
Capítulo 397
Re: Blood and Iron
As ruas de Viena tinham se tornado uma ferida aberta, supurando sangue, fumaça e os ecos incessantes de tiros. A purga da Brigada Werwolf havia começado de forma definitiva, e embora sua campanha já tivesse destruído o submundo do crime na cidade, a batalha ainda estava longe de acabar.
A resistência não era composta por uma única facção organizada. Em vez disso, era uma teia caótica de bandidos, agrupamentos criminosos e revolucionários ideológicos. Se paramilitares etno-nacionalistas guerreavam em nome de suas próprias visões fracturadas de soberania, fanáticos religiosos viam o colapso da monarquia como sinal para desencadear sua própria guerra santa, e revolucionários marxistas — encorajados pelo caos — buscavam transformar Viena na primeira fortaleza de uma nova ordem socialista.
Esses grupos não lutavam pela Áustria — lutavam por si mesmos. E, ao fazer isso, garantiam que a queda do império fosse ainda mais sangrenta do que sua morte lenta e inevitável.
Uma garoa fria varria as avenidas destruídas, transformando as ruas de paralelepípedos em um lamaçal de lama e sangue. O cheiro de carne queimada pairava no ar, um lembrete nauseante de que a cidade estava sendo devorada de dentro para fora. No interior de um prédio abandonado, agora transformado em posto de comando de uma das maiores células revolucionárias, Gregor Varga, ex-operador portuário convertido em líder de uma milícia marxista, observava uma mesa coberta de armas roubadas e materiais para fabricação de bombas.
"A Brigada Werwolf está atacando primeiro os bordéis e as casas de drogas. Eles estão desmantelando as redes que financiam nossas operações," cuspiu um de seus tenentes. "Não podemos permitir que continuem avançando sem limites."
Gregor apertou a mandíbula. "Então, vamos contra-atacar. Não somos ratos para serem mortos na rua. A monarquia já morreu. A revolução começou. Temos que atacar primeiro e fazê-los sangrar."
Suas palavras receberam acenos de cabeça e murmúrios de aprovação. Todos ali tinham visto o que acontecia quando a Brigada Werwolf chegava — quarteirões inteiros destruídos, suspeitos de serem dissidentes alinhados contra as paredes e executados, famílias inteiras sumindo na calada da noite. Esses mercenários não eram soldados da Áustria. Eram carrascos, pagos em ouro e sangue.
As ordens foram dadas, passando pelos becos e ruínas como sussurros ao vento. Pequenas células de combatentes — alguns com experiência militar, outros nada mais do que homens desesperados com rifles roubados — começaram a se preparar para um contra-ataque.
A primeira explosão quebrou o frágil silêncio da noite. Uma carruagem puxada por cavalos carregada de explosivos foi enviada em direção a um comboio de suprimentos dos Werwolf, detonando em uma explosão de fogo que lançou pedaços de madeira e aço em chamas contra os mercenários desprevenidos.
Fogo automático rasgou os telhados, abatendo patrulhas a pé dos Werwolf enquanto tentavam reagir. Os revolucionários não tinham disciplina nem tática definida, mas tinham desespero — e o desespero fazia homens dispostos a jogar suas vidas na merda da vingança.
Porém, a Brigada Werwolf não era exército de recrutas. Eram matadores endurecidos, veteranos da Grande Guerra, homens que viviam para o combate e, agora, sem um lar, tinham recorrido à mercenaria. Ao contrário dos revolucionários, eram profissionais de verdade, que usariam qualquer meio necessário para cumprir seu contrato à risca, por mais cruel ou imoral que fosse.
As tropas Werwolf responderam com precisão implacável. Esquadrões formaram perímetros defensivos, chamando reforços de blindados que rolavam pelas ruas como bestas de ferro.
O rugido de suas metralhadoras abafava os gritos. Rajadas de tiros iluminavam as ruas cobertas de destroços enquanto atiradores da Brigada Werwolf avançavam de casa em casa, desalojando esconderijos suspeitos de insurgentes com eficiência impiedosa. Eles se moviam como uma matilha de predadores, bem treinados e acostumados à guerra urbana.
Gregor observava escondido em um armazém destruído, sua pistola firme em mãos. Ele viu um oficial dos Werwolf gritando ordens, direcionando seus homens para cercar uma base de resistência. Gregor inspirou fundo, desacelerou o ritmo do coração e apertou o gatilho.
A cabeça do oficial se virou abruptamente para trás, seu corpo tombando ao chão.
Por um instante, o avanço dos Werwolf hesitou.
Depois, tão rápido quanto antes, retomou a investida.
O coração de Gregor disparou enquanto ele se jogava de volta à cobertura, carregando outro tiro na câmara. A batalha ainda não tinha acabado. Mas, para cada revolucionário que caía, outro surgiria para tomar seu lugar. A Brigada Werwolf talvez tivesse armas superiores, treinamento melhor e a comando implacável de uma máquina sem consciência, mas os revolucionários tinham algo mais.
Não tinham mais nada a perder.
A luta continuava por Viena, das vielas estreitas do distrito comercial aos bulevares outrora impecáveis, agora cobertos de escombros e cadáveres. Revolucionários sequestravam bondes e os usavam como barricadas improvisadas.
Gangues de rua alimentadas por drogas, que antes dominavam o comércio ilegal da cidade, lutavam não mais por ideologia, mas porque não tinham escolha — a Brigada Werwolf tinha deixado claro que não haveria misericórdia.
A ofensiva se intensificou com a aproximação do amanhecer. Em um bairro, unidades dos Werwolf usaram bombas de fogo para desalojar um teatro fortemente protegido, que servia como centro de comando marxista.
Fumaça e carne em chamas sufocaram o ar enquanto os rebeldes lá dentro gritavam e uivavam de dor. Em outro ponto, atiradores de elite dos Werwolf se posicionaram nas torres de catedrais, abatendo insurgentes que corriam pelas ruas, desesperados por uma fuga que não existia.
A milícia de Gregor conseguiu manter sua posição durante toda a noite, mas os suprimentos estavam escassos. As munições eram poucas, a comida, ainda menos. Um mensageiro entrou no esconderijo, sem fôlego, com o uniforme ensopado de sangue.
“A ponte foi destruída,” tossiu. “A artilharia dos Werwolf acabou com ela. Estamos isolados.”
Gregor passou a mão pelos cabelos molhados de suor. “Então, vamos nos erguer. Resistimos até onde der.”
Seus homens não comemoraram nem se uniram em ânimo. Simplesmente acenaram com a cabeça, ajustando seus rifles e verificando as munições. Todos sabiam o que viria. Não havia saída daquela cidade. A Brigada Werwolf queimaria Viena até o chão antes de permitir que ela permanecesse nas mãos dos rebeldes.
E, ainda assim, lutavam.
Era quase meio-dia quando veio o ataque final. A Brigada Werwolf avançou em força, tanques rolando pelas avenidas, suas torres girando para despejar morte sobre os insurgentes remanescentes. Os homens de Gregor, escondidos atrás de bondes virados e muros quebrados, atiraram tudo o que tinham. Mas não foi suficiente.
Gregor viu seus combatentes caírem um a um. Um jovem, com pouco mais de dezoito anos, morto por uma rajada de metralhadora. Uma mulher, que fora professora, segurando um rifle que mal sabia usar, atingida por uma explosão que despedaçou seu corpo e a jogou nos escombros. Um a um, a revolução morria.
A última coisa que Gregor viu antes que a escuridão o tomasse foi a silhueta de um soldado da Brigada Werwolf, com o rifle levantado. Não haveria prisioneiros.
A purga seria total.