
Capítulo 28
Re: Blood and Iron
Conforme Bruno previu, as relações começaram a se deteriorar entre o Império Russo e o Reich alemão após o fim da Rebelião dos Boxers. Sem dúvida, por causa das ações que Bruno tomou, tendo se apresentado diante de crimes de guerra cometidos na sua frente.
E por causa disso, o Kaiser e o Tsar estavam atualmente reunidos em um território neutro dentro de Viena para discutir suas divergências. Os russos se sentiram humilhados após a morte de seus soldados às mãos dos alemães.
Apesar de investigações minuciosas sobre seus crimes de guerra, eles se recusaram a admitir qualquer culpa, especialmente porque a China não assinou nem ratificou a Convenção de Haia de 1899, e por isso não era protegida por suas regulamentações.
Com essa mentalidade, buscaram justiça diante de suas perdas causadas pelo Exército alemão. O Kaiser, claro, não tinha intenções de condenar Bruno por fazer o que era certo. Tampouco planejava ceder às exigências russas.
O Tsar pode ser seu primo, mas o Império Russo era um país atrasado em comparação ao restante da Europa. Tudo sobre o Império Russo — seja sua economia, produção agrícola, desenvolvimento cultural ou seu poder militar — estava severamente defasado em relação aos seus vizinhos do Ocidente.
Enquanto o Ocidente já havia industrializado há décadas e conseguira implementar a agricultura mecanizada no século anterior, o Império Russo estava notavelmente atrasado. Tentando ao máximo alcançar o ritmo dos outros, só começou a se industrializar no final do século XIX. E, como civilização, só estaria totalmente industrializado no final da Grande Guerra.
Até então, seria apenas com o Estado-sucedido do Império, durante os primeiros dias da União Soviética, que o processo de industrialização na Rússia finalmente se completaria.
Isso contrastava fortemente com o Reich, que há muito tempo havia atingido o pleno estado de industrialização. Capaz de mobilizar milhões de homens em caso de conflito, equipando-os com armamento moderno. Algo que os russos teriam dificuldades de alcançar devido à sua indústria carente.
Com isso em mente, o Kaiser não temia quaisquer ameaças que seu primo pudesse fazer e agia de forma bastante confiante nessas negociações. O Tsar Nicolau II, sem dúvida, demonstrava a falta de confiança ao tentar pressionar o Kaiser a ceder às suas exigências.
"Simplesmente inaceitável! Mais de cem dos meus homens estão mortos por causa das ações dos seus soldados! Foi uma traição à nossa aliança, e eu não admito isso! Exijo que o oficial que deu as ordens seja entregue à Rússia para ser julgado por seus crimes!
Além disso, exijo reparações às famílias das vítimas assassinadas pelas mãos dos seus soldados."
Porém, o Kaiser não recuaria diante de tais demandas. Na verdade, ele se sentia bastante seguro de que pouco poderiam fazer os russos para forçá-lo a abrir mão, e, por isso, mantinha-se calmo, sentado diante do seu primo, rejeitando abertamente suas reivindicações na própria cara.
"Um oficial do Exército Russo sacou sua arma e ameaçou um oficial do Reich. Há dezenas de testemunhas que podem confirmar isso. Além do mais, após meu oficial responder corretamente em legítima defesa a um criminoso que o ameaçava, os homens do seu exército ergueram seus rifles na tentativa de alvejar o meu."
"É justo que todos tenham sido abatidos ali mesmo. Talvez, se seus soldados não estivessem cometendo crimes de guerra, não precisariam recorrer à violência para se protegerem. Suas demandas são simplesmente irracionais, e não vejo motivo para atendê-las."
"Viemos até aqui, e no fim das contas, você ainda age como uma criança mimada, Nicolau. Estou muito decepcionado com você..."
Ao ouvir as palavras do primo, a expressão de Nicolau ficou azeda. Sentiu a necessidade de fazer algo para salvar a própria face e imediatamente ameaçou impor sanções econômicas contra o Reich, caso não obtivesse o que desejava. Uma jogada ousada, mas tola.
"Se não cumprir minhas exigências, prepare-se para as consequências. Vamos ver como o Reich se sair quando eu impor sanções econômicas a ele!"
Wilhelm II olhou para o primo como se o homem fosse um semi-intelectual. Rápido, explicou por que aquilo era uma péssima ideia, algo que prejudicaria mais os russos do que os alemães.
