
Capítulo 151
Re: Blood and Iron
Bruno tinha mais ou menos a suspeita de que a França começaria seus esforços de propaganda. A guerra parecia mais do que uma certeza para o mundo como um todo à medida que os anos passavam. E a Alemanha já tinha começado a se preparar muito antes de qualquer outro país.
Enquanto outras nações ainda focavam em alcançar as quotas de recrutamento, a Alemanha estava no processo de desenvolver armas avançadas. As mais recentes dessas armas deveriam estar em produção em larga escala até 1912. Dois anos antes do estouro da guerra, se tudo acontecesse conforme o planejado.
Porém, por outro lado, Bruno havia causado tantas mudanças significativas nesta linha do tempo que era praticamente impossível saber exatamente quando a guerra iria começar, ou qual seria o estopim. Ele frequentemente pensava consigo mesmo numa desagradável ironia do destino, de que seu assassinato pela Mão Negra teria sido o gatilho da guerra, e não a morte prematura de Franz Ferdinand.
Mas, acredite ou não, Erich era muito eficiente no que fazia, e monitorar os movimentos do Reich alemão e das pessoas perigosas que residiam dentro de suas fronteiras — temporária ou permanentemente — era seu pão com manteiga.
A Mão Negra, mais de uma vez, tentou infiltrar-se no Reich alemão em uma tentativa de apagar a vida de Bruno pela segunda ou terceira vez. Mas, cada vez, acabavam enterrados em covas rasas, sem marca, no meio do nada. Claro, depois de serem arrastados para um local secreto da Stasi para interrogatório. Local este que, obviamente, não existia oficialmente nos registros públicos.
Resumindo, Bruno estava bastante satisfeito com o investimento na amizade com Erich. Apesar de o homem já ter sido levado há muito tempo a um estado de sede de sangue sem fim, e de uma frieza absoluta perante a vida, fruto da exposição contínua aos horrores da guerra. Ele era uma ótima dona de caçada para enviar contra seus inimigos.
E talvez por isso, ambos estavam se encontrando numa ocasião pública na cidade de Berlim neste momento. Erich e Bruno estavam vestidos com roupas caras, que Erich, conhecendo a verdadeira natureza do amigo, não pôde deixar de comentar.
"Deve estar te matando de vontade usar essa roupa. Você parece um verdadeiro nobre, e eu sei o quanto você gosta de fingir que é humilde…"
Bruno, como Erich, estava fumando um cigarro enquanto tomava um café premium com a mão livre. Colocou a xícara na mesa e encarou Erich nos olhos. Sem nem se preocupar em fazer alarde da sua postura mais modesta diante da vida.
Ao invés disso, ele sorriu de lado, aceitando a provocação do amigo, como qualquer pessoa geralmente faria.
"Você deve estar adorando isso… Me vendo gastar uma quantia absurda de dinheiro construindo palácios extravagantes, enquanto me visto com roupas caras, calçados e acessórios como essa gravata que quero arrancar do pescoço a cada minuto de tortura por ter que usá-la numa solenidade tão absurda!"
Erich deu uma gargalhada ao ouvir a declaração de Bruno. Não pôde deixar de comentar sobre a crise de nervos do homem ao suportar as tralhas que homens comuns matariam por possuir, como se fosse uma tortura infernal, planejada e aprimorada pelo próprio Deus para ele.
"Tenho que te dizer, francamente, que o visual de um trabalhador comum não combina contigo, meu amigo. Você é demasiado… Gentil. A nobreza definitivamente se revela no seu rosto, especialmente com aquela cicatriz de esgrima, não importa o quanto você goste de fingir que é um homem do povo."
Bruno não se ofendeu com o uso da palavra "Gentil" para descrever sua aparência, pois ela não era usada no sentido moderno, que ele já conhecia de sua vida passada, onde significava fraqueza, bondade — ou em certos círculos, covardia.
Naquela época, referir-se a alguém como “gentil” ou “senhora” tinha um significado próprio, exclusivo, assim como “senhor”. Antes da queda das monarquias, estes termos designavam quem vinha da aristocracia. Mas, após 1918, e com o colapso da civilização ocidental tradicional, o sentido dessas palavras foi se diluindo tanto que passaram a ser quase sinônimos de homem e mulher comuns.
De tal modo que prostitutas de rua e pessoas do povo se ofendiam se alguém ousasse insistir que não eram nobres ou virtuosas o bastante para serem chamadas de "senhora". Pensando melhor, Bruno não pôde deixar de balançar a cabeça, refletindo sobre o mundo do qual havia vindo e como era bom ter nascido numa época de virtude, cultura e decência geral.
