Assassino Atemporal

Capítulo 879

Assassino Atemporal

(A caminho do Mundo Congelado pelo Tempo, a bordo da Nave de Comando Central, ponto de vista de Chaosbringer)

O céu acima do Mundo Congelado pelo Tempo ardia com movimento.

Das vastas plataformas de lançamento esculpidas em pedra suspensa, dezenas de milhares de destruidores Cult e transportadores de tropas emergiam em ondas disciplinadas, seus cascos cortando os céus estagnados enquanto os motores ardiam em explosões de luz, longas colunas de luz rasgando o céu cinza enquanto a frota se preparava para partir.

À frente deles, o ponto de saída se assemelhava a uma ferida na realidade.

Um Portal Dimensional, largo o suficiente para que apenas três naves passassem de cada vez, aguardava, enquanto a frota o atravessava em fluxo contínuo.

Os destruidores formaram uma ponta de lança, os escorts se espalharam, enquanto os transportadores de tropas se mantinham próximos ao centro, entrando no portal um a um, em perfeita sequência, desaparecendo na fenda ondulante como se o universo além estivesse devorando tudo por inteiro.

No coração daquela formação em movimento, pilotava uma única nave, fortemente guardada, mas aparentemente comum, protegida por camadas defensivas sobrepostas e escoltas silenciosos que se disponibilizariam a se transformar em cinzas antes de permitir que o mal chegasse ao que protegiam.

Dentro daquela nave, estava Leo, e ao lado dele, a única outra pessoa autorizada a voar ao seu lado, Chaosbringer observava o portal ficar cada vez maior pela janela reforçada, sua superfície reluzente refletindo nos olhos dele como vidro líquido.

"Sabe, meu Senhor, há muitos soldados no exército que nunca viram o universo além do Mundo Congelado pelo Tempo," disse Chaosbringer, enquanto seu olhar permanecia fixo na entrada, um leve sorriso brincando nos cantos de seus lábios. "Esta é a primeira vez que eles saem para o exterior e têm sorte de que estamos indo para Ixtal, pois é o berço de tantas lendas e histórias que cresceram ouvindo."

Leo não desviou o olhar.

Refletiu sobre o que Chaosbringer disse e assentiu sinceramente.

"Pois é, uma geração inteira de guerreiros no exército agora não tem um planeta natal," disse Leo, enquanto seus olhos acompanhavam a interminável fila de naves que desapareciam no portal, suas luzes sumindo uma após a outra na cortina impossível.

"Ficamos presos no Mundo Congelado pelo Tempo por tempo demais."

O brilho do portal iluminava seu rosto com luz fria e instável.

"E tenho medo que, se não sairmos agora, o tempo comece a cicatrizar antigas feridas," admitiu Leo, mantendo uma postura calma, quase distanciada, como se estivesse falando de clima e não de guerra.

"A humilhação vai desaparecer. A raiva vai diminuir. E as massas não desejarão mais guerra."

Sorriso de Chaosbringer afinou um pouco.

Os olhos de Leo se estreitaram, não de fúria, mas de compreensão.

"Vingança não envelhece bem, Chaosbringer," disse ele, olhando para frente, já compreendendo bem a psique humana e fazendo previsões sobre onde o tempo inevitavelmente levaria.

"Ou ela queima forte o bastante para reescrever a história, ou esfria e vira arrependimento. E, se não agirmos agora, ela esfriará... E já consigo ver isso acontecendo."

Admitiu tudo claramente, pois essa percepção se tornara mais uma razão pela qual ele desejava essa guerra.

Leo tinha medo de que, se o Cult não lutasse agora, começasse a se contentar lentamente dentro do Mundo Congelado pelo Tempo, satisfeito com a segurança e estabilidade que conquistara, até que o desejo de voltar ao universo mais amplo sumisse completamente.

A qualidade de vida do povo comum melhorava rapidamente dentro do Mundo Congelado, e com essa melhora viria, inevitavelmente, a divisão.

Uma facção surgiria, que valoriza a paz mais que o orgulho, a segurança mais que o legado, um grupo que preferiria sempre se esconder ao invés de recuperar o que foi perdido.

E isso, por si só, seria suficiente para acabar com as crenças históricas do Cult em uma única geração.

"O sequestro de Veyr pode acabar se mostrando uma bênção para nós, Chaosbringer," disse Leo, com o tom firme, apesar do peso das palavras. "Mesmo que seja difícil prever como tudo vai acontecer, na minha avaliação, precisávamos dessa guerra para nossa sobrevivência."

Leo compartilhou sua conclusão, e Chaosbringer imediatamente abaixou a cabeça, começando a oferecer palavras de elogio.

"Sua sabedoria não tem limites, meu Senhor. Estar ao seu lado realmente me ilumina…"

disse Chaosbringer, enquanto Leo resfoegava levemente e balançava a cabeça.

À primeira, o comportamento estranho de Chaosbringer o incomodou. Contudo, após décadas ao lado do homem, Leo se acostumou às suas atitudes.

"Não isso," disse Leo com franqueza. "Me diga o que você realmente sente."

Ele o incentivou, enquanto Chaosbringer olhava para cima e soltava um longo suspiro de cansaço, sua expressão perdendo a reverência performática ao reunir seus pensamentos verdadeiros.

*Suspiro*

"Hm," Chaosbringer falou lentamente, "acho que você está certo, meu Senhor. O tempo cura feridas, se passar tempo suficiente."

Ele fez uma pausa.

"Porém, não tenho certeza se isso se aplica ao Cult por algum motivo."

Leo levantou uma sobrancelha, ouvindo atento.

"Existem famílias dentro do Cult cujos últimos cinquenta antepassados viveram e morreram com um único objetivo," continuou Chaosbringer. "Ver o ressurgimento do Cult."

"Então, neste ponto, acho que virou menos um sonho e mais uma compulsão," disse com sinceridade. "Quase um fator genético."

"Concordo que o tempo cura todas as feridas, e que, se deixarmos passar um século sem agir, talvez surja uma facção que não queira voltar a sair," acrescentou Chaosbringer, "mas não acredito que isso apague o desejo maior de recuperar a antiga glória do Cult, pois negar esse sonho é negar até mesmo seu sangue."

"Não importa quanto tempo passe ou quantas gerações venham e vão, a constante que une o Cult é sua fome por vingança e o sonho de ressurgimento."

"Então, talvez, não seja tão grave quanto pensa," concluiu Chaosbringer enquanto Leo permanecia em silêncio, sua expressão endurecendo um pouco ao ponderar o argumento.

Havia mérito no que Chaosbringer dizia. Leo não podia negar isso.

No entanto, sua própria conclusão permanecia a mesma.

O Cult precisava dessa guerra.

E, talvez, no final, fosse melhor que eles finalmente a tivessem.

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