Re: Blood and Iron

Capítulo 396

Re: Blood and Iron

A lua cheia pendia sobre a cidade de Berlim em um ângulo perfeito, permitindo que Bruno a contemplasse de pé na sacada. A única coisa que escondia sua forma nu diante do mundo exterior era um roupão de banho.

Nesta noite, as coisas não saíram exatamente como ele tinha planejado. O que deveria ter sido apenas uma brincadeira leve com as tendências mais ciumentas de sua esposa resultou em uma montanha-russa de emoções tão intensa que ambos passaram a noite inteira no quarto, em vez de nas ruas de Berlim, como haviam planejado.

Heidi já estava dormindo, mas Bruno permanecia alerta como sempre. Era um hábito, e suas noites de insônia eram na verdade uma rotina quando eventos críticos aconteciam ao redor do mundo.

Aquela coceira constante na parte de trás da cabeça, a sensação de que poderia chegar um telegrama ou uma ligação a qualquer momento que ele precisasse atender rapidamente, para que tudo não desmoronasse ao seu redor.

Paranoia? Talvez, ou talvez fosse o instinto de um homem que passou toda a vida forjada e temperada nas chamas da guerra. De qualquer forma, Bruno permanecia sob a luz da lua azul, admirando sua beleza e graça ao fundo, como se fosse um espírito benevolente irradiando uma aura de cura sobre ele.

Um espírito que não afetava as feridas da carne, mas sim o espírito e a mente. Porque esses eram as maiores aflições que um homem deve suportar nesta vida. No final das contas, sua admiração silenciosa pela beleza do mundo foi interrompida pelo som dos pés descalços da esposa batendo na laje de pedra fria.

Ela tinha tentado ser discreta, talvez como um gesto romântico, mas uma mulher de nascimento nobre realmente iria surpreender um soldado que passou anos nos trincheiras? Acho que não. Não, Bruno logo pronunciou seus pensamentos em voz alta, dando um sorriso embaraçado enquanto Heidi estendia suas mãos graciosas e delicadas para tentar alcançar suas costas sem sucesso.

"Sabe que é extremamente imprudente se aproximar por trás de um veterano e tentar tocá-lo... Homens foram atingidos por ofensas bem menores."

A mão de Heidi parou no ar, enquanto ela segurava as finas roupas de seda branca que escondiam sua figura divina e imaculada de ser completamente revelada ao mundo. Ela fez uma cara de balle, em silêncio — atitude que Bruno não virou para ver pessoalmente, mas ainda assim podia perceber, talvez com a mente, enquanto apenas sorria e balançava a cabeça.

No final, sua esposa revelou seus verdadeiros pensamentos, pois percebeu imediatamente para qual direção Bruno olhava absorto no escuro da planície alemã, há tanto tempo que nem ele mesmo tinha percebido quanto tempo permanecia na sacada, olhando para o nada.

"Você sabe que isso não é sua guerra, né? Eu só te trouxe de volta… Dois anos, Bruno… Dois anos que você ficou longe… Sim, você voltava de vez em quando, mas nós dois sabemos que suas visitas rápidas só aumentavam a dor no meu coração, a dificuldade de respirar, a agonia que sentia toda vez que ousava pensar no que você estava fazendo lá…

Sei que você não quer escutar isso, mas você já fez tudo o que podia… Então, por favor… Volte para mim… Por favor, volte pra casa logo!"

Um longo silêncio se instalou entre o casal, e quanto mais tempo passava, mais os ombros delicados de Heidi — que pareciam esculpidos de um bloco de jade pristine por Michelangelo — começavam a afundar na depressão.

No final, Bruno surpreendeu a mulher, girando-se com um sorriso no rosto, não de charme, mas de pura felicidade, enquanto segurava sua bochecha delicada e olhava nos seus olhos. Olhos mais belos e puros do que até mesmo a lua azul acima.

Suas palavras não estavam impregnadas do veneno do desespero que o dominou por tanto tempo — algo pelo qual lutou arduamente para suportar e superar — mas do otimismo de um homem que via seu futuro todo à sua frente.

"Você tem toda razão… Esta não é minha guerra para lutar… Nada disso… O que acontecer, agora é questão para a história decidir… Então, minha querida, vamos dormir direito!"

Bruno não esperou que Heidi respondesse, simplesmente a levantou com facilidade, um exemplo perfeito da diferença de altura, peso e força entre eles, levando a mulher como uma princesa — ou melhor, uma deusa — banhada na luz etérea da lua até a cama, antes de abraçá-la forte e passar a mão pelos cabelos dourados e sedosos dela.

A temperatura do corpo de sua esposa, e o aroma floral, sem dúvida vindo do banho que ela tomou antes de tentarem dormir de verdade, combinaram-se numa sensação quase intoxicante, fazendo Bruno adormecer profundamente — pela primeira vez desde sua infância, livre do tumulto e das batalhas que carregava como herói.

Herói? De que história? Não! Isso não era Bruno. Ele era apenas um soldado que passou tempo demais longe de casa… E agora, enfim, estava exatamente onde sempre deveria estar.


Os temores de Bruno de que finalmente tinha conseguido se libertar se concretizaram na cidade de Viena. Fazia apenas um ano que a guerra começou, mas a Áustria-Hungria já estava consumida por todo tipo de vício, pecado e comportamento destrutivo possível.

Nos Bálcãs, organizações paramilitares nacionalistas e religiosas, formadas pelos soldados que outrora carregaram as bandeiras do império duplo na guerra, agora se enfrentavam em conflitos internos.

