
Capítulo 213
Re: Blood and Iron
A chuva voltou a cair sobre a paisagem balcânica, inundando as trincheiras construídas fora da capital sérvia, Belgrado, que agora era uma cidade fantasma. A névoa dominava toda a cidade e seus arredores, enquanto ecos de artilharia e tiros à distância se espalhavam pelas ruínas assombradas do que já fora uma metrópole próspera.
Estava claro que quaisquer reforços mais próximos da posição de Bruno haviam cruzado com o Exército sérvio, ou o que restava das forças armadas do governo provisório, após Bruno ter massacrado a grande maioria do Exército Real Sérvio, tanto no combate inicial da guerra quanto quando usou gás na capital do antigo reino eslavo.
Os gritos assustadores ao longe, assim como os sons estranhos que aconteciam quando gotas de chuva batiam contra capacetes de aço e peças de artilharia, não ajudavam na atmosfera aterradora. Muitos acreditavam estar ouvindo ecos assombrados dos fantasmas que um dia viveram pacificamente na cidade detrás das trincheiras.
Porém, Bruno não era supersticioso, nem ligava muito para as discussões entre os homens sob seu comando. Em vez disso, ele olhava para a névoa, de pé na chuva, observando as bordas da trincheira com seus olhos nu.
Uma coluna de fumaça saía de sua boca enquanto Heinrich se aproximava, preocupado com os sons de batalha ao longe e se deveriam reforçar seus aliados, que claramente lutavam uma batalha intensa no campo bem perto dali.
"Senhor… A gente vai ficar só aqui parado esperando a batalha passar? Não seria uma ótima oportunidade de cercar o inimigo por trás e eliminá-lo?"
Porém, Bruno permaneceu em silêncio, ouvindo o clima de combate, como se procurasse detectar, entre os muitos sons distintos e caóticos, alguma coisa específica. Parecia que ele tentava captar alguma informação que escapava aos demais.
Heinrich era um dos poucos homens que podiam usar um tom mais informal com Bruno, seu superior, desde que estivessem a sós. Mas havia soldados enfileirados perto deles; afinal, eles estavam olhando para a névoa na linha de frente, na esperança de conseguir penetrar aquele vasto manto de fumaça que escondia tudo.
Por causa disso, ele teve que usar uma linguagem um pouco mais formal, mesmo que ainda fosse relativamente relaxada pelos padrões militares. Bruno, no entanto, não respondeu ao que Heinrich falou e continuou fixo no horizonte, com expressão séria.
Até que, finalmente, ele reconheceu o som que escutava. Admitidamente, demorou mais do que deveria para identificar a origem, pois a ideia de usar esses tipos de armas, mesmo depois de a maior parte dos poderes mundiais as considerarem ultrapassadas, era quase inaceitável para Bruno.
Talvez, se ele tivesse entendido melhor a rapidez com que o Exército Provisório foi formado, assim como quem fazia parte dele, teria percebido mais cedo. De qualquer forma, ele não tinha muito tempo para se preparar.
Por sorte dele, seus soldados estavam equipados com armas altamente móveis e de tiro rápido, e ele imediatamente deu ordens gritando para os homens que mais precisavam da sua atenção naquele momento.
"Preciso de uma equipe de metralhadoras aqui no meu local IMEDIATAMENTE! Ataque de cavalaria vindo, tempo de chegada estimado: dois minutos!"
Um ataque de cavalaria? Bruno estava falando sério? De qualquer forma, ninguém ouseu desafiar as ordens de alguém que ganhou três apelidos assustadores ao longo da carreira militar. Por isso, uma equipe de metralhadoras correu até onde Bruno estava e rapidamente montou uma MG-34, fixando seu bipé em cima do saco de areia na frente, enquanto garantiam que uma munição estivesse na câmara.
Além disso, todos os atiradores que estavam por perto, assim como os sargentos com suas submetralhadoras, correram até a beira da linha de trincheiras, prontos para o combate. Bruno, por sua vez, se preparou para o momento seguinte ao retirar sua submetralhadora do ombro e liberar o ferrolho, colocando-se de prontidão.
Ele continuava fumando com o cigarro na boca enquanto sua arma estava apoiada no ombro, com a linha de visão direcionada pela mira para a neblina à sua frente. Heinrich acompanhava ao lado dele, assim como Erich, que correu trazendo sua própria MG-34, instalada em uma posição que proporcionava o melhor desempenho possível.
