
Capítulo 429
Re: Blood and Iron
A cerimônia de abertura tinha chegado ao fim, deixando a multidão completamente maravilhada. Amanhã começariam os Jogos. Mas, naquela noite, a Alemanha celebrava.
Uma grande recepção foi realizada em Berlim para os líderes mundiais e delegados internacionais — aqueles que vieram testemunhar o nascimento de uma nova era. Uma era de aço e ordem, de civilização redesenhada pela disciplina — e não pelo declínio.
Para os alemães, o ar não estava carregado de arrogância, mas de segurança. Uma névoa de confiança silenciosa permeava os grandes salões. Eles treinaram mais duro, por mais tempo e em condições melhores que qualquer outra nação. E agora, estavam prontos — não apenas para competir, mas para dominar.
Enquanto os atletas se preparavam para os próximos desafios — de força, agilidade, percepção e pura determinação — Bruno e sua família estavam entre os poderosos.
A maioria dos homens presentes eram representantes de governos que, apenas dois anos antes, haviam sido inimigos. O sangue tinha secado, pelo menos superficialmente. Agora era hora de reconstruir — e de fazer as contas.
Delegados da Grã-Bretanha estavam presentes. O próprio rei George compareceu — o soberano cansado, que quase assistiu a força do exército britânico ser esmagada na última ofensiva dos Potências Centrais em direção a Paris. Ele voltou sua atenção, então, para o império, reunindo o pouco de força que ainda tinha para sufocar a rebelião nas colônias com férrea determinação.
Desde a Irlanda, que foi subjugada de forma brutal nos últimos dois anos, com táticas reminiscentes da repressão à Revolta da Páscoa na vida anterior de Bruno, o coração do Reino Unido voltara à ordem — mas seu império sangrava.
De Índia a África, os domínios coloniais estavam em chamas de revolta. rios vermelhos eram comuns onde os mapas britânicos marcavam como civilizados. E ainda assim, ali estavam o rei George e seus ministros, rostos marcados pela guerra — e também pelo sofrimento da fase pós-conflito.
Se a Grande Guerra tinha testado sua resistência, os últimos dois anos tinham consumido suas almas.
O rei britânico não olhava com carinho para Bruno. Wilhelm, ele podia tolerar — havia sangue compartilhado, antigas ligações, a ilusão de uma camaradagem nobre. Mas Bruno? Bruno era a faca por trás da coroa. O homem que transformou estratégia em humilhação. Um general que reescreveu a guerra em si.
Ele o temia. Resentia-o. E, talvez, nos momentos mais silenciosos, até mesmo admirava-o. Mas não o perdoava.
Bruno, por sua parte, devolvia o sentimento — embora sua repulsa estivesse dirigida a outro lugar. Seu olhar caiu frio sobre os chamados representantes da República Francesa. Você pode perguntar — como eles poderiam estar ali, quando a própria França estava em chamas? Quando a República estava morta em tudo, exceto no nome?
Porque eram esses covardes que fugiram de Paris antes de ela ser derrotada. Deixaram seu povo para trás. Abandonaram seus soldados, suas cidades, suas ruas. E agora reapareciam, barbeados e vestidos com finos trajes, bebendo vinho em Berlim como se ainda tivessem um país para representar.
Os olhos de Bruno se estreitaram. Os filhos de Ludwig — o pai do Reich — tinham vindo buscar o que era deles. E esses homens, esses fantasmas de uma república caída, não tinham lugar nesta nova era.
Apesar de Bruno achar esses cães insolentes — que ousaram reivindicar legitimidade — uma verdadeira aberração, ele permanecia um homem de civilização. Não iniciaria conflito em uma sala de paz. Mas, se o ambiente se tornasse hostil — ele encerraria. Sem hesitar, e sem remorso.
No entanto, Eva vinha segurando sua fúria por mais de uma hora. E com toda razão. A delegação francesa — aquilo que restava dela — se agrupava perto de uma das colunas douradas, bebendo longos cálices de vinho e sorrindo de lado com sobrancelhas zombeteiras. Suas palavras, embora baixas, eram descuidadas o suficiente para que qualquer que falasse francês fluentemente as entendesse.
