
Capítulo 600
Assassino Atemporal
(Planeta Ixtal, Fora do Castelo de Soron, ponto de vista de Leo)
A jornada pela Floresta Perdida até o castelo de Soron pesava mais no corpo de Leo do que qualquer marcha de campo de batalha que ele já tivesse enfrentado, pois não se tratava de uma zona de guerra ou de uma arena, mas do limiar do Deus que reignava acima de mortais e monarcas.
"Não fale do que você vir aqui dentro…"
"Estou falando sério, garoto. Não conte a ninguém, nem mesmo à sua mãe."
Charles alertou, enquanto Leo assentia lentamente, a seriedade no tom do Comandante penetrando fundo em seu peito.
Ele compreendia o que Charles queria transmitir... Segredos divinos nunca eram para bocas descuidadas.
*Mudança*
*Mudança*
Por mais que ostentasse coragem diante dos Conselheiros e Monarcas, Leo sentia-se incomumente inquieto ao pensar em encontrar Soron, mal conseguindo ficar parado.
Ele trocava de um pé para o outro, mais parecido com um bebê inquieto do que com um guerreiro calmo, mas Charles não comentou nada sobre sua impaciência.
Charles entendia que a ideia de encontrar um Deus em sua residência privada era capaz de deixar até os mais pacientes guerreiros nervosos, e por isso, não o diminuía por isso.
*Creak*
O portão rangeu e se abriu lentamente, o som de seu ranger ecoando pelo pátio até que uma fresta revelasse uma figura lá dentro.
Leo se endireitou instintivamente, pronto para curvar-se ou saudá-lo, mas a visão que se apresentou trouxe apenas confusão.
Um homem frágil apareceu na porta, suas vestes soltas ao redor do corpo magro, os ombros encurvados como se carregasse pesos invisíveis, a pele pálida e quase translúcida na pouca luz.
Suas mãos tremiam levemente enquanto se apoiava na porta, sua respiração era superficial, cada subida e descida do peito parecendo que seria a última.
Leo piscou, a imagem confrontando violentamente a memória gravada em sua mente.
O Soron que ele lembrava não era uma casca murcha, mas o guerreiro mais majestoso que já vira, ombros largos e de presença imponente, olhos brilhantes carregando um poder que parecia distorcer o ar ao seu redor.
Esse homem, ao contrário, parecia mais um servo, o tipo de ajudante sem nome que se esperaria encontrar varrendo o chão ou preparando chá.
Porém, antes que Leo pudesse abrir a boca para perguntar, Charles abaixou a cabeça e fez uma reverência profunda, com as costas curvadas em verdadeira demonstração de respeito.
O ar preso na garganta de Leo ao perceber a cena. Ele se deu conta de que Charles jamais se curvaria perante um servo.
Essa figura frágil, delicada, que estava na porta, não era outra senão Soron, o protetor do Culto da Ascensão, o Deus que há duas milênias ocupava o auge do poder cultuado.
Os olhos de Leo se arregalaram ao tentar reconciliar a imagem diante dele com a lenda na sua memória, o pulso acelerado ao perceber uma verdade clara.
Soron estava doente…
E ninguém mais no Culto poderia saber.
Sua primeira reação foi de incredulidade, mas quando Charles continuou a fazer a reverência, Leo seguiu o exemplo sem hesitar, abaixando a cabeça profundamente em sinal de respeito.
Os lábios pálidos de Soron se curvaram em um leve gesto de concordância, sua voz suave, mas firme.
"Entre… por favor."
As portas se abriram mais, e os dois o seguiram para dentro do castelo.
Um cheiro forte de ervas alquímicas e cobre pairava no ar, pesado e estranho, como se todas as paredes do local tivessem absorvido anos de experimentos e sofrimento.
Os passos de Soron eram lentos, as roupas exageradas arrastando-se suavemente contra o piso de pedra, mas ele se portava com uma dignidade que nem mesmo sua fraqueza podia tirar.
