
Capítulo 604
Assassino Atemporal
(Mundo dos Sonhos, ponto de vista de Leo)
O Assassino Atemporal observava Leo com atenção, seus olhos cinzentos calmos, mas penetrantes, como se buscassem memórias há muito enterradas enquanto tentavam encontrar uma pista de familiaridade no rosto do garoto que se recusava a emergir.
Seu cabelo preto caía de forma arrumada até os ombros, com fios ligeiramente prateados nas têmporas, indicando que era um homem de meia idade que, embora estivesse em seu auge, ainda carregava alguns fios grisalhos de sabedoria.
De modo geral, havia uma doçura em seus traços que o fazia parecer mais um pai gentil do que o assassino temido pelo universo que sua lenda proclamava, e ao invés do medo instintivo que Leo esperava sentir ao encontrá-lo, o que despertava dentro dele era uma calma silenciosa, quase desconcertante.
"Seus olhos e ouvidos... carregam a forma do meu pai, e posso sentir meu sangue correndo em suas veias. Quem é você, criança? É um dos meus?"
A voz atingiu Leo com mais força do que as palavras, pois sua profundidade e tom lembravam Jacob.
Não na pronúncia, mas no tom, na tonalidade, na maneira como cada sílaba carregava peso, soando firme e maduro.
Era como ouvir um fantasma de casa, e a familiaridade fez o coração de Leo apertar.
*Empurre*
Leo se levantou, sacudindo a poeira de suas roupas, antes de estender a mão à frente, de forma firme e respeitosa.
"Sou Leo Skyshard, senhor. Um seu descendente."
Ele se apresentou, enquanto a expressão do Assassino Atemporal se iluminava com um sorriso que aquecia todo o rosto, suavizando a intensidade de seu olhar.
Ele apertou a mão de Leo com firmeza, sacudindo-a com uma calorosa surpresa.
"Ahhh... um descendente! Isso explica por que você se parece com meu pai. Hahaha!"
Sua risada profunda preenchia o cenário de sonhos enquanto colocava as mãos nos quadris, em um gesto exagerado de cheer, tão despreocupado que fez o olho esquerdo de Leo antagonizar em descrença.
Esse homem diante dele parecia mais um tio carinhoso do que o assassino infalível cujo nome uma vez abalou impérios.
"Mas me diga, filho... como conseguiu essa ampola? Eu as deixei apenas para Kaelith e Soron. Confio que meus filhos estão indo bem?"
Ele perguntou, enquanto Leo coçava nervosamente a parte de trás do pescoço, com a voz mais baixa que de costume.
"Bem, senhor... foi seu filho Soron quem me deu a ampola. Ele me disse que, se você perguntasse dele, eu não deveria falar muito, porque ele quer contar a sua história de vida pessoalmente. Preferencialmente no último dia dela."
O sorriso do Assassino Atemporal se suavizou ainda mais, orgulho brilhando em seus olhos cinzentos enquanto ele ria profundamente.
"Isso é exatamente o que o Soron faria… Hahahaha! Tenho orgulho daquele garoto."
Mas então sua expressão ficou curiosa, sua voz pensativa.
"Criei essas ampolas poucos dias depois de alcançar a divindade, então não sei o que acontece no futuro ou como minha vida termina.
Deixei um testamento confiando essas ampolas a um confidente, que deveria entregá-las aos meus filhos após minha morte.
Se o Soron já tem sua ampola e a está guardando para o último dia de sua vida…
Posso perguntar por que ele entregou a ampola de Kaelith a você?"
O Assassino Atemporal perguntou, enquanto o olhar de Leo baixava, com pena sombreando suas feições.
"Bem… Eu não estava lá naquele dia, então não sei todos os detalhes. Mas, há cerca de 2200 anos, os registros dizem que você foi traído por Kaelith, e foi assim que morreu. Então… Soron achou que Kaelith não merecia mais sua ampola, e a confiou a mim."
As palavras fizeram Leo hesitar, como se tivesse aberto uma ferida antiga. No entanto, o rosto do Assassino Atemporal não mostrou choque ou raiva, apenas uma aceitação calma.
