
Capítulo 244
Re: Blood and Iron
Decir que Bruno não estava nem um pouco preocupado com a morte de Leon, que foi considerada nos jornais como um ato de artilharia alemã, era uma grande coisa dizendo. Se não fosse o fato de que a propaganda francesa tinha pintado o general fracassado como o rival de Bruno no cenário mundial, ele teria esquecido completamente do homem.
Leon não tinha conquistado seu posto por mérito, foi colocado lá por causa da rápida ascensão de Bruno. Precisavam de um rosto jovem entre o estado-maior, alguém com um bom histórico como oficial, e o passado compartilhado de Bruno com Leon no leste deu preferência ao último nesse quesito.
Porém, o homem tinha se mostrado instável, rápido a ficar irado, extremamente egoísta, de visão curta e incapaz numa escala maior do que comandar apenas uma batalhão — especialmente quando lhe foi confiado um teatro de operações, ainda que pequeno, como Luxemburgo, para planejar e invadir por conta própria.
O resultado foi sua morte às mãos de seus próprios homens. Que esconderam esse ato de assassinato e motim como uma fatalidade qualquer da guerra. No fim, Bruno quase se esqueceu de Leon, e qualquer ressentimento contra ele ou contra o general francês era apenas uma questão unilateral.
Bruno simplesmente não se importava, a morte de Leon não tinha impacto real na guerra, e ele era uma figura de uma vida passada, desconhecida na história, o que tornava muito difícil que deixasse alguma pegada significativa no mundo após o término da Grande Guerra.
Não, Bruno estava muito mais interessado em figuras importantes da França da época, como Charles de Gaulle, que, ironicamente, atualmente servia na Bélgica como um oficial de posto bem mais baixo do que Leon tinha sido na época da morte do homem.
Charles de Gaulle era atualmente tenente do 33º Regimento de Infantaria, que, de acordo com a inteligência de Bruno, estava recebendo uma forte oposição da aliança belga-alemã na defesa daquela região, enquanto Bruno, neste momento, tomava um café na cidade de Belgrado e lia o jornal diário.
Na vida passada de Bruno, esse homem tinha tido papel fundamental na formação do mundo durante e após a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, de 1916 até 1918, ele foi prisioneiro de guerra na linha do tempo anterior, tendo conquistado apenas o patente de capitão até ser capturado.
Se Charles viveria ou morreria, cabia ao destino decidir. Mesmo assim, Bruno não podia deixar de sentir que algo não estava completamente certo com a morte repentina de Leon. Segundo sua inteligência, as únicas artilharias usadas na batalha eram morteiros leves de 60mm, usados pelos Chacais durante seu ataque.
Se os rumores fossem verdade, a morte de Leon foi tão brutal que Bruno teria dificuldade em acreditar que uma simples granada de morteiro de 60mm tenha sido responsável por aquilo tudo. Luxemburgo não era sua área de responsabilidade, e, por isso, obter informações precisas sobre o assunto era uma tarefa mais difícil do que ele queria de verdade.
Por isso, ele acabou deixando o jornal de lado e suspirou enquanto pegava um cigarro do estojo. Prestes a acendê-lo, Heinrich sentou-se à sua frente. O homem tinha medalhas no peito, conquistadas ao longo dos anos, e rapidamente comentou sobre o jornal que Bruno acabara de ler, com um semblante sério.
"Você sabe que poderia ser qualquer um de nós, certo? Antes que essa guerra acabe, os anjos podem aparecer para você ou para mim do mesmo jeito que vieram buscar aquele imbécil francês…”
Bruno deu uma risadinha ao ouvir isso, antes de responder ao tom sombrio do amigo, jogando o jornal de lado para que ambos não se demorassem no assunto mórbido por muito tempo.
"Tenho que te dizer, Heinrich, que sou bastante importante demais para os planos de Deus para este mundo. Se eu for burro o bastante para morrer antes de concluir seu trabalho, nosso pai celestial vai simplesmente me reencaminhar para tentar de novo."
