
Capítulo 11
Re: Blood and Iron
Um ano se passou desde a noite de casamento de Bruno, até o dia em que ele se formou na Academia e entrou oficialmente na ativa do Exército Imperial Alemão como oficial.Também, como o melhor aluno a se formar na sua turma, Bruno recebeu imediatamente o posto de Primeiro Tenente, enquanto o restante da sua classe saiu como Segunda Tenente.
Logo, Bruno foi designado para a Corporação Expedicionária do Extremo Oriente, exatamente como tinha pedido, e ganhou duas semanas de licença antes de partir para sua nova unidade.
Afinal, a China já estava profundamente envolvida nos primeiros estágios da Rebelião dos Boxers, e era questão de meses até a formação oficial da Aliança das Oito Nações em resposta à situação.
Quando Bruno voltou para casa, não se surpreendeu ao encontrar Heidi esperando por ele. Parecia ter sido avisada com antecedência sobre sua licença temporária e foi rápida em recebê-lo na porta da mansão tranquila e aconchegante.
Nos últimos anos, eles só se viam durante as férias, apesar de serem recém-casados. E, por mais que Bruno quisesse levá-la a algum lugar extravagante para uma lua de mel de verdade, ele não pôde fazer isso devido às obrigações militares.
Mesmo assim, ver o sorriso amoroso da jovem mulher ao dar as boas-vindas ao marido era uma visão que alegrava o coração. Claro, seu sorriso desapareceu imediatamente, substituído por preocupação ao olhar para o rosto de Bruno, que se aproximava rapidamente, segurando seu queixo e examinando cuidadosamente seus ossos das bochechas do lado direito.
"Meu Deus, o que aconteceu com seu rosto? Você está bem? Quem fez isso com você?"
Bruno pegou as mãos de Heidi com as dele e as afastou do rosto. Com um sorriso confiante, explicou a cicatriz que tinha na face, uma linha horizontal na bochecha.
"Calma, Heidi, é uma cicatriz de esgrima simples. Tive durante uma competição com um estudante da Academia Militar Bávara. Depois do meu duelo com Julius, há tantos anos, praticamente tive que entrar na equipe de Mensur na Academia. E, a propósito, ganhei a partida, então não fique dizendo que sou um derrotado."
A cicatriz não era grotesca nem grande. Era uma marca de um golpe quase de leve, bem pequena, apesar de visível. Heidi, é claro, fez um bico ao ouvir que Bruno tinha se machucado ao pegar na espada novamente, e o repreendeu por sua imprudência.
"Você não deveria arriscar sua saúde só porque eles te pediram para praticar esgrima em nome da academia! Vou pegar um pouco de álcool e tentar limpar isso."
Bruno quis dizer que não tinha sentido, pois a ferida era antiga, sofrida há vários meses. Já cicatrizada, não havia mais o que fazer. Mas ela saiu correndo para buscar o kit de primeiros socorros.
Na realidade, assim que virou a esquina, ela se encostou na parede, com o rosto bem avermelhado, tentando acalmar o coração acelerado. Apesar de repreender o marido, Heidi achava que a cicatriz dele tinha uma certa dignidade e realçava sua aparência já bonita.
Logo ela voltou, segurando o kit e tentando, mais uma vez, "desinfetar" a cicatriz.
Depois de uma noite maravilhosa, consumindo uma refeição caseira preparada por Heidi, e depois indo para o quarto, Bruno pegou um maço de cigarros ao sair nu para a varanda privada do quarto. Acendeu um cigarro e olhou para a lua crescente no céu.
Pensamentos diversos passavam por sua cabeça. Especialmente porque ainda não havia contado a Heidi que havia se oferecido para liderar um pelotão de soldados na parte mais caótica do mundo neste momento. Uma região que a Alemanha e outras Grandes Potências provavelmente enviariam tropas em dois meses, durante a expedição fracassada de Seymour.
Hoje era 20 de junho de 1900, e enquanto Bruno dormia ao lado da esposa no conforto de Berlim, o Cerco às Legações já havia começado. Nesse exato momento, a Movimento dos Boxers e a Dinastia Qing sitiavam as embaixadas de várias nações em Pequim, ou Peking, como seria mais tarde conhecido.
Incluindo, claro, a Embaixada alemã. Era questão de tempo até a formação da Aliança das Oito Nações. Nos dias seguintes, as Grandes Potências marchariam para Peking com a intenção de aliviar suas embaixadas sitiada, restabelecendo a ordem na região por meio da força militar.
Infelizmente, a menos que a história mudasse, Bruno não poderia participar dessas batalhas, pois os alemães que lutaram nelas eram Marines do Seebataillon, enquanto ele era um oficial recém-contratado do Exército alemão.
No entanto, ainda haveria muitas oportunidades de contribuir para o esforço de guerra. Apesar de suas funções principais envolverem atuar como força de ocupação, ainda restavam redutos do Movimento dos Boxers que precisavam ser eliminados.
