
Capítulo 209
Assassino Atemporal
(Visão de Enzo)
Enzo saiu para o ringue, visivelmente nervoso, tropeçando nas próprias vestes e caminhando com passos curtos e inseguros — suas botas arrastando desajeitadas na areia, criando um ritmo desigual que arrancou risadas da torcida de Genebra.
Alguns apontaram e gritaram. Outros assobiaram em tom de zombaria. Alguns até imitaram sua caminhada com passos exagerados, de forma caricata.
Nada ajudava, pois Enzo parecia caminhando para sua própria execução — o que, de certa forma, era exatamente o que estava acontecendo.
— Olha só, Derek — disse Lee, com um tom entre pena e diversão — Não é um homem indo lutar para ganhar. É alguém que tirou a sorte pior do vestiário do Rodova.
— Ele foi enviado por um motivo e só por isso — respondeu Derek, com os olhos semicerrados enquanto a câmera cortava para Leo sentado no banco, com a toalha nos ombros. — Para ganhar um tempo para Skyshard. A questão é — quanto tempo ele realmente consegue segurar?
— Eu diria... uns trinta segundos, no máximo — afirmou Lee, sem hesitar. — E ainda assim, é um exagero. Mesmo o lutador de nível Mestre mais forte não tem chance contra um Grande Mestre. E Ramos não é qualquer Grande Mestre — ele é capitão de Genebra. Essa luta é suicídio.
De volta ao campo, Ramos permanecia de pé com os braços cruzados, ombros relaxados, ostentando um sorriso de tédio.
Suas espadas duplas estavam sheathed na cintura, mas a inclinação casual da cabeça e o meio passo que deu adiante deixaram claro uma coisa: ele ia aproveitar muito essa luta.
Então, assim que Enzo finalmente chegou ao ponto de partida, o árbitro levantou a mão, olhou para ambos e disse —
— Lutadores, prontos?
Ramos desceu as espadas numa ação suave e lenta, o aço sibilando contra o couro enquanto o sol refletia na lâmina polida.
Ele girou uma espada, depois segurou ambas com equilíbrio preciso, fixando o olhar em Enzo como um falcão atento a uma ratazana atravessando um campo vazio, antes de fazer sinal para o árbitro com a cabeça, dando um leve aceno.
Enquanto isso, Enzo — que até então evitava contato visual com Ramos — finalmente olhou para cima, apenas para ver a personificação da morte encarando-o de frente.
E ele TREMEU.
Visivelmente.
Depois, com mãos trêmulas, tentou alcançar seu cinturão, mas seus dedos só tocaram o ar. A expressão dele mudou de medo para confusão… e logo depois, para pânico.
— Árbitro! — gritou Enzo, levantando a mão como um garoto que pede permissão para ir ao banheiro. — Acho que ouvi minha espada na cabine... Não estou pronto... me deixa buscar —
Um silêncio completo se instaurou.
Então —
— VOCÊ TÁ BRINCANDO COMIGO? — explodiu o árbitro, com as veias saltando na testa enquanto toda a arena se enchia de risos misturados a vaias. — Como é que você pode esquecer a sua arma antes do final de campeonato?!
— Foi um erro de verdade, juro! — acrescentou Enzo, com um sorriso envergonhado, coçando a nuca. — Me dá só uns dois minutos —
— Isso é uma vergonha! — Ramos rosnou, avançando. — Ele está enrolando! Você espera que eu acredite que ele esqueceu a arma?!
— Ah, isso aí é constrangedor, com certeza — grunhiu o árbitro, apontando para Enzo, quase explodindo de raiva — mas não posso começar a luta se um dos lutadores estiver desarmado. Então, se apressa e VENDA LOGO ESSA ARMA!
Enquanto a torcida do Rodova ria, e os apoiadores de Genebra vaiavam com uma mistura de raiva e zombaria, Enzo fez uma reverência desajeitada e correu de volta para o túnel — tropeçando uma vez pelo caminho, o que aumentou ainda mais o vai-vem de provocações do público.
Lee suspirou no microfone.
— Isso é patético. Ramos tem razão — isso tem que ser intencional.
