
Capítulo 493
Re: Blood and Iron
Não passou muito tempo após a reunião de Bruno com o Presidente dos Estados Unidos que ele se viu de volta em casa, no Reich alemão.
Sua embarcação pousou em Trieste, onde embarcou em um trem particular com destino ao Tirol, seu santuário. Sua família o aguardava lá. E aguardavam mesmo.
Heidi estava na entrada do hall de entrada do palácio, com uma caneca cheia de um litro de cerveja na mão. Usava um Dirndl tradicional tirolês, seus cabelos dourados presos em duas tranças, com uma coroa de edelweiss fresca sobre a cabeça. A própria visão fazia a respiração de Bruno emperrar na garganta.
Ele, em contrapartida, vestia roupas formais modernas, bem alinhadas, uma combinação estranha ao lado do traje folclórico dela, que atualmente tinha sido quase relegado a feriados e paradas. Ainda assim, não conseguiu segurar um sorriso. Ela estava radiante. E absurdamente fora de lugar.
Antes que pudesse perguntar por que ela havia se vestido daquela forma, Heidi sorriu de lado e empurrou a caneca na direção dele, com uma expressão brincalhona, na dose certa de sedução.
"Só bebe sua cerveja e fica feliz, seu velho libertino."
Bruno explodiu em risadas, pegando a caneca e dando um gole bem generoso antes de voltar o olhar para ela. Ela caminhou de maneira instintiva em direção à sala de estar, balançando os quadris, e se jogou no sofá com graça treinada.
Ele abriu a boca para falar, mas foi interrompido novamente. Enquanto ela se inclinava no braço do sofá, atrair o olhar exatamente onde ela queria.
"As crianças foram embora por essa noite. A Eva levou elas para Berlim. Ela já tem idade suficiente, é responsável... e ficarão no antigo palácio."
Seu sorriso se aprofundou.
"Isso quer dizer que, pela primeira vez em muito tempo, temos a noite toda só pra gente. Então… o que vamos fazer com ela?"
A pergunta até parecia desnecessária, não é? Bruno tinha a intenção de aproveitar cada segundo.
Em outro lugar, Heinrich retornou ao seu sítio, modesto pelos padrões nobres, mas bonito e tranquilo. Bem longe de Berlim, não tão longe da antiga casa de Bruno.
Seu mordomo o cumprimentou na porta, assim como a equipe da cozinha. Apesar do novo status de nobreza, Heinrich nunca construiu um palácio nem formou uma comitiva. Manteve as coisas pequenas. Fiéis. Familiares.
Essa lealdade o manteve são após a guerra, especialmente depois que Alya se casou com Erwin e se mudou para a própria casa. Ele ainda visitava, claro, fazia refeições, contava histórias, mimava os netos, mas eles nunca tinham vindo visitá-lo.
Até esta noite.
Ele entrou na cozinha e arregalou os olhos. Estavam lá: Erwin e Alya, trabalhando com seus funcionários na preparação de uma refeição.
"Alya? Erwin? O que vocês estão fazendo aqui?"
Alya virou, com farinha na saia, e correu na direção dele sem hesitar.
"Pai! Você está em casa!"
Ela o abraçou, mas logo recuou, com o rosto franzido enquanto cheirava o colarinho dele, detectando um aroma estranho: perfume…
"Pai…" ela falou, de forma séria, soltando-o. "Por favor, diga que não voltou aos velhos hábitos agora que estou casada e fora de casa."
Heinrich coçou a nuca, claramente sem saída.
"Eu não sei do que você está falando."
Ela suspirou, exasperada.
"Você nunca se casou novamente. E por anos eu entendi. Você tinha medo de que nenhuma mulher quisesse cuidar de mim. Mas eu já cresci. Tenho uma família. Você não precisa mais ficar sozinho."
Ela cruzou os braços, com uma expressão de bronca inconfundível.
"Está na hora de parar de agir como um garoto de quarenta anos que nunca amadureceu!"
Heinrich se deixou cair na cadeira. Uma caneca de cerveja gelada o esperava. Ele a pegou, olhando para o líquido âmbar como se pudesse encontrar respostas nele.
"Estão me repreendendo… pela minha própria filha…"
Ele deu um gole.
Na outra ponta da cozinha, Alya cutucou Erwin. Quietamente, ela sussurrou: " Acho que ele não está bem com a paz. Parece… perdido. Sem alguém para voltar para casa. Você pode perguntar ao seu pai se ele conhece alguém? Talvez arrumar alguém pra ele? Antes que ele caia ainda mais."
Erwin lançou um olhar para Heinrich, preocupado. Assentiu com a cabeça.
"Vou ligar para o pai amanhã de manhã. Ele talvez não conheça ninguém… mas minha mãe certamente conhece."
Alya estreitou os olhos, captando a implicação. Erwin levantou as mãos em rendição.
"Acho que ela conhece alguém", ele esclareceu rapidamente.
Alya não disse mais nada. Só olhou de volta para o pai, cansada, um pouco bêbada, lentamente desaparecendo. Ela só conseguiu suspirar, porque sabia que o marido tinha razão. Poucas coisas eram atraentes em uma velha solteirona solitária… mesmo que ela tivesse um título nobre e um cofre cheio de ouro.
Mais tarde, naquela noite, a chuva começou a cair, enquanto a escuridão cobria Berlim. Em um cemitério a poucos quilômetros da cidade, erguia-se uma lápide com um único nome:
"Erich von Humboldt"
Nenhuma gravação indicava quem ele fora em vida. A pedra era simples, discreta, sem ostentação. Mas flores frescas estavam à sua base, molhadas pela chuva. Eram colocadas regularmente, quase como um ritual, durante quase três anos, por um benfeitor desconhecido.
E lá estava ela esta noite, silenciosa sob a chuva. Vestida com um vestido de luto do cabeça aos pés.
A chuva escondia suas lágrimas, ou poderia ter escondido, se não fosse o homem ao seu lado levantar um guarda-chuva sobre ela.
"Minha senhora... já faz quase três anos desde o falecimento do seu noivo," ele disse suavemente. "Sei que ainda não aceitou isso. Mas peço, por favor, não se deixe adoecer pela tristeza."
A mulher de cabelos negros como a ave-rei limpou o rosto e tentou se recompor. Estava chorando há quase quinze minutos. Com esforço visível, olhou para o mordomo da família, forçando um sorriso frágil.
"Desculpe por ter trazido vocês aqui tão longe, Wolfgang… e por fazer vocês cuidarem de mim assim. Mas alguém precisa manter as flores sempre frescas. É o mínimo que devo a ele."
Wolfgang suspirou silenciosamente e balançou a cabeça. Apesar do relato oficial da morte de Erich, nem ele nem Lady Luise tinham realmente acreditado nela.
Mas Erich tinha deixado claro: se algo acontecesse com ele, eles deveriam nunca contatar seu comandante.
Luise nunca entendeu o porquê. Erich sempre falava de Bruno com respeito, até com reverência. E, ainda assim, ela obedecia ao pedido dele, mesmo duas anos depois.
De qualquer forma, Wolfgang começou a se questionar. Talvez fosse o silêncio, não a tristeza, que impedisse sua senhora de seguir em frente. E talvez fosse hora de quebrar o voto que uma vez fez ao homem que deveria se casar com ela.