Com esses pensamentos, Bruno apagou o cigarro e sentiu a suave mão de sua esposa tocando suas costas, enquanto ela o abraçava por trás, antes de fazer uma pergunta em tom sério.
"Está tudo bem? Você ficou aí fora fumando por uma hora…"
Bruno não conseguiu mais esconder a verdade. Até então, vinha omitindo de Heidi seus planos para o futuro imediato, parcialmente porque eles ainda não estavam definidos até receber as ordens de embarque.
Também porque não queria preocupá-la excessivamente. Mas, agora, era hora de ser honesto. Ele virou-se com um suspiro pesado, apagou o cigarro e deixou o restante no cinzeiro.
"Fui designado para a Corporação Expedicionária do Extremo Oriente. Em duas semanas, estarei a caminho da China. Infelizmente, temos apenas algumas semanas juntos antes de eu precisar partir novamente…"
Heidi ficou arrasada ao ouvir as palavras de Bruno, e não pelo motivo que ele pensava inicialmente. A jovem quase recuou, como se tivesse perdido o equilíbrio. Naturalmente, Bruno correu ao seu lado, a ajudou a voltar para a cama, sentando-a enquanto verificava seu estado.
"Heidi! Você está bem? O que aconteceu?"
Demorou alguns segundos para Heidi processar o que Bruno tinha dito, mas quando conseguiu, olhou para ele com olhos quase suplicantes, como se tivesse se arrependido de ter ouvido aquilo. Então, fez uma pergunta que ele achou estranha:
"Você vai partir para a China? Mas… Não está acontecendo uma tensão crescente naquela região? Você não estará em perigo, não é?!?"
Essa pergunta chocou Bruno, porque disputas internacionais do outro lado do mundo não eram informações de fácil acesso ao público na época. Não era como hoje, na era da internet, onde tudo que acontece ao redor do globo pode ser consultado instantaneamente por bilhões de pessoas.
Naquela época, levaria pelo menos cem anos para que a internet fosse inventada. Mesmo telefones eram raridade, encontrados principalmente em famílias ricas e só capazes de fazer ligações locais — talvez, em mãos de integrantes do governo.
Então, como Heidi tinha tanta informação, Bruno parou para questioná-la.
"Heidi? Como você sabe o que está acontecendo na China agora?"
Ela entrou em pânico imediatamente. Não tinha pensado na conclusão lógica da sua pergunta. E tentou, rapidamente, encontrar uma resposta adequada para satisfazer Bruno.
"Eu… Quer dizer… Eu estava no mercado outro dia e ouvi uma mulher dizer que estava preocupada com o filho, que está em Tsingtao! Ela falou que tem uma rebelião acontecendo pelo país!"
Embora fosse possível, especialmente se essa mulher fosse familiar de algum soldado, aquilo ainda soava bastante suspeito dada a forma de agir de Heidi. Mas Bruno guardou aquilo na memória e decidiu retomar seu objetivo inicial.
"Entendi, então. Sim, tudo indica que a rivalidade entre a Dinastia Qing e as Grandes Potências é inevitável neste momento. E, para ser sincero, Heidi, eu solicitei essa missão."
A jovem loira parecia como se tivesse levado um golpe mortal. Não esperava que Bruno dissesse que tudo tinha sido ideia dele. Na verdade, ela ia perguntar se ele poderia ser transferido para outro destino, até ouvir aquilo. As lágrimas começaram a aparecer seus olhos enquanto ela perguntava por que, por que ele sentia a necessidade de correr tanto risco.
"Não consigo entender... Por que você faria isso? Por que pediria uma missão que, sabendo, a levasse direto para o combate? Você não tem medo?"
Bruno balançou a cabeça, suspirou e a abraçou, acariciando seus cabelos, como fazia quando eram criança. Isso a ajudou a superar o medo que agora a acometia.
Com uma confiança imensa, ele jurou que voltaria inteiro para ela.
"Você não entenderia por que me sinto compelido a fazer isso, mesmo se eu tentasse explicar. Mas saiba que é uma decisão que tomei. Preciso fazer isso..."
Heidi não tentou convencer Bruno a desistir. Apesar de não compreender o que valia tanto a pena arriscar a própria vida e o bem-estar, ela apoiaria de qualquer forma. Mesmo que fosse apenas esperando ele voltar para ela.
"Tudo bem, se é isso que precisa fazer, não vou impedir. Mas, Bruno, promete que vai voltar vivo e são... Não aguento pensar em viver sozinha nesse mundo pelo resto da vida sem você..."
Bruno riu ao ouvir isso, deu mais uma palmada nos cabelos dela, a deitou na cama e beijou seu pescoço. Entre seus gestos, fez uma promessa séria: não importando o que acontecesse, ele sempre voltaria ao lado dela.
"Não importa o que venha, eu sempre encontrarei meu caminho de volta para você, Heidi. Isso eu juro."