
Capítulo 27
Re: Blood and Iron
Ao voltar para casa após seu primeiro dia no Colégio Militar Prussiano, Bruno queria apenas desabar na cama e dormir profundamente. Mas Heidi permitiria que o marido descansasse sem antes encher bem a barriga?
Nem pensar. Como uma esposa exemplar, ela zelava pela saúde do marido. E, por isso, recebeu Bruno na porta com um litro de cerveja numa mão e um prato de comida na outra.
Mesmo Bruno tinha que admitir que, por mais exausto que estivesse, a travessa de schnitzel, batatas fritas e spaetzle era mais do que suficiente para convencê-lo a comer algo ao lado de sua mulher. Embora ambos fossem prussianos, Heidi tinha amplo conhecimento de várias cozinhas regionais alemãs e sabia como prepará-las corretamente.
Ela mesma tinha uma paixão especial por receitas do Sul da Alemanha, como aquelas comuns no Grão-Ducado de Baden, no Reino da Baviera e no Arquiduque da Áustria. Passou anos de sua vida aperfeiçoando sua arte na cozinha, preparando-se para o dia em que ela e Bruno se casariam de verdade.
E agora que viviam essa vida, ela podia finalmente ver o homem devorar feliz a comida que preparara para ele. Naturalmente, Bruno ficava contente por uma refeição caseira feita por uma mulher bonita. Por isso, comeu com entusiasmo, elogiando Heidi pelo esforço.
— Da próxima vez que for enviado para uma missão e precisar sobreviver com a ração do exército… Você me estragou para qualquer outra comida que não seja a sua… Espero que se orgulho disso!
Heidi ficou toda orgulhosa com o elogio do marido, mas logo mudou de assunto, perguntando como havia sido o primeiro dia dele no Colégio Militar Prussiano e se ele tinha passado por dificuldades.
— Então, como foi o seu primeiro dia? As aulas são tão difíceis quanto dizem?
Bruno rapidamente balançou a cabeça enquanto engolia a comida com um gole de cerveja. Depois, voltou a se dedicar ao schnitzel de caça que a esposa preparara, respondendo entre mordidas.
— De jeito nenhum, já dominava esses assuntos há anos. Se fosse perguntar, o que eles estão me ensinando agora é só uma revisão do que já memorize desde criança.
Heidi não ficou surpresa por isso. Apesar de Bruno já esconder sua inteligência como se fosse inferior ao que realmente era, ela sempre soube dessa vantagem, mesmo que ele nunca tenha contado explicitamente. A não ser pelo pai dele, ao qual ele revelou esse segredo recentemente.
Por isso, ela tinha absoluta certeza de que Bruno seria um dos formandos, e provavelmente o melhor que já passou pelos salões do Colégio Militar Prussiano.
Por isso, respondeu com um sorriso carinhoso e uma expressão verbal de confiança no homem que amava.
— Fico feliz em ouvir isso. Tenho certeza de que você vai se formar com notas perfeitas na hora certa!
Bruno assentiu com a cabeça, sem tirar o foco do prato. Depois, naquela noite, subiu na cama ao lado da esposa num horário decente, antes de repetir o mesmo ritual no dia seguinte.
O capitão Leon Sinclair tinha retornado à França há um ou dois meses, após o anúncio da retirada definitiva dos alemães na China. Seu período na região foi uma experiência de aprendizado valiosa, mas, mesmo assim, ele não estava satisfeito com os resultados conquistados pelo Exército Colonial francês.
No fim das contas, dependiam de conselheiros alemães para localizar e eliminar os últimos rebeldes na sua área de responsabilidade. Para Leon, que era um revanchista convicto, isso era uma vergonha total para a França e seu povo.
Mesmo que o general Frey e vários oficiais sob seu comando, incluindo Leon, tenham recebido medalhas pelos esforços na campanha, Leon não sentia orgulho alguma do simples pedaço de faixa e metal que ostentava no peito.
Após a Rebelião dos Boxers, a vida na França era parecida com a do restante da Europa. Ninguém imaginava que, na década seguinte, uma das guerras mais trágicas do mundo aconteceria. Leon continuava sua carreira militar durante o dia, enquanto passeava pelas ruas de Paris à noite, com suas paixões pelos femmes fatales.