Ele os conduziu a uma sala de reuniões modesta, onde uma mesa pequena já havia sido preparada, e com um gesto sutil, convidou Leo e Charles a se assentarem.
*Sentar* *Sentar*
Os dois se sentaram lentamente, e quase que imediatamente, com mãos trêmulas, Soron pegou uma chaleira de vapor e cuidadosamente despejou chá em duas xícaras de porcelana, seu aperto instável, mas preciso, como se estivesse forçando seu corpo a obedecer apenas pela força de vontade.
*Toma* *Toma*
Ele colocou as xícaras gentilmente diante deles, antes de servir uma para si mesmo, ajustando os dobras da roupa e se sentando na cadeira oposta.
"Aghhh—"
Ele gemeu, como um velho sentando-se em um banco, antes de mostrar um sorriso genuíno… mais caloroso do que Leo jamais esperaria de um homem de sua estatura, alternando o olhar entre os dois convidados.
"Por favor… é uma mistura de sobremesa que preparei eu mesmo. Espero que gostem."
Ele incentivou, enquanto Charles deu o primeiro gole, seguido por Leo.
*Gole*
O chá era diferente de tudo que Leo já tinha provado: doce e suave na língua, mas com uma sutil acidez que se espalhava quentamente pela garganta, infiltrando-se no peito e se espalhando por todos os membros, como se a própria vida estivesse impregnada na infusão.
Estava delicioso, não pelos ingredientes finos ou especiarias raras, mas de uma maneira quase sagrada, como se o líquido carregasse um fragmento da essência de Soron. O calor dele pulsava pelo corpo de Leo, eliminando a fadiga da longa jornada, dissolvendo a tensão dos músculos, e aguçando os sentidos com uma clareza que beirava o sobrenatural.
Pela primeira vez desde que entrou no castelo, sentiu seus nervos se acalmar, suas ideias se alinhando como lâminas encaixadas no lugar. Qualquer que fosse a conversa que os aguardasse, ele percebeu que estava preparado para enfrentá-la com uma mente tão afiada e firme quanto se tivesse meditado por dias.
Até sua aura pareceu vibrar levemente, os fios de cores se tornando mais brilhantes, mais firmes, mais controlados, enquanto ele baixava a xícara e expirava uma respiração calma e satisfeita.
"É… impressionante," Leo admitiu suavemente, sem nenhuma pretensão na voz, apenas verdade, enquanto o sorriso de Soron se aprofundava e seus olhos cansados cintilavam com uma mistura de orgulho e melancolia.
"Meu pai descobriu as ervas para fazer esse chá durante uma expedição a um planeta sem-mana.
Meu irmão e eu tomávamos com frequência enquanto cresvíamos.
É… um chá especial para mim." Soron explicou, enquanto Leo o observava, antes de olhar para Charles, que parecia ansioso para quebrar o gelo.
"É um chá bom," disse Charles por fim, colocando sua xícara com cuidado, embora seu tom tivesse uma nuance de comando. "Mas não é por isso que estamos aqui agora… convenhamos?"
Seus olhos fixaram firmemente em Soron, e pela primeira vez desde que entraram no castelo, Leo sentiu o clima mudar: a conversa amena se transformando numa atmosfera mais pesada.
"Quando estiver pronto, mostre-lhe, Senhor Soron. Seus ferimentos. Mostre o quão graves eles são, para que ele entenda a força de vontade que você precisa — a cada dia, apenas para continuar vivo."
Levantou levemente as sobrancelhas, surpresa passando por seu rosto ao trocar olhares com ambos.
Soron soltou uma risada suave, seca, mas que tinha um fio de humor.
"Não se preocupe, garoto… não estou tão mal quanto seu irmão ficou em coma."
Disse, enquanto começava a soltar as dobras de sua veste, a pesada tecido deslizando de seus ombros enquanto seus dedos fracos puxavam a roupa para revelar a verdade por baixo.