Bruno olhou para o amigo com um olhar quase invejoso, soltando o cigarro na lama aos seus pés enquanto questionava sobre a arma que Erich misteriosamente havia conseguido.
"Onde diabo você conseguiu isso? Da última vez que olhei, você não tinha comprado uma metralhadora…"
Erich sorriu cinicamente para Bruno, como se estivesse mais do que ansioso para atirar na direção do inimigo com fogo rápido.
"Esquece onde consegui essa maravilha de máquina destruidora! Se você acha por um instante que vou abrir mão da oportunidade de disparar com uma MG-05, você enlouqueceu, capitão!"
Heinrich observou os dois amigos, surpreendido com tanto entusiasmo para o combate, e percebeu que talvez fosse o único relativamente racional ali, optando por expressar suas queixas de forma mais respeitosa possível.
"Com todo respeito, senhor, acho que vocês estão um pouco emocionados demais para engajar com o inimigo…"
Erich olhou para Heinrich e virou os olhos, como se seu velho amigo fosse o chato da turma. Bruno então passou a mão nas costas do amigo, assegurando que sua empolgação não vinha de sadismo, mas sim do fato de que poderiam estar vivendo um momento histórico.
"Ah, meu velho amigo… Às vezes, acho que você é um pouco simplório demais… Por que não ficaria empolgado com esse momento? Afinal, esta pode ser a última carga de cavalaria registrada na história da humanidade… E vamos ter um papel fundamental nela!"
Quando Heinrich percebeu que não conseguia desmentir as palavras de Bruno nem realmente condenar o amigo por estar tão animado com a ideia de fazer história, ele balançou a cabeça e suspirou, dizendo as únicas palavras cabíveis neste momento.
"Porra, que merda…"
Ainda assim, o Governo Provisório da Sérvia acelerou a mobilização, treinamento e envio de sua população masculina — ou pelo menos daqueles capazes de portar armas. Por isso, reuniu veteranos de antigas guerras e os enviou de volta a Belgrado.
Foi uma jogada desesperada, mal planejada. A intenção era simples: causar o maior número possível de baixas às forças alemãs entrincheiradas lá, antes que reforços inimigos pudessem chegar em auxílio deles.
Por isso, recorreu-se à cavalaria — velhos cavaleiros que foram convocados mais uma vez para servir ao país em tempo de guerra. Pegaram suas velhas carcaças cansadas e montaram nos cavalos que lhes foram dados, partindo para atacar as defesas inimigas.
Além deles, havia infantaria e artilheiros apoiando, embora grande parte de seu equipamento estivesse consideravelmente obsoleto nesta fase. O arsenal sérvio não tinha produzido grande quantidade de equipamento moderno para uma guerra global, na qual esperavam sofrer pesadas perdas.
Por isso, a logística sérvia estava atualmente uma verdadeira bagunça, com armas e munições de diferentes calibres, pouco compatíveis entre si. Não era exagero afirmar que a linha de suprimentos de um soldado da Força Provisória sérvia poderia acabar assim que ele conseguisse rodar sua carga naquele momento.
Não era uma situação ideal para a Sérvia e seus homens, convocados para lutar na sua última tentativa de resistência. Mas, afinal, nenhum deles tinha esperado que seus líderes os levassem até o inferno.
Infelizmente, parecia que Deus não estava do lado da Sérvia: antes que eles pudessem alcançar as fortificações ao redor de Belgrado, construídas após Bruno ter lançado gás na população da cidade, os exércitos provisórios sérvios enfrentaram os austro-húngaros na rota para a capital — ou o que restava dela.
A luta foi intensa, mas as forças austro-húngaras foram obrigadas a recuar, pois estavam em menor número frente aos conscritos sérvios, e seu preparo militar não chegava ao nível de treinamento, equipamento ou comunicação dos comandados por Bruno.
As perdas foram maiores do que os sérvios esperavam na batalha, mas Belgrado já estava ao alcance, e esses velhos soldados tinham uma missão clara: sacrificar suas vidas para infligir o máximo de baixas possível ao exército alemão. Essa era, no fundo, a finalidade daquela missão suicida que lhes fora atribuída.
Pelo menos, isso daria tempo à Governança Provisória sérvia de preparar as gerações mais novas para uma guerra de verdade. Esses idosos sabiam do sacrifício que fariam, mas não se deixaram abater enquanto o oficial-chefe da cavalaria deu o sinal e levantou sua espada, começando a carga.
"Por fé, rei e pátria!"