Henrich deu uma risada da frase de Bruno. O homem tinha realmente se tornado mais religioso com o passar dos anos, mas aquilo talvez fosse a justificativa mais insuportável que ele já tinha ouvido de Bruno quando o assunto era mortalidade e a possibilidade de morte em serviço. Por isso, uma expressão quase com um quê de tristeza apareceu no rosto do coronel enquanto ele respondia, superficialmente, ao que parecia uma piada de seu superior.
"Você tem certeza disso, meu caro? Quão certo você está de que, ao morrer, o Senhor simplesmente vai te mandar de volta para começar de novo? Sua falha em alcançar os objetivos que ele confiou a você não significaria que você não merece a ressurreição?"
A expressão de Bruno mudou para uma mortificação, ao ouvir as palavras do amigo, não só porque sabia que havia alguma verdade nelas, mas também porque achou aquilo brincadeira demais.
"Meu Deus, nunca tinha pensado assim antes, mas você pode estar certo. A quantidade de besteiras que fiz no campo de batalha porque achava que minha morte não seria definitiva só porque tinha uma segunda chance dada por ele… acho que preciso voltar para casa e repensar minha vida…”
No começo Heinrich achou que Bruno estava brincando o tempo todo, mas as habilidades do amigo para parecer convincente eram tão boas que ele, por um momento, achou que Bruno poderia estar completamente lunático ao longo de toda sua carreira militar até agora.
Isso fez Heinrich se levantar de repente e gritar com o amigo, como se ele fosse um completo idiota.
"Você tá louco!?!"
Sua reação foi alta e provocou a atenção de alguns soldados próximos, que logo perceberam quem eram. Bruno, no entanto, apenas riu, sacudiu a cabeça e voltou a beber seu café, com um sorriso contente no rosto.
"Relaxa, Heinrich, sou religioso, mas não sou doido… Você sabe que a reencarnação é um ideal budista, né? Não cristão. Admito, se Deus realmente existe, como diz a Bíblia, ele tem o poder de fazer isso acontecer de verdade, mas duvido que ele mexeria um dedo por mim caso eu fracassasse tão miseravelmente na segunda chance que ele me deu nesta vida…”
Heinrich imediatamente se acalmou, sentando-se de novo enquanto refletia sobre as palavras de Bruno. Ele não sabia ao certo qual “segunda chance” o amigo tinha mencionado, mas, após pensar por mais de cinco segundos, concluiu que poderia ser algo muito diferente, já que Bruno enfrentou várias situações de quase morte até agora, mesmo em sua juventude.
Ao invés disso, soltou um suspiro profundo e garantiu a Bruno, com tom sério, que estava mesmo preocupado com aquela guerra.
"Ei, sério mesmo… Promete pra mim… Se eu acabar morrendo aqui, você vai cuidar direitinho da Alya, né? Vai cuidar da minha filha por mim, sim?"
Bruno sorriu de canto, vendo ali uma oportunidade de brincar com o amigo, mesmo levando a sério o pedido, enquanto olhava nos olhos de Heinrich, tomando um sorvete de café antes de soltar as palavras que sabia que o deixariam uma fera.
"Relaxa, a questão já tá resolvida. Ela já vai se casar com meu filho mais velho. O que mais eu poderia fazer além disso?"
Heinrich, claro, ficou vermelho de raiva e se levantou de uma vez, xingando Bruno antes de sair zangado, batendo os pés no chão.
"Tá maluco!? Nunca aceitei essa porra de noivado, e você sabe bem disso!"
Enquanto Heinrich fecheava o rosto e saia andando com raiva, Bruno gritou mais uma vez, aproveitando ao máximo a situação.
"O quê? Você não quer fazer parte da minha família! Fiquei insultado! Durante todos esses anos, achei que éramos tão próximos quanto irmãos!"
Se não fosse pelo fato de Bruno estar no auge do comando militar alemão e da cidade estar cheia de soldados, Heinrich certamente teria invertido o dedo do meio na direção de Bruno ao sair de vista. Mas, por respeito às circunstâncias, ele se controlou, mesmo doendo por dentro.