Re: Blood and Iron

Capítulo 8

Re: Blood and Iron

Bruno tinha pouca preocupação em fazer conexões nesta noite, diferente do que seu pai costumava fazer. Na verdade, ele já tinha se destacado mais do que gostaria. Sentia que isso se devia ao quão radiante Heidi brilhava ao seu lado.

Completamente inconsciente de que ele próprio tinha despertado o interesse de várias jovens nobres, Bruno sentia inveja de Heidi, não apenas pela beleza régia que emanava, mas também por ela estar com ele.

Em vez disso, os dois aproveitavam a festa como se tudo aquilo não tivesse relação com eles, como se estivessem completamente sós, e não rodeados por uma multidão de nobres mimados.

Mal prestaram atenção quando o próprio Kaisar, o governante do Império Alemão, apareceu no local, acompanhado de sua filha de dois anos, para quem estava sendo organizada aquela festa extravagante.

Embora Bruno estivesse pouco atento ao homem, percebeu o Kaisar. Em sua vida anterior, ele conhecia bem esse homem e a má reputação injustamente construída sobre ele, devido à derrota da Alemanha na Grande Guerra, além do tratado de Versalhes que seguiu.

Infelizmente para o Kaisar, ele era culpado por muitos dos problemas que assolavam a Alemanha após o fim da guerra. Na verdade, a maior parte dessas falhas era responsabilidade dos social-democratas e da república de Weimar.

Um Estado que buscava submeter-se à França, além dos interesses das corporações internacionais, ambas com desejo de enfraquecer a Alemanha ao máximo pelos pecados que não cometeram.

Era vingança, simples assim. Pela humilhante derrota sofrida pelos franceses nas mãos dos alemães em 1871. E, infelizmente, o Kaisar era o responsável por levar a culpa por tudo isso. Mas ainda faltavam mais de vinte anos para que esses problemas se manifestassem.

E por causa disso, o Kaiser Wilhelm II era uma figura muito querida no Reich alemão. Bruno observou essa figura histórica antes de voltar sua atenção para Heidi, que não tinha nenhum interesse em política ou na hierarquia nobre.

A ansiedade da menina já tinha diminuído bastante ao longo da noite. Ela focava sua atenção no seu futuro noivo, com quem conhecia e se dava bem desde pequena. Ainda que Bruno não percebesse, ela literalmente contava os dias para completar dezoito anos e poder se casar com ele. O que ainda levaria mais cinco anos.

Ela desejava, em parte, libertar-se da família, mas muito mais porque já havia se apaixonado pelo garoto. E, ao entrar na adolescência, esses sentimentos só se intensificaram, acompanhados de desejos novos e embaraçosos.

Bruno tinha apenas uma noção superficial dos sentimentos dela. Não sabia exatamente o quão fortes eram. Mas ainda tratava Heidi como uma amiga próxima, alguém que deveria proteger, pois no futuro eles se casariam mesmo.

Quanto aos sentimentos românticos, ele ainda não tinha consciência deles, mesmo que estivessem borbulhando na sua mente hormonada. Por isso, eles conversavam tranquilamente, como se nada de mais estivesse acontecendo.

Completamente inconsciente de que havia um olhar bastante sinistro fixo neles. E esses olhos eram os da princesa Klara von Bentheim-Tecklenburg, irmã mais velha de Heidi. Hoje ela tinha seus vinte e poucos anos e já era casada com um príncipe de um principado legítimo.

Depois de levar uma bofetada de Bruno anos atrás, Klara nunca mais o perdoou, nem sua meia-irmã Heidi, a quem ela não podia mais humilhar ou intimidar diretamente. Mesmo assim, usava sua influência para pressionar seus pares a intimidar Heidi sempre que pudesse.

Por causa disso, Heidi passava a maior parte do tempo trancada na mansão da mãe, esperando pelos dias em que Bruno poderia visitá-la ou vice-versa. Como qualquer tentativa de fazer amigos era completamente impedida pela necessidade de vingança da irmã dela.

Porém, naquele dia, Klara bebeu um pouco demais, após ver sua meia-irmã ofuscar ela própria. E, ao conversar com o marido, reclamando de Heidi e Bruno, ela deixou escapar algo que não deveria: especialmente depois que o marido dela questionou por que ela estava tão irritada.

"Klara, meu amor, por que isso te incomoda tanto? O rapaz de quem você fala é o nono filho do Junker, e aquela menina é uma bastardinha. Eles estão abaixo do nosso nível..."

O marido de Klara não era apenas um príncipe de um principado legítimo, mas o terceiro na linha de sucessão ao trono. Somente se seus dois irmãos mais velhos morressem ele assumiria como príncipe reinante, após o pai finalmente falecer, ou seja.

