
Capítulo 878
Assassino Atemporal
Assim que Leo ergueu a mão pedindo silêncio, a multidão se calou, o coro morrendo quase instantaneamente à medida que milhões de vozes se silenciaram, a disciplina se restabelecendo enquanto ouviam atentamente.
"Como todos vocês já devem saber, os Bastardos Justos conseguiram capturar nosso Dragão, Aegon Veyr," disse Leo, sua voz propagando-se claramente pelas planícies, sem teatralidades, afiada pela raiva que não tentou esconder.
"Eles o têm, e ao invés de lhe conceder uma morte digna de guerreiro, como deveriam, optaram pela humilhação..."
Uma onda de fúria contida percorreu as fileiras.
"Eles o exibiram," continuou Leo, com o olhar endurecido, varrendo o exército. "Engaiolaram-no. Não porque temessem a sua força, mas porque temiam o que ele representa, e não se engane, isso nunca foi apenas sobre destruir um Culto Dragão."
Ele fez uma pausa, deixando as palavras assentarem.
"Isso foi uma tentativa de quebrar a honra do Culto," disse Leo, com o tom ficando mais baixo, mais pesado. "Uma tentativa de fragmentar nossa unidade. Uma tentativa de nos lembra do que eles acreditam que somos, abaixo da sua ordem."
"Quando decidi inicialmente salvar Veyr," continuou Leo, sua expressão mudando, não amolecendo, mas voltando-se para dentro, "perguntei a mim mesmo uma questão que muitos de vocês também devem ter se feito."
Perguntei se era correto arriscar a vida de bilhões por uma única pessoa?
Seus olhos varreram lentamente o mar de soldados.
"Sei que muitos de vocês se perguntaram se essa guerra vale a pena," disse ele, com a voz firme.
"Se alguns de vocês questionaram se uma única vida justifica toda essa carnificina."
O silêncio se aprofundou.
"Mas depois de pensar bastante," falou Leo, com a postura ereta, "percebi algo fundamental."
Ele levantou ligeiramente a mão, os dedos se curlando.
"O Dragão não é apenas um guerreiro," afirmou Leo com firmeza. "Ele não é apenas uma vida no centro deste conflito."
Sua voz se elevou, carregada de convicção.
"Ele é a personificação de nossas esperanças," continuou Leo, com os olhos aguçados. "Ele é a encarnação dos sonhos que carregamos no exílio, através da humilhação, da sobrevivência quase sem esperança, que mal podia ser chamada de viver."
Um tremor percorreu a multidão.
"E é por isso que não travamos essa guerra apenas para salvar um Dragão," declarou Leo, sua aura se expandindo sutilmente, mas de forma inegável. "Lutamos para proteger esses sonhos. Lutamos para provar que esses sonhos nunca foram um erro."
Ele deixou a frase pairar por um momento, antes de continuar.
"Por tempo demais," disse Leo lentamente, "por tempo demais, o Culto permaneceu passivo."
Sua mandíbula se apertou.
"Mantivemos-nos vivos," falou, com a voz mais fria. "Por pouco. Fizemos o que podíamos com os territórios que conseguimos segurar, não para crescer, não para reconquistar, mas simplesmente para evitar a extinção."
Alguns soldados apertaram os punhos.
"Talvez aqueles momentos exigissem contenção," admitiu Leo, com o olhar levemente elevado. "Talvez realmente só pudéssemos suportar tanta coisa."
Depois, seus olhos voltaram para baixo.
"Mas a passividade nos enfraqueceu," afirmou Leo, com o tom tornando-se mais incisivo. "Ela nos tornou menores. Mais cautelosos. E agora, nem sequer temos planetas natais para defender..."
As palavras atingiram como golpes.
"No final," disse Leo, sua voz se tornando definitiva, "a fraqueza gera fraqueza. E a relutância em lutar guerras necessárias garante que virão ainda piores depois."
Ele se endireitou completamente.
"Então não farei mais isso," declarou Leo, sua presença se intensificando. "Não ficaremos mais de braços cruzados. Não sofreremos mais. Não temeremos mais."
O ar tremeu.
"Sim," continuou Leo, sua voz baixando novamente, carregada de verdade, "muitos de nós morrerão por essa revolução."
Nenhum soldado desviou o olhar.
"Mas essas mortes não serão em vão," afirmou Leo, com os olhos ardendo de certeza. "Cada gota de sangue do Culto derramada será o catalisador para nossa retomada."
Sua mão se cerrando em um punho.
"Mesmo que não vivamos tempo suficiente para desfrutar os frutos de nossos esforços," falou Leo, sua visão percorrendo o exército uma última vez, "faço a vocês a minha promessa: deixaremos este universo em um lugar melhor para que a próxima geração viva."
O silêncio que seguiu não estava vazio.
Ele estava tenso.
Pronto.
E em algum lugar no meio das fileiras, bilhões de corações pulsavam como um só, já não questionando se essa guerra deveria ser travada, mas apenas quando seriam desencadeados.
Leo deixou o silêncio se alongar, não por incerteza, mas por controle, permitindo que o peso de suas palavras se assentasse totalmente nos corações daqueles que estavam frente a ele.
Depois, inclinou-se levemente para frente.
"Então minha única pergunta a vocês é esta," disse Leo, sua voz atravessando as planícies, calma e definitiva. "Quem está comigo?"
Por um instante, o mundo prendeu a respiração.
Então, a resposta veio.
As planícies explodiram.
Um rugido saiu de bilhões de gargantas ao mesmo tempo, bruto e selvagem, sacudindo o chão sob seus pés enquanto soldados golpeavam escudos com armas, espadas erguidas, bandeiras balançando violentamente ao serem empurradas para o céu, o próprio ar parecendo incendiar-se com movimento e som.
"Vingança!"
"Vingança!"
O grito se espalhou em ondas, se sobrepondo e crescendo em intensidade a cada repetição.
Outrosclamaram seu título sem reserva, vozes se rasgando ao gritá-lo ao céu, o nome carregado por fúria, devoção e algo muito mais perigoso do que lealdade.
"Dragão Sombrio!"
"Dragão Sombrio!"
Os cantos se chocaram, fragmentando-se inicialmente, até se fundirem numa única tempestade avassaladora de som, enquanto a disciplina se dissolvia totalmente na fervor, armaduras rangiam, botas martelavam, e a Planície da Assembleia do Culto se transformava num campo de batalha vivo antes mesmo da guerra começar.
Leo permaneceu imóvel, no centro de tudo, com olhos cinzentos calmos enquanto assistia às bandeiras agitarem-se e às armas brilharem sob o céu aberto, bilhões tomando a mesma decisão ao mesmo tempo.
Não restava hesitação.
Nenhuma dúvida.
A decisão havia sido tomada.
O Culto marcharia.
A guerra começaria.
E o Dragão seria salvo.