
Capítulo 187
Re: Blood and Iron
A unificação do Império Alemão em 1871 trouxe muitos benefícios. Pela primeira vez na história do povo alemão, a Alemanha foi unificada em um único império sob um único governante. Enquanto o Sacro Império Romano era governado quase que exclusivamente por reis alemães ao longo de sua história, ele era composto por diversas culturas, línguas e etnias, algumas das quais exerciam grande influência na escolha do trono.
Isso não podia ser dito do Reich alemão. Claro, havia algumas desvantagens na unificação dos Estados alemães, como a perda de soberania de muitos homens que outrora se consideravam monarcas orgulhosos.
Dentre esses diversos reinos, principados, granduzias, etc., estava o Reino da Baviera, que era governado pela ilustre família von Wittelsbach desde o Alto Medievo. A história da Baviera era ofuscada apenas pela de Prússia e Áustria entre os Estados alemães.
Por outro lado, ao contrário dos prussianos, famosos por sua bravura militar, os bávaros eram bem reconhecidos por sua afinidade com a música, o teatro e as artes nobres. Mesmo assim, isso não significava que a Família Real fosse inteiramente composta por patronos das artes ou por um povo cujo senso de realeza estivesse além de qualquer crítica.
A esposa do pai de Heidi era uma von Wittelsbach, embora sua relação exata com a linha principal da prestigiosa família real bávara fosse incerta. Provavelmente, ela era uma prima distante de uma ramificação que já entrava em declínio.
No entanto, seu sobrenome de solteira por si só comandava respeito e, mais importante, autoridade. Ela era a mulher que ordenara que a mãe de Heidi fosse vítima de uma morte prematura. Afinal, essa "Princesa" estava longe do arquétipo que seu título sugeria.
Não, ela era uma pessoa cruel, mesquinha, que sempre ressentira seu marido por ter tomado uma amante e, além disso, gerado uma filha ilegítima cuja beleza superava em muito a de suas próprias filhas.
O único motivo de Heidi não ter sido condenada à morte também era que seu tolo pai havia provocado a coalizão de Junkers ao envolver sua filha ilegítima com o nono filho de uma influente família industrial — que, aos olhos dos antigos reis e rainhas da Baviera, eram apenas upstarts (1).
Ou assim era percebido pela família von Wittelsbach, que olhava com desprezo para o pai de Heidi, apesar de sua consciência sobre sua própria posição e as circunstâncias infelizes que sua filha enfrentava por causa de suas ações.
Ninguém imaginaria que o homem que aparentava ser um estúpido socialmente inepto era, na verdade, um homem sábio, escondendo sua inteligência por uma fachada cuidadosamente elaborada. E, embora não fosse impossível para os Wittelsbachs se voltarem contra Heidi durante sua infância, o momento para isso já tinha passado há muito tempo.
Com seu casamento com Bruno e a rápida ascensão dele no cenário do Reich alemão, tocar um fio de cabelo da sua amada esposa era equivalente a convocar o Príncipe Demônio da Ira para desencadear o inferno sobre a família deles.
Bruno, afinal, era um homem com uma reputação feroz, alguém que não tinha medo de atirar numa pessoa na cabeça ao meio-dia se o provocassem bastante. Assim, o atual Príncipe Regente da Baviera, Luitpold von Wittelsbach, agora discutia a questão com sua distante parente, a esposa do pai de Heidi.
"Mulher, se você não fosse minha parente de sangue, mandaria te darem a forca por isso que está sugerindo. Você está falando de um homem que detém o posto de GeneralOberst no Exército e tem a audição não só do Kaiser, mas também do Tsar.
Além disso, sua riqueza é comparável à nossa dinastia toda — ou até maior! Ele tem segurança privada a seu dispor, protegendo a si e sua família 24 horas por dia. Você realmente acredita que é sensato provocar alguém assim, quando ambos sabemos bem do que ele é capaz de fazer com sua ira?
