
Capítulo 603
Assassino Atemporal
(Planeta Ixtal, Castelo de Soron, Ponto de Vista de Leo)
Soron conduziu Leo e Charles pelas escadas sinuosas do castelo até sua câmara particular de tesouros, um cômodo que provavelmente não era aberto há mais de um milênio.
*Soprando*,
Quando as pesadas portas rangiram ao se abrir, os olhos de Leo se arregalaram diante do que viu, pois aquilo não era uma armaria comum ou um depósito, mas um salão de maravilhas.
Conjuntos de adagas divinas brilhantes repousavam sobre suportes polidos, lâminas únicas forjadas com metais há muito desaparecidos cintilavam suavemente na pouca luz, botas encantadas estavam alinhadas ao lado de pergaminhos de habilidades enrolados que pulsavam com um poder dormente, enquanto inúmeras outras relíquias estavam dispostas cuidadosamente nas estantes, cada uma delas irradiando uma presença que as tornava tesouros impossíveis de encontrar em qualquer outro lugar no universo.
No entanto, entre esses artefatos de valor inimaginável, havia itens de uma natureza diferente, objetos que não tinham aura visível, mas eram pertencimentos pessoais que Soron mais prezava.
Em uma prateleira ao lado de alguns pergaminhos de habilidades, havia uma pequena foto preservada em cristal de Soron com seu pai e Kaelith, e bem ao lado um manequim de treinamento cortado ao meio, que apodecera com o tempo, com a madeira deteriorando-se ao longo dos séculos, mas ainda guardado nesta câmara de tesouros como se fosse tão valioso quanto os demais objetos deste cômodo.
No entanto, mesmo com tanta abundância, o olhar de Leo foi atraído para o canto mais distante da sala, onde um único caixão repousava separado dos relíquias brilhantes, pequeno o suficiente para passar despercebido, se não fosse a reverência com que Soron se aproximava dele.
As mãos frágeis do Grande Deus tremiam enquanto ele alcançava a tampa com cuidado meticuloso e a abria, de dentro retirando uma caixinha que continha duas ampolas de vidro, cada uma menor que um dedo e contendo uma única gota de líquido transparente que brilhava suavemente, como se capturasse a luz das estrelas.
Soron segurou as ampolas nas palmas das mãos como se fossem os objetos mais preciosos do mundo, a voz dele tremia enquanto começava a falar.
"Meu pai fez este tesouro para mim e para meu irmão, caso ele venha a ter uma morte inesperada," ele sussurrou, e mesmo essa frase simples carregava um peso que apertou o peito de Leo.
"Encontrei-o depois que ele faleceu... deixou um testamento. Na carta que escreveu, dizia que dentro dessas ampolas há uma chance de vê-lo uma última vez, de conversar com ele em um mundo de sonhos, se eu ou Kaelith precisássemos de encerramento."
Ele dizia que, se fôssemos realmente seus filhos, nunca o tomaríamos, e que seguiríamos nosso próprio caminho na vida.
Mas, caso algum de nós se sentisse demasiado sozinho, ou perdido, ou consumido pelo desespero, poderíamos beber desta ampola e ele nos concederia vinte minutos de sua presença."
Agarrou as ampolas com força, a garganta apertada de um anelo não dito.
"Guardei a minha para o dia em que for dar meu último suspiro, como prova de que suportei conforme ele desejou, e que caminhei meu próprio caminho sem depender dele.
Porque, mesmo após dois mil anos, quis bebê-la todos os dias, mas ainda assim permaneci firme, como tenho certeza de que ele gostaria que eu fosse.
Porém, acho que Kaelith não merece mais seu presente após sua traição, então entrego a você."
"Você pode beber a parte dele e reencontrar meu pai, o guerreiro imbatível que chamavam de Impostor Atemporal."
Leo e Charles ambos se inclinaram adiante, com os olhos arregalados, sentindo o peso do que lhes fora oferecido pressionar como a gravidade de um outro mundo.
"Não sei se ele aceitará vocês," Soron admitiu, com a voz frágil, mas firme.
"Este tesouro nunca foi feito para vocês, então talvez nada aconteça. Mas, se ele decidir reconhecer vocês, se decidir falar com vocês, prometo... que esses vinte minutos irão mudar suas vidas para sempre."
O silêncio que se seguiu foi profundo, quebrado apenas pelo leve tilintar das ampolas de vidro enquanto Soron colocava uma de volta dentro do caixão e abria outra, que ofereceu a Leo para beber.
"Tudo de bom, meu filho, e se ele perguntar de mim, diga apenas... Que eu—
Não.
Não diga nada dele, apenas diga que um dia contarei minha história."
Soron disse, parecendo se controlar justo antes de ceder às tentações.
*Tremor*
Com mãos trêmulas, Leo pegou a ampola aberta e engoliu o líquido de uma só vez, num gole preciso.
*Engolindo*
O líquido parecia engolir um fragmento de luz das estrelas, frio e sem peso enquanto descia pela garganta, mas ao tocar o estômago espalhou-se como fogo pelas veias, queimando sem causar dor, preenchendo cada nervo com uma estranha clareza que era ao mesmo tempo estimulante e aterrorizante.
O peito dele ficou apertado, como se seu coração estivesse acorrentado por correntes invisíveis, enquanto a visão começava a ficar turva nas bordas, manchas escuras invadindo seus olhos, como se a própria noite estivesse vazando por eles.
O cômodo ao seu redor se dissolveu lentamente, as paredes de pedra pareciam derreter como cera quente antes de desmoronar em nada, enquanto o peso do corpo dele sumia e ele era levado a uma escuridão que não era sufocante nem vazia, mas algo entre os dois, um espaço que parecia respirar sutilmente, vivo, invisível.
*Tump...* *Tump...*
Apenas o som de seu pulso permanecia, constante e alto, até que até mesmo esse silêncio se apagou, dando lugar ao leve sussurrar de um mundo se formando ao seu redor.
Cores se transformaram em forma, primeiro suavemente, depois com nitidez, enquanto a escura ia cedendo lugar ao contorno do solo sob seus pés e ao brilho silencioso de um céu que não pertence a nenhum planeta conhecido, como se tivesse entrado num sonho que nunca deveria ser tocado pelos mortais.
*Sussurrar*
Uma silhueta apareceu diante dele, agachada, com cotovelos apoiados nos joelhos e olhos afiados o observando com desconfiança, a cabeça levemente inclinada, como se perguntasse sem palavras: "Quem diabos é esse menino?"
A respiração de Leo prendeu na garganta, porque mesmo sem uma apresentação ele sabia. O rosto era mais jovem que a frágil imagem de cristal, a postura cheia de agudeza indomada, mas a semelhança era inconfundível.
Era o homem da foto que ele tinha acabado de ver há pouco.
O pai de Soron.
O Assassino Atemporal.