
Capítulo 12
Re: Blood and Iron
Dois semanas se passaram num piscar de olhos, e antes que Bruno percebesse, já estava fora da base sendo enviado para a China. Como desconfiava, a guerra, na maior parte, já tinha acabado quando ele chegou de fato ao local.
Ao aterrissar na costa do norte da China, a Dinastia Qing já havia sido obrigada a se render à Aliança das Oito Nações. Apesar disso, 15.000 soldados alemães do Corpo Expedicionário da Ásia Oriental ainda estavam destacados na China para ajudar a estabilizar a região devastada pelo conflito e, assim, sufocar os remanescentes da Rebelião dos Boxers.
Contra-insurgência era a única experiência de combate real que Bruno tinha. Tinha sido destacado para o Afeganistão na vida anterior justamente para esse propósito. E tinha confiança na sua capacidade de desempenhar o papel sempre que necessário.
Bruno tinha sido designado ao Corpo Expedicionário da Ásia Oriental como Oficial de Infantaria. E, naturalmente, seu uniforme refletia isso. Os uniformes atuais ainda eram do modelo azul prussiano, já que os variantes cinza de campo ainda não existiam, e só se tornariam padrão anos mais tarde.
Normalmente, um oficial de infantaria dessa época carregava uma espada e uma pistola como armas padrão. Mas, considerando que o pai de Bruno havia conseguido seu objetivo de entrar no Bundesrat Land Army e na comissão de fortificações, Bruno usou suas conexões familiares para conseguir um rifle.
O Gewehr 98 era o rifle padrão do Exército Imperial Alemão na época. E era uma arma excelente. Alimentado por clips stripper que carregavam cinco tiros em um carregador interno, o Gewehr 98 podia causar a morte a um inimigo a até 1.000 metros, usando seu poderoso cartucho 7,92x57mm Mauser.
Claro que, para realizar uma façanha dessas, era preciso uma visão impecável e uma pontaria de exímio qualidade. E Bruno possuía ambos. Além do Gewehr 98, ele também tinha em mãos uma pistola Modell 1900 Parabellum. Mais conhecida como 9mm Luger.
Por isso, ele estava incomumente bem equipado para um oficial de infantaria ao marchar pelo interior da China com seu pelotão à frente. Já fazia duas semanas desde que ele pisara na China do Norte; até agora, seu único papel tinha sido atuar como um soldado de guarda, numa condição bastante decorativa.
Sem permissão expressa, não podia sair da base. E, após duas semanas assim, ele já estava bastante entediado com sua situação. Felizmente, no dia anterior, o comandante da companhia anunciou que eles partiriam numa expedição punitiva na manhã seguinte, rumo a uma região conhecida pela atividade boxeira.
Além de Bruno, o outro comandante de pelotão da sua companhia era seu velho amigo Heinrich, da Academia. Os dois marcharam lado a lado, enquanto fumavam e conversavam sobre a situação do conflito e o deserto de terra que atravessavam.
“Não há dúvida… Este lugar foi completamente saqueado pela Aliança das Oito Nações e suas forças.”
Heinrich concordou com a avaliação de Bruno. Se fosse uma outra unidade alemã à frente ou alguma das outras Potências, a vila ao longe, que eles se aproximavam, apresentava sinais claros de fumaça no ar. O rapaz deu uma tragada no cigarro antes de comentar.
“Aposto como você quiser que sejam os russos? Ouvi rumores do Erich. Ele foi destacado duas vezes em patrulha, e ambas as vezes encontrou uma cidade saqueada pelos russos. Mortes nas ruas, casas pilhadas de valor. E as mulheres… dói no coração ouvir o que acontecem com elas…”
Bruno deu uma longa puxada no cigarro e soltou uma fumaça espessa. Fazia apenas um ano desde a assinatura da primeira Convenção de Haia. Era uma época em que Crimes de Guerra eram um conceito recente.
Por mais que todas as Potências assinaram e ratificaram a convenção e suas regras, que buscavam proteger prisioneiros de guerra e civis, além de regulamentar os modos de fazer guerra, a China não fizera o mesmo.
Para as Potências, aquelas que não assinaram ou ratificaram as Convenções de Haia não tinha proteção sob suas regras. Por isso, Bruno tinha uma postura mais indiferente ao discutir as supostas atrocidades do Exército Russo.
“Infelizmente, a Chinese só têm a si mesmas a culpar. Se tivessem ratificado a Haia como as outras, ações assim seriam consideradas Crimes de Guerra, e os responsáveis responderiam por isso.
Por mais que eu odeie admitir, o máximo que podemos fazer é seguir nossas próprias regras de guerra, mesmo que nossos aliados não façam o mesmo. Não somos generais nem chefes de Estado. Gostando ou não, simplesmente não temos poder ou autoridade para fazer nossos aliados seguirem os mesmos padrões que nós.”
Embora Heinrich compreendesse o sentimento do homem, ele era muito mais empático com as vítimas da guerra do que Bruno. Bruno, por sua vez, não era do tipo que se importava com baixas civis no campo de batalha.
Na sua vida passada, viram os efeitos de ordens superiores que priorizavam reduzir danos colaterais a custo de uma vitória total. E os resultados nem sempre eram bons. Se fosse para acabar de uma vez por todas com a rebelião dos Boxers, ele não hesitaria em ordenar bombardeios em um vilarejo inteiro, se fosse usado como base pelos insurgentes.
Para Bruno, essa determinação era essencial para vencer uma guerra. Qualquer outra coisa seria pedir pelo fracasso operacional. Essa era uma visão de guerra que Heinrich claramente não compreendia, já que sabia que Bruno não tinha experiência prática de combate, apesar de ser um oficial equipado e capacitado. Pelo menos por enquanto.
Enquanto Bruno e Heinrich conversavam casualmente, um eco de tiros se espalhou ao longe, fazendo-os e a todo seu pelotão ficarem em alerta imediatamente. Nem um segundo após os disparos, o comandante da companhia ordenou que Bruno e seus homens averiguassem a área e verificassem o que estaria acontecendo na vila.
“Tenente, pegue seu pelotão e estabeleça um ponto de observação. Quero saber o que está acontecendo na vila antes de marcharmos para dentro! Volte e me informe assim que confirmar a situação!”
Bruno concordou com a cabeça, levantou o braço em sinal de continência para o capitão, e respondeu afirmativamente, levando cerca de quarenta homens para cumprirem a missão.
“Sim, senhor!”
Depois de falar isso, Bruno saiu correndo, com seu rifle em punho, em direção ao morro acima da cidade, onde e seus homens assumiram posições defensivas sob seu comando. Apesar de os boxers usarem principalmente espadas e lanças, alguns portavam armas de fogo, e ninguém queria correr riscos numa guerra.
Mas, ao ver a vila saqueada e as atrocidades que lá aconteciam, até Bruno teve dúvidas sobre sua postura mais fria na guerra e ao respeito pelos civis afetados.