Re: Blood and Iron

Capítulo 455

Re: Blood and Iron

Considerando que era um aeródromo militar onde Bruno e sua filha Elsa pousaram, soldados russos estavam presentes para recebê-los — e revisar a bagagem para garantir que tudo estivesse em ordem.

Apesar de ser um príncipe na Rússia e amigo próximo dos Romanov, Bruno ainda era um estrangeiro — e um poderoso. Por isso, medidas de segurança foram tomadas. Bruno entendia que era uma questão de formalidade, não de desconfiança.

Os soldados russos inspecionaram pessoalmente as malas dele e de Elsa antes de dispensá-los, onde uma escolta blindada os aguardava — protegida pelo guarda pessoal do czar.

Eles não estavam vestidos com uniformes militares. As armas estavam escondidas sob sobretudos civis e trajes sob medida. A razão era óbvia: elementos desonestos existem em toda sociedade — especialmente agentes inimigos infiltrados no Império Russo. A chegada de Bruno não era algo para ser divulgado para aqueles que se escondiam nas sombras.

Depois que Bruno confirmou que Elsa estava devidamente acomodada, os dois partiram em direção ao Palácio de Inverno do czar — uma mansão barroca tão elegante e opulenta quanto Bruno já tinha visto.

A cada vez que entrava nos salões sagrados da dinastia Romanov, ele se emocionava novamente com o peso da história, a linhagem e a beleza artística.

E dessa vez não foi diferente. Bruno parou na entrada — seu olhar fixo em uma nova pintura que não estava lá antes. Ela chamou sua atenção imediatamente. Era ele.

Ele estava retratado com o uniforme completo de marechal de campo russo, posando de forma quase santificada, segurando um rosário ortodoxo na mão, em um gesto solene de oração. Na outra mão: um Fedorov Avtomat, segurado de modo arrumado no ombro. Um halo pairava acima de sua cabeça. O fundo era luz angelical pura — sugerindo canonização. Canonização que ele ainda não tinha recebido.

Bruno ficou olhando por um bom tempo, impressionado. Quem quer que fosse o artista, havia capturado todas as minúcias íntimas do seu rosto e postura — mesmo que tudo abaixo do queixo estivesse obscurecido pelo uniforme.

Elsa também parou — inicialmente impaciente, tentando puxar seu pai para frente até perceber o que tinha chamado sua atenção. Ela congelou.

Na pintura — mais realista que uma fotografia — Bruno parecia ter no máximo dezoito anos. Era a idade física que o tempo de Cronos tinha congelado em seu rosto por muitos anos, pelo menos até chegar aos trinta e o relógio voltar a correr.

E Elsa se viu incapaz de entender aquilo. O que ela via não era o pai amoroso, que sempre cuidou dela — nem o veterano cansado de guerra, que tentava esconder sua dor ao voltar pra casa. O que ela via era um mártir.

Cabeça abaixada. Boca aberta em oração solene. Um jovem de idade não maior que sua irmã Eva — venerado em seu auge, santificado em unção e reverência. Bruno finalmente quebrou o silêncio, com um tom meio admirador, meio desconcertado.

"Preciso dizer… o artista conhece meus traços de um jeito um pouco demais. É meio estranho. Essa é uma face que não vejo há muito tempo — mas é minha, até o último detalhe. Nenhum milímetro errado. Nenhuma linha desalinhada do que eu via no espelho uma vez. De verdade, é um trabalho exemplar. O que acha, Elsa?"

Mas quando Bruno virou-se, Elsa não respondeu. Estava totalmente atônita — tanto que não percebeu a escorte de Romanov que estava atrás dela, sorrindo silenciosamente diante da admiração de Bruno. Foi Olga quem, finalmente, trouxe Elsa de volta à realidade. A menina ficou surpreendida, corada de vergonha.

"Gostaria de poder dizer que fui eu quem pintou isso," disse Olga, "mas, na verdade, foi meu pai quem encomendou. Ele procurou de ponta a ponta alguém que pudesse realizar a sua visão. Pode-se dizer… que é uma forma de agradecer a você. Por tudo o que fez — por nós, e pela Rússia."

Bruno voltou sua atenção para a pintura, respirando fundo. Sacudiu a cabeça — não com raiva, mas com um peso que recusava-se a aceitar elogios fáceis. Se era humildade genuína, ou uma tentativa de proteger a filha do alcance de tudo o que tinha feito, ninguém poderia garantir.

"Receio que a admiração do seu pai esteja equivocada. Eu só tive uma participação pequena em colocar abaixo a ameaça vermelha. Vim para a Rússia cumprir meu dever — nada mais. Um homem civilizado, lutando contra mongóis bolcheviques que, se deixassem, afogaríamos essa nação e o mundo em sangue."

Mas Alexei avançou — rejeitando as tentativas de Bruno de se manter humilde, deixando claro o quão crucial havia sido seu papel.

"Isso não é verdade. Quando você e seus homens chegaram a São Petersburgo, a situação já tinha saído do controle. Minha família precisou fugir para o leste, para escapar dos bolcheviques. A cidade estava sitiada. Ia cair — até que você liderou nossos defensores, derrotou Trotsky e destruiu o exército dele."

"Vocês libertaram nossa capital. Depois marcharam pelo Volga — cortando o caminho do exército vermelho de aço e chumbo. Tomaram Tsaritsyn. Desmantelaram a sua indústria. Garantiram um futuro aos leais. Gerações inteiras de homens se reuniram sob a bandeira do meu pai por causa de vocês. Devemos muito mais do que conseguimos entregar — e meu pai pretende corrigir isso."

Elsa tinha pouco mais de um ano quando seu pai foi à Rússia durante o inverno de 1904. Ela não se lembrava de nada. E, nos estudos, o registro alemão retratava como se um pequeno grupo de voluntários tivesse ajudado o czar numa vitória já se desenrolando.

Nunca mencionaram que foi seu pai, liderando a frente, quem matou os vermelhos a centenas de milhares. Quanto a Bruno e Heidi? Nunca falaram muito sobre o quanto o homem esteve envolvido com assuntos globais, até que seus filhos fossem grandes o suficiente para entender de verdade. E essa era uma lição recente — ainda não totalmente fixada na cabeça da menina.

Mas agora, ao ouvir Alexei contar a história sob a perspectiva russa, sua expressão mudou — uma mistura de admiração, descrença e reverência. Pela primeira vez, Alexei a viu sem a máscara — sem a princesa de gelo, sem a postura nobre ensaiada. Apenas Elsa. E, naquele momento, ele se apaixonou por ela novamente.

Bruno, por sua vez, suspirou e apertou a ponte do nariz. Olhou para a pintura uma última vez — e murmurou baixinho. Tão baixinho que só ele ouviu:

"Seu moleque… precisava mesmo me mostrar como o diabo na frente do meu próprio filho?"

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