Ela não era apenas fluente — falava francês com a graça de uma parisiense de verdade. Tão precisa, tão natural, que esses bobos sentiriam a dor do próprio nacionalismo se ouvissem uma princesa alemã falar sua língua materna com mais eloquência do que eles jamais poderiam. E mesmo assim, as palavras vulgares deles só lhe causavam um leve gesto de tédio — um movimento silencioso de irritação, não de raiva.
"Olhem para eles — fingindo ser imperadores. Sem cultura, sem alma. Só ferro e uniformes."
Seus dedos se cerraram levemente sobre o copo — não por frustração, mas pela audácia da frase, dada a situação. Mesmo assim, sua expressão permaneceu controlada. Não em um ambiente como aquele. Não sob os olhos atentos de diplomatas, generais e reis — e certamente não ao lado do seu noivo, o neto do Kaiser, que a contemplava completamente fascinado por sua postura.
Embora tivesse nascido filha de um homem que fora o nono filho de um senhor Junker prussiano, as façanhas de Bruno tinham há muito tempo elevado a família deles. A linhagem principal agora tinha o status de condes, e, mais recentemente, Bruno fora agraciado com o domínio hereditário de Tirol — tornando-se um monarca por direito próprio.
E ela? Agora era uma princesa de verdade. Sabia que não devia fazer escândalo. A tentação era forte, claro. Mas foi criada para isso. E, mais do que isso — foi criada por ele.
Seu olhar se dirigiu ao seu pai. Bruno não tinha se mexido. Estava à vontade, com um copo de vinho escuro na mão, a presença pesada do ambiente atrás dele. Não parecia nem divertido, nem ofendido. Apenas atento.
Então, em perfeito francês, falado bem alto para que os franceses ouvissem — e mais ninguém — ele murmurou:
"Deixem esses pequenos homens, exilados de sua terra natal, fazerem suas críticas zombeteiras."
Sua voz soou como trovão distante.
"Se quisesse, poderia ter destruído a capital deles até o chão. A artilharia estava carregada. O caminho estava livre. Mas optei por outra coisa — não por misericórdia, mas por disciplina."
Uma pausa, um suspiro lento — como se estivesse rememorando a própria decisão.
"Mas obrigar os franceses a se renderem sem precisar lutar… e preservar a beleza inerente de Paris — isso é vitória suprema."
Deixou as palavras se assentarem como poeira sobre mármore, e acrescentou, com um sorriso de desprezo:
"Ou teria sido… se os malditos tontos não a tivessem queimado sozinhos no momento em que eu fui embora."
Bruno estava cansado dos insultos dirigidos à Alemanha durante o que deveria ser uma celebração de paz — uma comemoração na qual esses supostos "diplomatas" não tinham lugar. Não eram emissários. Eram relíquias — embriagados, exilados e sem bandeira.
E agora, tinham se aventurado demais na toca do leão.
Ele os deixou cavarem sua própria cova, centímetro por centímetro, a cada gole de vinho roubado.
Agora era hora de enterrá-los.
Carregou suas palavras de veneno, as entregou com precisão cirúrgica e assistiu ao anzol morder.
Os franceses perderam os nervos.
Seu orgulho — encharcado com vinho e debilitado pela vergonha — não resistiu à provocação. Viraram-se, berrando obscenidades na própria língua. Alta. Clara.
Os olhos de Eva se arregalaram ao ver seu pai — indiferente — alcançando uma nova taça e lhe dando um sorriso de canto, com um piscar de olho sutil.
Então, suavemente:
"Agora é hora de defendermos nosso lar desses intrusos indesejados."
Com calma e determinação, Bruno ajustou a gravata e deu um passo à frente.
O ambiente inteiro mudou.
Todas as atenções se voltaram. As conversas pararam no meio da frase. O lobo estava se movendo — e três porcos gordos tinham exposto suas barrigas na frente de suas presas.