Por quê? Por causa de quê? De uma rixa boba que você tem com a mãe dessa mulher, que eu já mandei matar por você! Uma coisa era matar a amante daquele idiota do seu marido — uma mulher de origem humilde, de quem ninguém se importava. Mas a filha dessa mulher é uma princesa legítima na Rússia, e esposa legítima de uma das figuras mais poderosas do Reich!
Se eu ouvir mais uma palavra dos seus planos mesquinhos contra essa mulher, vou expulsar você da nossa família! E vou providenciar documentos para fazer com que você e seus filhos sejam totalmente deserdados da linhagem. Compreende?
A esposa do pai de Heidi ficou com o rosto vermelho, gritando há quinze minutos sobre o quanto queria que Heidi fosse morta, apenas para ser tão duramente repreendida pelo atual chefe de sua prestigiosa família.
Afinal, o rei atual da Baviera, Otto I, era um homem com sérios problemas mentais e reinava apenas de nome. Luitpold era o verdadeiro que conduzia os fios do poder. E ele já estava farto de ouvir as birras dessa parente distante, típicas de pessoas de poder que agem como crianças.
Luitpold quase teve um ataque do coração com toda a raiva acumulada neste momento. Aos 91 anos, esse tipo de emoção não era ideal para alguém de sua idade.
Só após a membro problemática de sua dinastia deixá-lo em paz é que o velho príncipe se sentou com calma na cadeira e olhou para a janela. Ainda era cedo na temporada, e a neve começava a cair do céu nas ruas de Munique.
Sinceramente, a cada dia que passava, Luitpold sentia mais perto a presença da morte. Era questão de tempo até que ele fosse levado. E depois? Quem iria sucedê-lo? E, mais importante, como Deus o julgaria por tudo que fez nesta vida?
Será que já era tarde demais para um velho como ele, cuja vida de pecados — muitas vezes feitos com as melhores intenções — certamente o condenavam a uma eternidade no inferno? Quanto mais pensava nisso, enquanto a lâmpada piscava ao fundo, mais Luitpold sentia pena de Heidi.
A mãe dela não tinha feito nada de errado; ela era uma amante, como era comum neste mundo para homens de riqueza e poder, como o pai de Heidi. A morte daquela mulher era culpa dele. Nesta vida, Luitpold só fez o que achava necessário para a segurança, o bem-estar, a prosperidade e a dignidade da sua casa.
Mas tinha que admitir… O que fez com a mãe de Heidi foi sem justificativa. Se realmente estivesse destinado ao inferno, que assim fosse. Mas, antes de cair na morte, Luitpold gostaria de consertar ao menos um dos seus erros nesta vida.
Bruno vinha aproveitando seus momentos de calma, aguardando o início da Grande Guerra, desfrutando momentos felizes com sua esposa e filhos queridos. Sua família continuava crescendo, especialmente agora que sua esposa se aproximava dos trinta anos. O relógio biológico dela já não podia esperar, e quatro filhos era coisa pouca. Ela queria pelo menos seis — não, dez!
E por isso, Bruno e Heidi estavam sempre ocupados. Sem dúvida, até o momento em que a fertilidade de sua esposa se esgotasse, teriam mais filhos — talvez até mais do que os próprios pais dele tinham. Mas, independentemente do aumento na atividade no quarto, Bruno e Heidi sempre encontravam tempo para seus filhos — afinal, eles eram o motivo de todo o esforço diário.
Hoje era um domingo comum; Bruno e sua mulher levavam as crianças à missa antes de fazer um passeio por Berlim, desfrutando de um café da manhã familiar, respeitável, no seu restaurante favorito.
Era assim que deveria ser. Mas, hoje, algo diferente aconteceu. Enquanto Bruno estava com sua família na churrascaria que escolheram, percebeu alguém incomum entrando. Sempre dá para distinguir uma pessoa de realeza de um simples cidadão por sua postura ereta e vestimenta elegante.