Na Alemanha havia vários pequenos principados, que eram Estados menores em comparação a grandes regiões como Prússia, Baviera, Saxônia, entre outros. Mas, através do complexo processo de dissolução do Sacro Império Romano e da unificação do Império Alemão, esses pequenos territórios mantiveram o título de príncipe e princesa, de forma bastante prestigiosa.

Esse homem era um desses príncipes, e, como o pai de Klara, tinha desprezo pela nobreza mais recente e inferior. Muito menos por bastardos e plebeus. Contudo, Klara ficava extremamente irritada com pessoas que, por outro lado, deveriam estar abaixo do seu interesse. Isso deixou o homem confuso. Alteada pela bebida, Klara ranger os dentes e revelou a verdade, que ela deveria manter escondida.

"Sei disso... Mas aquele filhinho de mamãe... Ele teve audácia de tocar em mim, e eu nunca vou perdoar isso!"

Uma onda de raiva percorreu a espinha do príncipe. Um menino adolescente tinha tocado sua esposa? Quando, e de que modo? Foi violento ou sexual? Ou, Deus me livre, sexualmente violento!?!? A ideia só fez enfurecer o homem, que rapidamente afastou a esposa e começou a caminhar em direção a Bruno.

"Espere aqui um instante. Quero conversar com esse garotinho!"

Instantaneamente percebendo que tinha dito algo que não devia, Klara tentou agarrar o pulso do príncipe para impedi-lo de causar confusão, mas ela estava tão bêbada que sua percepção de profundidade estava errada. Seus gritos para parar a ação foram engolidos pelo barulho da festa ao fundo.

"Espere! Você não pode!"

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Bruno estava na pista de dança com Heidi quando um rapaz na casa dos vinte anos se aproximou dele com uma expressão séria. Anos de paranoia, por estar sempre atento aos espiões do príncipe Gustavo, ensinaram Bruno a ficar de cabeça alerta o tempo todo. Ele interrompeu imediatamente sua dança com Heidi, que estava tão absorta no momento que não percebeu o que acontecia.

Por precaução, Bruno colocou Heidi atrás de si enquanto se posicionava de forma desafiadora na frente do rapaz que se aproximava. Para seu choque, e de todos no salão de baile, o príncipe Julius de Lippe tirou a luva branca e deu um tapa na face de Bruno com ela, enquanto gritava algo sem sentido e o desafiava para um duelo.

"Seu moleque, você ousa tocar na minha esposa! Exijo satisfação! Peça desculpas à minha esposa agora mesmo, ou me espere ao amanhecer e resolvemos isso como verdadeiros homens!"

O impacto do tapa do príncipe foi como uma pistola disparando. Imediatamente, chamou atenção de todos. O príncipe de 21 anos tinha acabado de socar um garoto de quinze e desafiá-lo para um duelo.

Porém, duelos eram praticamente proibidos na sociedade atual, considerados antiquados e fora de uso, e muitos convidados riram disfarçadamente ao ver o comportamento de Julius. Mas o homem, tomado de fúria, não percebeu isso.

Mesmo assim, desafiar alguém a um duelo na presença do Kaisar mostrava que Julius certamente não lhe faltava coragem. Bruno normalmente preferiria resolver as coisas por diplomacia.

Aliás, irritar um príncipe, ainda que de um pequeno estado como Lippe, era uma má ideia. Mas ao notar a expressão vingativa de Klara ao fundo, Bruno logo entendeu o que tinha acontecido. A princesa ficara bêbada e disse algo sobre o que aconteceu há cinco anos com seu marido.

Agora, Bruno tinha uma única opção: apelar para a autoridade do Kaisar, na esperança de que ele interrompesse a confusão antes que alguém saísse ferido gravemente, ou tornasse-se inimigo de Julius e, por extensão, do próprio sogro, que já demonstrava estar irritado no fundo.

Porém, a ira de Gustav não era direcionada a Bruno, que resolveu essa questão anos atrás, quando ela ocorreu. Sua raiva estava voltada para a própria filha, que revelou algo que poderia prejudicar não só sua família e criação, mas também a reputação do príncipe com quem se casara.

No fim, Bruno decidiu não recuar e, sim, apelar para o Kaisar, que assistia a tudo com grande interesse, enquanto ao seu redor os convidados sussurravam sobre a ousadia do momento.

"Embora eu não saiba o que fiz para ofendê-lo, se o senhor me desafia aqui, na frente de tantas testemunhas, estou sendo compelido a aceitar sua proposta. Claro, se o Kaisar permitir uma coisa tão arriscada quanto um duelo."

