Re: Blood and Iron

Capítulo 424

Re: Blood and Iron

Horas haviam se passado na calada da noite enquanto Bruno estava sentado sozinho em um trem, seguindo na direção oposta à coluna blindada que agora avançava sob seu comando—rumo ao Grão-Ducado de Luxemburgo para trazer estabilidade, segurança e a promessa de ordem.

A viagem era marcada por uma introspecção silenciosa. Promessas feitas ao acaso. Batalhas travadas para honrá-las. E o silêncio, doloroso, pelo custo de cumprir o dever. Alguém sempre arderia.

Essa era a verdade que Bruno tinha aprendido com o tempo. Quando obrigações se confrontavam, quando a honra exigia decisões impossíveis, não havia vitória—apenas consequências. E, embora o tiroteio já tivesse cessado há muito tempo, o eco de cada bala ainda permanecia em sua mente.

Ele nunca deixou que isso o consumisse. Nunca completamente. Mas estava sempre lá—esperando. Uma sombra sombria às margens da paz. Assim eram os demônios que persistiam no coração de todo veterano. Um preço a ser pago por aqueles que o travavam.

São pensamentos que ele não gostava de deixar entrar. Não quando ainda havia trabalho a fazer. E assim, como sempre fazia, Bruno os empurrou para longe.


Quando Bruno voltou para casa, o sol já estava alto, derramando raios dourados sobre as montanhas dos Alpes. A luz filtrava-se pelas janelas imponentes de sua residência no topo da montanha, iluminando um palácio que era uma mistura de fortaleza e obra de arte.

Majestoso. Regio. Imponente. Mas Bruno não foi recebido naquela manhã com a glória ou inspiração divina de um deus. Não—ele encontrou a quieta e fervente ira de uma dona de casa deixada sozinha com seus pensamentos enquanto seu marido desaparecia na noite para viver uma espécie de cavaleiro errante em terras distantes.

Heidi não estava brava como outros poderiam esperar. Ela confiava em Bruno. Ele nunca lhe dera motivos para duvidar de sua fidelidade. Sabia que, por mais tentações que o mundo jogasse a ele, seu coração permanecia inabalável. Seu amor, como seu dever, era indestrutível.

Não, o que a mantinha acordada a noite toda não era ciúme ou medo por sua vida—embora, antigamente, essas coisas a atormentassem. O que a doía agora era algo mais profundo: o entendimento de que Bruno mais uma vez sacrificaria seu próprio conforto, seu bem-estar, para cumprir uma promessa feita num momento passageiro de cavalaria.

Heidi ficou em silêncio, enquanto o sol nascia, envolta em um roupão, segurando algo que Bruno há muito havia esquecido: um vestido delicado e luxuoso que ele lhe dera quando eram adolescentes, para um baile real que ela nunca teria outra oportunidade de frequentar. Ela o guardara por todos esses anos, escondido como um símbolo de um passado compartilhado.

Bruno parou ao vê-la. Seu rosto, banhado pela luz do sol, era sereno, mas carregado de tristeza. Ver aquele vestido nas mãos dela tocou algo nele, mas a verdade por trás de sua tristeza permanecia evasiva.

Calmamente, Bruno se aproximou por trás dela e envolveu seus ombros com os braços, beijando seu pescoço com a ternura de um homem há muito dedicado. Sua voz era baixa e sincera.

"Sinto muito por te preocupar, meu amor. A situação era urgente, e não tive tempo de explicar. Mas não fiz nada que desonrasse você. Eu te amo até a morte, Heidi. Você sabe disso."

Heidi suspirou e alcançou seu café, frio há tempos. O silêncio entre eles se prolongou, pesado com o peso de coisas não ditas.

Quando finalmente se virou para encará-lo, seu rosto tinha calma, mas uma lágrima solitária deslizou pela maçã do rosto. Ela segurou suas mãos e as colocou contra o rosto, como um ritual sagrado.

"Sei disso, Bruno. Sei que você rejeitaria todas as sereias que o diabo enviasse ao seu caminho. Isso não é o que me assombra."

Sua voz tremia, suave e melancólica.

"É o quanto você sofre. Como se entrega facilmente ao fogo por promessas feitas ao passar. Você liderou aquela ofensiva hoje à noite não porque fosse preciso, mas porque prometeu. Mesmo que tenha sido brincadeira, você não conseguiu suportar a ideia de decepcionar alguém."

E por causa disso, foi obrigado a ferir alguém que jurou proteger. Eu sei o que isso faz com você. Só quero entender... por que sempre tem que ser você?"

Bruno piscou. De todas as coisas que poderia imaginar que pesariam na alma dela, isso não estava na lista. Ele era um homem de dever, de princípios. De votos. E agora que esses princípios haviam ferido a pessoa que mais amava, ele se viu sem palavras.

Heidi viu uma raríssima expressão de confusão passar por seu rosto e não pôde deixar de rir suavemente. Ela apertou sua mão e o guiou delicadamente rumo às escadas, sacudindo a poeira e o sangue da guerra como se fosse um vento passageiro.

"É isso que eu adoro em você,"

disse ela, com um tom leve, mas carregado de uma ternura agridoce.

"Você dá e dá e dá. Nunca pensa que talvez alguém deva lutar por você, de vez em quando."

Ela parou ao pé da escada e olhou para trás, seu sorriso marcado pela fadiga.

"Não sei você, mas estou exausta. Gostaria muito de dormir um pouco. Quer vir comigo?"

Bruno, finalmente, sorriu—um sorriso cansado e perspicaz—e assentiu.

"Claro. Depois da noite que tive, acho que poderia dormir mil anos. Mas vou precisar de alguns minutos para me arrumar. Você não gostaria de uma bagunçada vindo pro seu cama, né?"

Heidi riu e puxou a manga dele, levando-o até perto até que um pouco da sujeira transbordasse para seu vestido.

"Acho que isso quer dizer que vamos tomar banho juntos, não é?"

Subiram as escadas lado a lado, não como heróis de guerra ou governantes, mas como duas pessoas desesperadamente agarradas à paz entre as batalhas.

E quando finalmente se deixaram dormir na cama—limpos, exaustos, embrulhados um no outro—durmiram o dia inteiro como pais irresponsáveis que esqueceram do próprio reino. Porque, por apenas uma manhã, o amor foi mais importante do que o dever.

E isso também era uma forma de coragem.

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