— Ele está ganhando tempo — concordou Derek, embora sua voz tivesse uma tonalidade de curiosidade sob a crítica. — Mas se essa é a estratégia dele… bem, talvez não seja tão patético assim.
Porque, na verdade —
Cada passo vacilante, cada movimento tropeçado, cada segundo que Enzo permaneceu naquela arena, foi feito com um único propósito:
— Ganhar tempo.
Entre a caminhada lenta e o episódio do “arma esquecida”, ele já tinha consumido quase dois minutos inteiros do relógio.
Dois dos cinco minutos que Leo havia pedido.
E, mesmo parecendo um completa besta para toda a humanidade — Enzo não se importava.
Pois, se fazer o tolo dava a chance de sua equipe ganhar, então ele estava pronto para ser o maior palhaço até o final.
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(Enquanto isso, Yu Shen)
Yu Shen acompanhava a luta em um monitor compacto na enfermaria, na sala de recuperação, com o torso ainda envolto em ataduras apertadas e a respiração curta por causa das costelas que Ramos havia quebrado na luta anterior.
E, mesmo assim —
Apesar da dor que queimava toda vez que ele se movia, não conseguia impedir o pequeno sorriso que se formava no canto dos lábios enquanto observava Enzo tropeçar em seus próprios cadarços pela segunda vez na volta ao túnel.
— Lá vem ele de novo… — pensou Yu Shen carinhosamente, enquanto a lembrança de um Enzo bem diferente surgia com clareza vívida.
Era o quarto dia daquele infernal acampamento de verão — o que os instrutores chamavam de “Semana da Tempestade”. Um percurso implacável de treinamentos físicos, guerra mental e rodízios de 72 horas sem dormir, tudo para quebrar espíritos e identificar líderes.
Eles estavam em uma simulação de emboscada noturna. Terreno de floresta totalmente escuro, equipamentos mínimos, trinta alunos divididos em seis equipes. O objetivo? Infiltrar uma base de suprimentos protegida.
Yu Shen fora designado líder de uma equipe desalinhada, sem talentos evidentes. Estavam cansados. Descoordenados. E um deles — Enzo — tinha, de algum jeito, ficado com o pé preso numa toca de coelho trinta segundos após o início do exercício, alertando dois instrutores de reconhecimento com um grito que parecia um esquilo morrendo.
A equipe toda foi pega, amarrada às árvores, com seus tempos de captura anotados à caneta vermelha na tela do placar.
Ficaram humilhados.
Na manhã seguinte, enquanto todos reclamavam e culpavam uns aos outros, Enzo se levantou — ainda com sono, mancando — e levantou a mão.
— Se alguém vai ser culpado, que seja eu. Foi meu erro. Mas, se vão rir de alguém, que seja de verdade, sem piadinhas — disse, e então — sem aviso — colocou uma folha na cabeça, colocou grama na boca e começou a imitar as chamadas de patrulha dos instrutores como um lunático, balançando como uma pomba na floresta.
Ele fez aquilo pra garantir que a equipe risse da humilhação do dia anterior e se concentrasse nos desafios por vir, e, graças a ele, foi exatamente o que aconteceu.
O grupo riu demais ao vê-lo brincar e até os instrutores desviaram o olhar com vergonha.
Mas foi naquele momento — ao assistir um garoto que tinha pouquíssimas habilidades, nenhum poder extraordinário e nenhuma finesse especial, desarmar a tensão de toda uma missão frustrada apenas com humor sem vergonha e uma teimosia de não desistir — que Yu Shen decidiu que precisava dele na equipe.
— Ele não é forte nem rápido, se for só pelo talento, dá pra conseguir pessoas bem melhores para a equipe — disse Yu Shen aos treinadores mais tarde, — mas ele é o único que nunca entra em pânico quando realmente importa. E, se você der a ele um papel que ele entenda, ele vai até o fim — não importa o que custe.
Agora, vendo Enzo ganhar tempo contra um Grande Mestre na maior final de torneio do mundo — não com força, mas com uma estupidez tão comprometida que virou genialidade — Yu Shen sorriu suavemente e murmurou:
— ...E é por isso que você está aqui.
Ele se recostou na maca, fechou os olhos por um instante e sussurrou:
— Continua dando tempo para o Leo, Enzo. Todos estamos contando com você.