
Capítulo 601
Assassino Atemporal
(Planeta Ixtal, Castelo de Soron, ponto de vista de Leo)
As pesadas dobras da túnica de Soron escorregaram de seus ombros, e, naquele momento, o ar no peito de Leo ficou preso, seu mundo se estreitando para o corpo frágil diante dele.
Ao longo do peito e do abdômen de Soron, se estendiam cicatrizes que não pareciam cicatrizes de verdade, mas feridas abertas congeladas no tempo, brilhando com um líquido negro viscoso que escorria lentamente, mas nunca caía, como se sua própria carne tivesse sido amaldiçoada a sangrar sem parar.
Veias escuras pulsavam suavemente ao redor das feridas, latejando e se contorcendo, lutando desesperadamente para fechar o que simplesmente se recusava a cicatrizar, e só de ver aquilo, Leo sentia uma contradição com todas as leis da vida que ele já tinha aprendido.
E então, ele viu o Verde.
Sem aviso, uma aura vibrante de cor verde brilhante se acendia ao redor da figura de Soron, tão intensa e espessa que a visão de Leo quase se borrava ao tentar contê-la. Mas, entre aquele brilho, havia incontáveis rachaduras onde a escuridão emergia lentamente como um veneno, escorrendo pelo luminoso sem nunca apagá-lo.
"Você consegue ver agora, garoto? Consegue enxergar a vontade dele de sobreviver?" perguntou Charles, enquanto, naquele momento, linhas finas de intenção surgiam de dentro da aura de verde brilhante, fios luminosos que ligavam Soron a Charles e, por sua vez, a Leo. As conexões eram sutis, mas inconfundíveis, como se a própria existência do Deus estivesse presa às deles de maneiras que nenhum dos dois ainda conseguia compreender.
O estômago de Leo virou, seu pulso acelerado ao tocar uma das linhas de intenção verde, e assim que o fez, ele entendeu a razão de Soron ainda estar ali, resistindo.
*ARQUEJO*
Leo respirou fundo, percebendo que Soron permanecia firme porque não tinha um sucessor para passar o trono.
Ele continuava segurando-se, porque nem Charles nem ele estavam prontos para substituí-lo ainda.
E assim, ele sofria.
Não porque tinha medo de morrer.
Mas porque tinha medo de morrer sem um herdeiro.
"Esse homem não deveria estar vivo—" Leo percebeu, enquanto, de sua perspectiva, cada respiração que Soron dava parecia luchar seu caminho através de pulmões praticamente apodrecidos.
Nos olhos dele, cada leve tremor das mãos de Soron carregava o peso de uma carne que se recusava a obedecer, cada centelha de sua aura gritava uma batalha travada incessantemente dentro de seu corpo—e ainda assim, ele estava ali, sentado diante deles, não apenas vivo, mas sorrindo com uma calma quase paternal.
A força de vontade que devia ser necessária para permanecer sentado nesta mesa, para servir chá com mãos trêmulas, para vestir a máscara da dignidade enquanto seu próprio corpo parecia querer traí-lo... Leo não conseguia entender.
"Que tipo de homem consegue suportar isso?"
"Que tipo de Deus é ele para ainda estar de pé, inquebrável, diante de esse sofrimento que deveria tê-lo matado há séculos?"
Leo se perguntou, ao baixar a cabeça com reverência diante de Soron.
"Estes são cicatrizes da Lâmina de Origem… O único metal capaz de ferir Deuses."
"Mas você pode chamar isso de o modo da natureza amaldiçoando a Divindade." disse Soron, enquanto Leo ouvia com atenção apurada.
"Recebi essas feridas há 2200 anos, durante a Grande Traição..."
"No começo, continuei vivo porque queria vingar a morte do meu pai."
E por isso, apesar dessas feridas, agarrei-me à vida com paixão.
Porém, agora, só estou segurando-me porque minha morte significaria o fim do Culto.
E, assim, guardo o pouco de força que me resta para os dias em que a sobrevivência do Culto for mais necessária." Confessou, enquanto Leo finalmente entendia por que Soron nunca aparecia para cuidar das operações diárias do Culto.
Não era que ele não se importasse.
Simplesmente, não tinha mais força para lutar todas as batalhas.
*Espirro*
*Espirro*
Ele tossiu suavemente, cobrindo-se novamente, sentando-se de volta e tomando um chá quente para acalmar a garganta.
"A vontade de sobreviver... Espero ter mostrado o que você veio buscar." disse Soron, enquanto Leo se curvava profundamente, seu coração de verdade tocado pela magnanimidade de Soron hoje.
Certamente não deve ter sido fácil para o Grande Deus mostrar seu lado vulnerável para alguém.
Especialmente para um menino notório como Leo.
No entanto, ele o fez, e Leo foi grato por isso.
"Senhor Soron... Se não for incomodo, posso te perguntar uma coisa?" perguntou Leo, enquanto Soron sorria gentilmente mais uma vez, fazendo sinal para que ele seguisse em frente.
"Essa Lâmina de Metal de Origem que te cortou, é algo extremamente raro?" questionou Leo, enquanto Soron riu de leve diante da pergunta.
"O Metal de Origem é o elemento mais raro do universo.
Ele foi criado em quantidades mínimas durante o nascimento do universo e nunca mais foi reproduzido desde então.
É um metal que surgiu no começo do tempo, e por isso, é o único capaz de ferir seres que estão além do tempo." respondeu Soron, enquanto os olhos de Leo se arregalavam de incredulidade.
"Então, entre todos os Deuses... quem possui esse metal raro?" continuou Leo, agora com o interesse aguçado pela pergunta de Soron.
"Dos Deuses que conheço, os únicos que possuem quantidades significativas de metal de origem seriam meu irmão, Kaelith, que roubou as lâminas de origem do meu pai; Moltherak, o dragão antigo, que tinha dentes revestidos de Metal de Origem; e Zhanrok, que morreu protegendo seus dois lingotes de metal de origem." disse Soron, fazendo Leo sentir o coração bater mais forte.
Até então, ele não fazia ideia de o quão raro era o Metal de Origem ou que seu verdadeiro uso era matar Deuses. Se soubesse, nunca teria abandonado um dos dois lingotes que roubou de Zhanrok para Darvupel após roubá-los.
'droga, droga, droga... não foi o Dupravel que disse que deu aquele lingote para um Deus chamado Mauriss...?' Leo lembrou-se, ao se recordar de uma conversa recente em que Dupravel falou do que fez com aquele metal após Leo entregá-lo a ele.
Na época, Leo não deu muita atenção.
Mas só agora percebeu a gravidade da situação.
"O que houve com você, garoto? Por que ficou pálido de repente?" Charles perguntou, enquanto Leo tossia suavemente.
*Espirro*
"Err... Tenho boas e más notícias... Qual você quer ouvir primeiro?" perguntou Leo, trocando um olhar nervoso entre Charles e Soron.