fez o homem derramar uma lágrima—uma lágrima de lembrança por todos que morreram defendendo o mundo antigo. Um mundo que o destino tentou assassinar à sangue frio, sacrificando uma geração para construir uma cópia mais fria e vazia.

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