Leon não era apenas o oposto de Bruno por ele ser um oficial francês, enquanto Bruno era alemão. Em personalidade e na parte política, estavam em extremos opostos. Bruno era um homem de tradições rígidas e monarchista fervoroso. Sua lealdade era primeiro à família, depois ao povo, e por último à nação.
Isso se refletia em seus objetivos nesta nova vida. Planejava ajudar a Alemanha na próxima Grande Guerra, não só para garantir a hegemonia alemã no século seguinte, mas para preservar a monarquia e seu modo de vida tradicional.
Já Leon não tinha uma família de verdade. Seu pai morreu na guerra de 1871, e ele nunca se estabeleceu com uma esposa. Preferia a companhia de mulheres liberais e vinho do que a vida mais conservadora que Bruno representava.
Além disso, suas opiniões políticas estavam de um lado oposto ao de Bruno. Enquanto Bruno apoiava "Kaiser, Gott und Vaterland" (Imperador, Deus e Pátria), embora fosse quase ateu na prática, ainda sustentava a Igreja e seu papel na sociedade.
Leon, por outro lado, era não só ateu, mas anti-religioso em geral. Tinha também várias opiniões simpáticas aos marxistas na França e à retórica radical que pregavam.
Ele era um hedonista de raiz, gastando seu salário com prostitutas e vinho, enquanto Bruno usava seu dinheiro para sustentar a esposa e o filho ainda por nascer. Essa noite não foi diferente. Estava no bar, bebendo com alguns companheiros soldados, reclamando do que aconteceu na China para homens que ainda não haviam visto combate de verdade.
— Vocês nem fazem ideia da humilhação que passamos lá… O general Frey devia estar pendurado por traição à República! Ele pediu um conselheiro alemão para apoiar nossos esforços. E foi esse tal Lobo da Prússia quem liderou nossas forças na vitória sobre os remanescentes dos Boxers, e não o nosso general de verdade!
Os outros oficiais franceses ao lado de Leon não estavam tão bêbados quanto ele, nem compartilhavam totalmente de seus sentimentos. Achavam que ele estava exagerando. Logo, expressaram isso na cara dele.
— Mas relaxa, cara. Foi só uma confusão colonial! Quem liga se o general Frey buscou ajuda de um oficial alemão para acabar com os rebeldes? O que importa é que vencemos. Não estamos em guerra com os alemães agora. Pelo contrário, estivemos temporariamente aliados com eles e com outras nações na China.
— É natural procurar ajuda dos aliados em tempos de guerra. Ainda mais se eles já deram um golpe mortal no inimigo na própria área de ocupação. Você tá deixando seu ódio pelos alemães cegar sua cabeça.
— Enfim, Leon, cuida de você. Minha esposa vai me matar se eu ficar fora até tarde de novo com vocês dois. Te vejo amanhã na base, combinado?
Leon não respondeu. Apenas encarou o amigo com um olhar de desprezo. O cara era casado e tinha várias crianças pequenas? Algo que Leon zombava. Enquanto dava mais um gole no vinho, o outro oficial que o acompanhava também compartilhou um sentimento semelhante, deixando o capitão mergulhado na própria raiva.
— Mas eu vou mostrar pra eles. Esses malditos alemães! Os franceses vão vingar 1871 e Alsácia-Lorena vai voltar pra quem é de direito! Na minha vida, vou ver as bandeiras da França tremulando de novo sobre o território disputado, ou morrer tentando!
Por isso, pagou a conta e, alcoolizado, saiu às ruas de Paris procurando mais uma mulher qualquer para aquecer sua cama naquela noite. Bruno talvez não soubesse, mas suas ações na China tinham irritado profundamente um oficial francês, que jurou fazer de tudo para contrariar seus desejos.
Se Leon seria um adversário à altura ou se cairia no esquecimento como tantos outros inimigos de Bruno, só o tempo diria. Afinal, o futuro não está escrito, e as ações de Bruno até aqui já mudaram o rumo das coisas. A certeza de uma vitória da Entente na Grande Guerra virou apenas uma lembrança do passado do homem.