O homem que entrou no restaurante pode estar chegando àquelas idades míticas de Methuselah, mas era um príncipe, e se comportava como tal. E Bruno sabia exatamente quem ele era.
Por isso, imediatamente se levantou, com expressão severa no rosto, mantendo a mão próxima ao cinto, onde poderia puxar facilmente sua arma escondida se necessário.
Bruno se colocou entre sua família e o Príncipe Regente Luitpold. Ao notar a postura ameaçadora de Bruno, Luitpold tomou uma atitude surpreendente: baixou a cabeça, respeitosamente, e pediu desculpas por interromper o momento precioso com seus entes queridos.
"Perdoe-me, Senhor von Zehntner. Não quis ofender. Mas achei que aparecer na sua casa seria completamente inadequado para alguém como eu, que prejudicou sua família de várias formas… Este velho apenas pede um momento do tempo de sua esposa.
Não busco perdão, pois não o mereço. Apenas quero expressar minhas sinceras desculpas pelo mal que lhe causei e estender minhas condolências pela perda dela, mesmo já tendo passado tantos anos."
Heidi não era ignorante de quem estava diante dela, e, se não tivesse renunciado à vingança contra aqueles que mataram sua mãe — por causa da segurança e do bem-estar de seus filhos —, certamente teria feito escândalo.
Ao perceberem o sofrimento da mãe, os filhos de Heidi — especialmente aqueles suficientemente velhos para entender que ela estava abalada — rapidamente a abraçaram e perguntaram por que ela estava agindo daquela forma.
"Mamãe, você está bem?"
"Mamãe, quem é aquele homem?"
Bruno quis mandar o velho ir para o inferno. Sabia que matar um Wittelsbach no meio de Berlim era ato suicida, que também colocaria sua família em risco. Mas não conseguiu segurar a vontade de responder na mesma moeda.
Até que Heidi avançou e segurou sua mão. Ela tremia de emoções distintas, sua voz tinha um tremor maior ainda, mas deixou claro que qualquer ação sua em defesa dela só prejudicaria o respeito conquistado ao longo dos anos.
"Está tudo bem, meu amor… Sinceramente… consigo ficar cinco minutos… Por favor, cuide das crianças por mim, volto já…"
Luitpold olhou para Heidi como quem subestima sua determinação, e rapidamente agradeceu por ela ter lhe dado a chance de se desculpar adequadamente.
"Entendo a ira de seu marido, e ele teria razão em me desprezar, até publicamente. Mesmo assim, você interveio. Preciso agradecer…"
Porém, Heidi o olhou com desprezo, mostrando que sua bajulação só tinha validade por alguns segundos, e que ela só fez isso pelo Bruno, pelo bem da família.
"Não foi por você… Eu só não quero que meu marido se rebaixe por alguém como você… E, aliás, eu disse que posso esperar cinco minutos, e você perdeu trinta segundos do meu tempo com essa bajulação inútil…"
Ao ver seu rosto de desprezo e as palavras cortantes, Luitpold suspirou internamente, endireitou-se e a convidou para acompanhá-lo a uma mesa reservada, onde poderiam conversar em particular, longe de seus familiares.
"Se puder me acompanhar até a mesa que reservei, prometo ser breve. Depois de dizer tudo que preciso, vocês não ouvirão mais falar de mim, nem da minha família. Essa é minha promessa…"
Heidi olhou novamente para Bruno e seus filhos, depois voltou o olhar para o Príncipe Regente da Baviera, assentiu com a cabeça e seguiu o homem para uma parte mais reservada do restaurante.
Bruno, por sua vez, imediatamente sinalizou silenciosamente para os guarda-costas infiltrados no estabelecimento, que ficariam de olho no Príncipe Regente, assim como em qualquer outra pessoa no local que pudesse ser membro de sua equipe escondido ali, preparadios para esse momento.