"Você realmente acha sensato agir assim, sendo que o Império Russo depende fortemente do comércio com a Europa? Nem vamos falar de bens de luxo como seda, açúcar e vinho. Toda a sua população depende de importações da Europa de recursos essenciais como lã, linho, couro, sebo e ferro-gusa.
Como vai avançar na industrialização sem o ferro vindo da Europa? Acha que eu não sou capaz de convencer as outras Grandes Potências a romperem laços com vocês por causa de sanções tão ridículas?"
"Sua reputação ficou manchada no Ocidente pelos horrores que seus homens cometeram na China. Seria uma estupidez ainda maior tentar forçar mais a sorte. Mas, se você insistir nessas tolices, não me culpe por ser implacável, ok?"
Nicolau encarou Wilhelm com uma expressão de fúria e preocupação. O que exatamente o Kaiser quis dizer com aquilo? Estava o ameaçando? O Tsar foi rápido em exigir uma resposta direta do primo.
"Você está me ameaçando de guerra, Wilhelm? Não pense que a Rússia está tão despreparada para um conflito assim!"
Wilhelm apenas rolou os olhos e suspirou antes de explicar que não ameaçava uma guerra direta, mas que suas intenções se revelariam caso a Rússia persistisse com as sanções.
"De jeito nenhum. Uma guerra entre o Reich alemão e o Império russo não interessa a nenhum de nós. Mas, não se surpreenda se eu acabar apoiando futuros inimigos seus, como forma de recuperar as perdas econômicas que suas sanções provocaram."
"Desde que, é claro, você realmente siga com essa ameaça. O que eu aconselharia fortemente a não fazer."
Francamente, o Tsar não sabia como responder a isso. Enquanto o Kaiser dos austríacos tremia na retaguarda. Ele foi escolhido para atuar como mediador entre as duas maiores potências do mundo. E, ainda assim, as coisas saíram rapidamente do seu controle. Tentou acalmar os dois, mas a fúria deles era algo que um velho como ele não conseguia suportar.
"Calma, calma… Vocês estão deixando as emoções tomarem conta. Vamos pensar com racionalidade. Wilhelm, não dá pra você fazer alguma concessão a Nicolau, mesmo que seja algo pequeno? Como uma desculpa formal?"
Porém, Wilhelm foi teimoso e recusou-se a ceder nessa questão, por princípio. Revelando a absurdidade de uma tal proposta com tom elevado e ofendido.
"Desculpar-se? Por quê? Os russos são claramente os culpados aqui. Se eu pedir desculpas pelas mortes de todos os criminosos de guerra no campo, que rosto eu teria como monarca? Se for pra falar a verdade, Nicolau deveria pedir desculpas a mim pelo comportamento horrível de seus homens no campo e pela tentativa fracassada de silenciar meus oficiais que testemunharam as atrocidades que estavam cometendo!"
No final, não houve acordo. O Tsar voltaria para a Rússia, amargo e confiante de que conseguiria cumprir sua ameaça de impor sanções econômicas contra os alemães.
Enquanto o Kaiser respondeu a essas ações fazendo contato formal com o Império do Japão, que já discutia conflitos com os russos pelo território disputado na Manchúria e na Coreia.
Conforme Wilhelm previa, as sanções impostas pelo Império Russo tiveram efeito maior sobre os russos do que sobre os alemães, que simplesmente compensaram a interrupção do comércio entre as duas nações exportando para o Império do Japão a mesma quantidade de materiais e bens.
E assim, o curso da história mudou mais uma vez de sua trajetória original. As relações entre o Reich alemão e o Império do Japão continuaram a melhorar, enquanto a população russa se tornava cada vez mais hostil ao Tsar devido ao declínio industrial e à incapacidade de atender às suas demandas.
Se essa situação seguisse assim, era bastante provável que o Kaiser enviasse assessores militares alemães ao Império do Japão assim que a guerra fosse oficialmente deflagrada entre eles e os russos, daqui a três anos. Potencialmente, culminando na entrada do Japão na Frente Central quando a Grande Guerra chegasse, uma década depois.
Um futuro assim, sem dúvida, seria benéfico ao Reich. E eles poderiam agradecer a Bruno, caso essa seja a nova realidade desse novo curso da história.