Ao invés de indignação, um sorriso leve se curvou em seus lábios.
"Então é esse o fio do destino que finalmente se desfez, hein? Se a mão de Kaelith terminou minha vida, então sempre foi para acontecer.
Vi a possibilidade disso quando ele ainda era apenas um menino.
E se nem com toda a minha previsão consegui impedir, talvez nunca tenha sido o pai que imaginei ser."
Disse sem amargura ou ressentimento, apenas uma melancolia silenciosa que apertou o coração de Leo.
Aqui estava um homem falando de traição por sua própria linhagem, e em vez de fúria, havia apenas uma aceitação cansada do que estava escrito no destino.
"Sinto muito pela sua perda, senhor," disse Leo suavemente, enquanto o Assassino Atemporal acenava com um gesto pequeno, seus passos sem pressa enquanto começava a caminhar pelo cenário de sonhos em transformação, gesticulando para que Leo o acompanhasse.
"O que se foi, se foi, criança. Já estou morto, e a dor não tem poder aqui. Venha, caminhe comigo. Conte-me como está o Culto, como se comportam os outros Deuses, e se os mortais vivem em paz ou continuam sofrendo.
Sei que o Soron deve tê-lo enviado aqui por um motivo...
Tenho certeza de que ele quer que eu lhe dê algo antes que nossa passagem aqui acabe.
E eu vou dar.
Mas me conceda oito minutos primeiro, me diga o que aconteceu com o universo que deixei para trás, e aí passarei os últimos dez minutos da nossa conversa ensinando algo que você realmente precisa saber."
O Assassino Atemporal propôs, e Leo assentiu prontamente, acompanhando-o enquanto caminharam lado a lado, e ele começou a contar sobre o estado atual dos assuntos do Culto.
"Bem, senhor, o Culto da Ascensão ainda é uma força no universo. Então, pelo menos existe, e isso já é uma boa notícia.
Seu filho, Soron, agora é um Deus poderoso, e lidera o culto.
Mas, fora isso, não há muito de bom para dizer.
As pessoas estão felizes, mas seu orgulho foi ferido, pois o Culto não é mais o que costumava ser.
Contam que, ao final da sua vida, você controlava cerca de 85% do fluxo do arco-íris, enquanto o Culto atual detém apenas 5% daquele território, o que equivale a alguns poucos planetas.
Os membros remanescentes são fiercely loyalty, mas desejam recuperar o orgulho e os territórios perdidos, e isso se tornou uma fixação para eles.
Porém, o progresso é lento, e os que traíram você são demais para serem enfrentados.
É uma bagunça, senhor, mas o Soron está fazendo o seu melhor, e embora o avanço na recuperação do orgulho perdido seja lento, acho que o pior já passou e que o Culto está se reerguendo novamente."
Leo compartilhou, enquanto o Assassino Atemporal estremeceu levemente com essa notícia.
"Não era exatamente assim que imaginei o Culto 2.200 anos após minha morte…
Pensei que, naquela época, ele se tornaria um paraíso para seu povo, mas acho que me enganei.
Se pudesse voltar no tempo, talvez focasse mais em tornar o Culto mais autossuficiente, ao invés de ficar microgerenciando tudo, mas não posso mudar o que aconteceu.
Então, tentarei aconselhar você, filho, na esperança de que realize o sonho que não pude."
Disse o Assassino Atemporal, respirando fundo e olhando para o céu com um sorriso suave e de pesar no rosto.
"Deixe-me contar uma pequena história, filho. Essa era uma lição que eu queria transmitir ao Soron ou ao Kaelith… Mas, na época, era teimoso demais sobre como queria ser como pai, então nunca compartilhei minhas fraquezas com eles.
Depois de pensar, talvez eu devesse ter feito diferente.
Talvez eu não precisasse ser tão duro com eles o tempo todo.
Mas, enfim…
Acho que a karma veio para mim por causa da minha má paternidade.
Então, vou tentar compensar agora."
Ele falou, colocando uma mão delicada no ombro de Leo e soltando um suspiro profundo.