Três coisas que faltaram de forma gritante na próxima guerra mundial, que Bruno tinha decidido, mais uma vez, impedir por qualquer meio necessário. Erich, claro, não conseguia entender por que seu amigo de repente tinha uma aparência tão terrível, nem por que ele simplesmente balançava a cabeça. Bruno, naturalmente, não explicou — apenas recolheu seus pensamentos e entrou de novo no mundo à sua frente.
Porém, ele conseguiu captar a essência, a razão pela qual havia pedido para Erich se encontrar com ele naquele dia.
"Você tem o que quero?"
Percebendo que ambos estavam deixando de lado as formalidades e indo direto ao ponto, Erich puxou de dentro do casaco uma pasta e a deslizou pela mesa até Bruno. Este abriu o arquivo e observou o conteúdo do dossiê — além das fotos, que eram tão grotescas que jamais deveriam ser reveladas em público civilizado.
Mesmo assim, Bruno as encarou, e em uma situação pública, enquanto Erich resumida seu conteúdo:
"A Mão Negra, como você chama, também conhecida como União ou Morte, tentou de três a quatro vezes infiltrar-se no Reich alemão e acabar com sua vida desde aquele episódio ruim na Rússia.
A boa notícia é que conseguimos interceptá-los antes que chegassem perto de Berlim. E, após alguma… persuasão, conseguimos obter informações relevantes sobre seus cúmplices.
Esses caras não estão só na Sérvia, estão espalhados por toda a Bósnia, pelos Bálcãs. Isso inclui países como a Bulgária, que acabou de conquistar sua independência do Império Otomano, após o fim do Movimento dos Jovens Turcos, no mês passado.
Podemos impedi-los de causar dano ao Reich, Bruno, mas… Eles estão só começando. As tentativas fracassadas de acabar com sua vida só fortaleceram seu recrutamento. Receio que esses bastardos possam ser responsáveis por algo muito maior do que podemos imaginar… Ainda mais agora, com a Áustria-Hungria planejando marchar suas tropas para Bósnia e Herzegovina…"
Bruno olhou para Erich, que parecia chegar à conclusão final que Bruno já conhecia há tempos, por ter aprendido na sua vida passada. Um ligeiro sorriso surgiu no rosto de Bruno, enquanto ele provocava Erich, levando-o a um estado de tormento mental.
"Como o quê? O assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, um ato que pode fazer toda a Europa estourar uma guerra global de proporções gigantescas?"
Erich olhou para Bruno com expressão assombrada. Bruno revelou um medo que ele nem tinha considerado antes, como se fosse algo natural. Só então, Erich compreendeu o quanto Bruno já havia preparado seu plano, virando o jogo contra seus adversários. Mas a ideia… era surreal.
Será que Bruno vinha planejando uma guerra mundial desde os dias na Academia, quando eram apenas cadetes? Isso faz mais de uma década. Será que esse tinha sido seu motivo de ter entrado no Exército? Pensar nisso quase o levava à loucura.
Ele quase ia perguntar algo quando Bruno fechou a pasta e a devolveu a ele. Então, dirigiu uma única pergunta com tom severo:
"Você alertou a inteligência austro-húngara sobre o que descobriu?"
Erich balançou a cabeça em silêncio, ainda tentando entender toda a astúcia e os planos de Bruno. Mas, no momento em que Bruno sorriu, terminando seu café com um sorriso de escárnio e se levantando, Erich sentiu um frio na espinha, especialmente ao perceber que Bruno havia praticamente confirmado que seus planos estavam caminhando conforme o esperado.
"Ótimo, mantenha assim. Não queremos que os austríacos estraguem nossa diversão, não é mesmo?"
Bruno ia virar-se para partir quando Erich de repente se levantou, chamando a atenção de alguns presentes próximos. Ele rapidamente percebeu que não podia falar em alemão suas verdadeiras intenções, pois os observadores que agora os cercavam poderiam ouvir suas palavras. Então, sussurrou em russo seus pensamentos mais terríveis e exatos para Bruno:
"Não me diga… Você sabe de tudo isso? Desde—"
Bruno interrompeu a interrogação de Erich ao encostar a mão no ombro do amigo, como quem sussurra veneno doce no ouvido.
"Uma guerra se aproxima, meu amigo. Não há como evitar. Talvez adiar, mas, de qualquer forma, não há como pará-la. Não é isso que você sempre quis?"
Bruno então virou as costas e foi embora sem dizer mais uma palavra. Deixando Erich sem palavras. Uma coisa era certa: Erich tinha ficado dez vezes mais assustado com Bruno do que antes, e começava a pensar em retornar ao Exército. Como se as palavras de Bruno fossem a mais pura verdade, essa guerra iria ocorrer em uma escala nunca antes vista na história humana, ou pelo menos no continente europeu.
E de jeito nenhum ia perder toda a diversão!