A realidade era que a honra da mulher na disputa não era da princesa Klara, mas sim da bastardinha Heidi Krieger. Afinal, toda aquela confusão começou porque Bruno teve coragem de defendê-la de uma tentativa de abuso por parte da meia-irmã mais velha dela.

Poucas pessoas sabiam disso, mas quem sabia, preferia manter em segredo. E, por isso, Heidi tentou fazer Bruno desistir antes que o Kaisar pudesse reagir.

"Meu senhor, não precisa fazer isso! Não há necessidade de arriscar sua integridade por alguém como eu!"

Bruno tinha uma expressão severa enquanto olhava para Julius, mas ao se virar e responder às preocupações de Heidi, sua fala foi cheia de ternura. Carinhosamente, passou a mão na cabeça dela, na frente de todos, e garantiu que estava feliz em proteger sua honra.

"Você acha que tenho medo de um intelectual que desafiou um garoto na sua juventude, sem saber o que aconteceu de verdade? Ficarei honrado em pegar a espada em seu nome, minha senhora..."

O público começou a cochichar sobre tudo quanto era coisa. Apesar de ser um bastardo, Bruno chamava Heidi de "Minha Senhora", o que era totalmente inadequado, pois esse termo carregava uma conotação de nobreza.

Em segundo lugar, ele dizia que enfrentaria o desafio por causa da honra dela, mas o príncipe tinha desafiado Bruno por causa da honra da princesa Klara von Bentheim-Tecklenburg, que ele alegava que Bruno tinha tocado.

Depois de alguns rumores se espalharem, todos perceberam que Heidi era meia-irmã de Klara, e que Bruno provavelmente tinha ofendido a princesa em alguma ocasião e lugar desconhecidos. O fato é que Julius ficou confuso com aquela revelação, pois nada do que sua esposa tinha contado batia com essa versão.

Quanto ao Kaisar, ele já estava bastante bêbado e interessado na ação. Apesar de que um duelo não era exatamente legal na época, se não fosse para a morte, seria uma boa exibição de esgrima para seus convidados, não concordam?

Era, afinal, o segundo aniversário da filha dele, e que melhor maneira de homenageá-la do que com dois homens lutando na festa? Com isso, o Kaisar aplaudiu, desviando a atenção de todos do drama, e deu permissão para que o duelo acontecesse ali mesmo, em sua residência.

"Excelente! Perfeitamente! A paixão da juventude! É uma cena que todos podem apreciar, não acha? Embora um duelo até a morte violaria a lei, posso permitir uma demonstração de esgrima entre vocês dois."

"E que tal uma luta de mensur? O vencedor será aquele que desistir primeiro. Que tal?"

Bruno suspirou pesado. Percebeu que não deveria esperar muita sensatez do Kaisar, conhecido em sua vida anterior por suas ideias românticas sobre guerra e cavalaria, e que não impediria o duelo. Como não tinha outra alternativa, aceitou com um respeitoso gesto de cabeça.

"Meu Kaisar, será uma honra disputar um duelo de esgrima com o príncipe aqui, em homenagem ao segundo aniversário de sua filha."

O príncipe Julius exibiu um sorriso presunçoso. Queria derrotar Bruno numa luta de espadas? Ele mesmo era campeão regional de mensur. Como uma criança poderia ser comparada a ele?

Com a permissão do Kaisar, os dois receberam espadas do tipo florete. Essa não era a versão moderna do florete, usada no esporte atual. Sua lâmina era afiada e seu ponto completamente intacto. Normalmente, os duelistas usariam máscaras de proteção e armaduras corporais.

Mas, neste caso, apenas as espadas foram entregues. Afinal, tratava-se de um duelo disfarçado de combate de esgrima. O salão foi esvaziado, deixando as partes ao lado, muitos com drinques na mão apostando quem venceria.

Quanto ao árbitro, era o próprio chanceler. Com o famoso Chanceler de Ferro, Otto von Bismarck, aposentado há apenas quatro anos, quem faria as vezes de juiz e árbitro foi Leo von Caprivi, que explicou as regras antes de começarem.

Heidi não tinha coragem de assistir Bruno se machucar. Queria desesperadamente desviar o olhar e, quando olhava novamente, tudo parecia normal. Como se o duelo fosse apenas uma fantasia.

Porém, dentro dela, algo dizia que era seu dever acompanhar o homem que amava lutando em seu nome. Mesmo com vergonha, ela reuniu coragem e, num impulso, gritou uma frase que ninguém esqueceria.

"Vai, meu amor! Acredite em você!"

Bruno, enquanto ajustava sua postura de esgrima e esperava pelo início do duelo, ouviu essas palavras. Sua face ficou vermelha ao ouvir "meu amor" sendo dito tão descaradamente por Heidi. Ele demorou um segundo para se recompor, e, ao fazer isso, deu uma risada e balançou a cabeça.