A violência, o sangue e a destruição só aumentavam o desespero dos que estavam dentro dessas fronteiras, elevando a procura por substâncias ilícitas no mercado negro, que inundava o país.

Não estamos falando de metanfetamina pura, cocaína ou heroína de grau farmacêutico… Não, as alternativas de "qualidade de rua" se espalharam pelo país, enraizando-se em todos que fossem desesperados ou tolos o bastante para resistir à tentação.

Mães e pais vendiam seus próprios corpos e dos filhos por mais uma dose, enquanto os cartéis — alimentando essas práticas imorais — brigavam entre si, além das organizações paramilitares que ameaçavam diminuir seus lucros.

Todo esse caos só alimentava as chamas que queimavam tudo ao redor. Mas havia um verdadeiro salvador pelas terras do Império Austro-Húngaro. Ou… pelo menos seria assim se esse exército heróico fosse composto por lobos vorazes disfarçados de homens.

A Brigada Werwolf tinha duas missões nesta guerra. A primeira era sua justificativa oficial — estabelecer segurança e estabilidade enquanto o colapso da lei e da ordem se acelerava.

Entretanto, por mais nobre que fosse esse objetivo, ele era totalmente abafado pelo fato de que seu segundo objetivo — mais sombrio — era muito mais sinistro. A habilidade de Bruno em convencer o Imperador austríaco a aceitar uma forma de pagamento que só ocorria após a prestação de serviços e a conclusão dos números era a desculpa perfeita para a Brigada Werwolf agir sem limites.

Cada tiro disparado, cada dose de remédio utilizada, cada galão de combustível consumido, e cada soldado morto na busca por estabilização era um custo a ser incluído na conta final.

E a demanda por "revolucionários, bandidos e marginais" superava e muito a quantidade de soldados disponíveis. Por isso, esses homens começaram a criar inimigos do Estado, numa cruzada gigantesca contra a degeneração que, supostamente, envenenava a alma de Viena e, por extensão, de toda a Áustria.

Atualmente, uma companhia da Brigada Werwolf estava arrombando o cadeado de uma adega, com o especialista usando a espingarda semi-automática Browning Auto 5, que, por causa da interferência de Bruno na linha do tempo, se tornou padrão no Exército alemão.

Após destruir completamente a trava e as dobradiças, o especialista abriu a porta, permitindo que os soldados sob seu comando — que, graças ao treinamento após a Grande Guerra, eram especialistas em guerra urbana — começassem a vasculhar o porão de um prédio bastante rico, armados com seus fuzis automáticos.

A crença de que aquele porão era uma central de comércio ilegal, funcionando como prostíbulo e ponto de tráfico de drogas, foi confirmada ao testemunhar o quão perversos esses indivíduos haviam se tornado.

Não eram só mulheres à venda neste espaço; ao ouvirem os tiros, gritos e o cerco de soldados armados entrando, eles entraram em pânico. Não, suas filhas também estavam à mostra, por um preço — uma cena tão repugnante que os soldados não tiveram outra escolha senão prender todos ali.

Disparar uma bala na cabeça de quem resistisse ou perfurá-lo com uma baioneta na barriga — de qualquer forma, sangue foi derramado, e os tiros ecoaram pelas ruas durante a operação.

Após uma luta árdua, a companhia conseguiu tirar dezenas de criminosos de vários porões operando de modo semelhante. O comandante era um soldado mais velho. Suas mangas levavam as insígnias tanto da Brigada Werwolf quanto da Divisão de Ferro.

Ele fumava um cigarro, silenciosamente inclinando a cabeça, fazendo com que quase todos os soldados sob seu comando levantassem seus rifles e atirassem sem piedade contra prostitutas, cafetões e traficantes nas ruas.

No entanto, um soldado hesitou. Olhava angustiado para uma jovem, que provavelmente era vítima do vício e da maldade de seus próprios pais. Ela chorava, talvez com não mais de quinze anos, implorando por misericórdia.

Como se estivesse nauseado com a hesitação daquele soldado diante do dever, o oficial sacou a pistola e caminhou na direção do homem, que só percebeu o que acontecia quando já era tarde demais.

O oficial apertou o gatilho, o ruído de disparo rompendo a barreira do som enquanto a jovem caía no chão, completamente morta e olhando fixamente para o soldado que não conseguiu salvá-la, com incredulidade e desespero.

O soldado explodiu numa crise de fúria, gritando de incredulidade para seu comandante.

"Por que diabos você fez isso?! Ela era inocente!"

O comandante apontou a pistola para a cabeça do soldado rebelde, com um olhar de calma absoluta e frieza, enquanto o cano still fumegava do disparo recente. Suas palavras eram tão cortantes quanto uma lâmina de aço recém-forjada, atingindo fundo o coração do soldado abaixo de seu comando.

"Você não questiona ordens. Eu dou uma ordem, você obedece sem questionar! Essa é sua única advertência: insubordinação não será tolerada nesta unidade.

Estamos aqui para limpar esta cidade de seus crimes, e nesta noite nenhum pecador escapará da nossa força. É melhor que lembre quem é o homem que assina seu pagamento..."

Depois, o comandante guardou a pistola na bainha sem dizer mais nada, deixando o soldado hesitante olhar para o rastro de sangue naquela operação — perguntando-se, ali, mesmo, por que mesmo estava na Áustria… Por que tinha vindo para cá?

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