Seu adversário estava carrancudo, vendo Bruno com desprezo. O menino claramente não o via como ameaça. E, por isso, sua voz ficou grossa enquanto desafiava Bruno.

"E o que é tão engraçado, hein?"

Bruno deu uma respiração profunda, assumindo uma postura de combate com sua espada, apontando na direção do inimigo. Com expressão confiante, falou as palavras que enfureceram o adversário.

"Como posso não ter o rosto lavado de vergonha quando minha senhora demonstra tanto amor por mim?"

Assim, o duelo começou e, antes mesmo de Julius perceber, seu torso havia sido perfurado pelo adversário. Não era uma ferida mortal, mas a lâmina havia realmente penetrado a carne, sendo rapidamente retirada.

Julius e a multidão ficaram boquiabertos com a rapidez e habilidade de Bruno. Se fosse um duelo para ver quem soubesse mais sangue, o resultado teria sido definido no começo. Mas esse duelo só termina quando um desistir.

E o príncipe, teimoso, gritou de dor como porco ferido, reprimindo Bruno pelo ataque.

"Seu maldito! Você me esfaqueou!?!"

Bruno olhou para o adversário com desprezo, como se fosse um tolo, e soltou a frase que fez toda a multidão, exceto Klara, rir.

"Sério, sua alteza? O que esperava? Isso aqui é uma luta de espada, não um concurso de tricô! Agora, desiste? Ou preciso furar mais você antes que veja a razão?"

Julius ficou boquiaberto. Ele era campeão regional da mensur. E ainda assim, esse garoto, uma criança de quinze anos, conseguiu feri-lo tão rápido? Onde estaria sua honra? Onde estaria seu orgulho após tamanho insulto?

Ele tentou atacar Bruno, com força, mirando no olho do rapaz para cegá-lo. Mas Bruno foi rápido. Como uma resposta automática, seu reflexo o fez desviar e, com um golpe preciso, acertou o ombro do príncipe.

Ao ver Julius tentar feri-lo gravemente, Bruno não viu sentido em mostrar misericórdia. Inicialmente, pensou em dar uma luta justa, para manter algum respeito pelo seu título honroso.

Porém, ao ver o louco tentar cegá-lo sem motivo, Bruno eliminou as limitações de garoto e aumentou a velocidade e agressividade dos ataques. Furou o corpo do príncipe várias vezes, até que seu sangue manchou sua camisa branca, tingindo-a de vermelho.

Mesmo assim, Julius tentava atacar Bruno novamente, mas suas investidas eram rapidamente frustradas, e ele recebia contra-ataques que o feriam novamente. Já havia tantos buracos em seu torso que ele corria risco de morrer por Hemorragia. No fim, o árbitro precisou intervir e encerrou o duelo.

A guarda pessoal do Kaisar prontamente imobilizou Julius, que saíra do controle ao perceber que havia sido humilhado totalmente ao tentar proteger a honra da esposa, por um menino de quinze anos.

"Isso não acabou! Enquanto eu puder respirar, não vou desistir!"

Porém, o árbitro encerrou o combate. Por mais que Julius insistisse, ele perdeu. E foi levado, a força, para uma clínica tratar seus ferimentos, pelo próprio corpo de elite do Kaisar.

Depois da luta, e com a espada devolvida ao staff do Kaisar, Heidi correu até Bruno e o abraçou. Havia lágrimas em seus olhos. Ela parecia muito nervosa, assistindo ao duelo. Checou Bruno em busca de ferimentos, mas ele estava ileso. Assim que terminou, ela o xingou por tolo.

"Seu idiota! Fiquei tão preocupada com você! Por que fez algo tão estúpido?"

Bruno sorriu de lado, acariciando o cabelo dourado da garota, e disse a primeira coisa que veio à cabeça, achando que pareceria um verdadeiro nobre.

"Pela sua honra, minha lady? Eu daria minha vida com prazer!"

Heidi ficou boquiaberta, sem palavras, ouvindo aquelas palavras saindo da boca de Bruno. Sem perceber, seu comentário despreocupado tocou fundo no coração dela. Se ela já estava completamente apaixonada, agora ela estava determinada a ser a esposa devota dele pelo resto da vida.

Ela enxugou as lágrimas, se aproximou e, aproveitando a vergonha de Bruno com aquela declaração descarada, beijou-o nos lábios. O menino ficou completamente desnorteado. Bruno permaneceu em silêncio enquanto Heidi terminava o beijo, e então disse algo que obrigaria Bruno a cumprir sua promessa.

"Vou cobrar essa promessa, hein!"

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