Assassino Atemporal

Capítulo 952

Assassino Atemporal

Depois de ser ferido por Soron uma vez, Kaelith não voltou correndo à batalha para vingar-se. Em vez disso, parou para juntar os pensamentos, olhando para o sangue vermelho fresco escorrendo de sua bochecha e se acumulando em suas palmas, um calor estranho naquela cura que o deixava mais inquieto do que a própria dor.

'Sangue... meu sangue...'

Kaelith pensou, ao sentir, pela primeira vez em séculos,-se inquietantemente mortal novamente. As consequências daquela luta se cristalizavam em sua mente, enquanto o medo da morte surgia de uma forma que há muito esquecia.

'Vou fazer você pagar por isso... irmão.'

Pensou logo depois, enquanto seu olhar se deslocava de volta para Soron, que agora lutava de forma mais visível com as duas feridas recentes que Kaelith havia lhe infligido.

Ao contrário do sangue vermelho vivo de Kaelith, Soron sangrava um grosso alcatrão de cor marrom-preta lá pelos cortes, a própria cor revelando a gravidade do envenenamento por metal originário acumulado em seu sangue ao longo dos anos, corroendo seu corpo de dentro para fora.

*CLANG*

*CLANG*

*FADE*

E, no entanto, diferentemente de Kaelith, que sentia-se constantemente arrastado pelo incômodo da dor que queimava seu rosto, Soron não demonstrava hesitação alguma. Mesmo mancando e lutando para segurar suas lâminas com esforço, ele continuava avançando implacavelmente, sua expressão séria e impassível, como se os ferimentos não significassem nada.

'Como você consegue ser tão indiferente quando te destruí pra sempre, irmão?'

Kaelith se perguntava, incapaz de entender que Soron já entrara na batalha convencido de que não sairia vivo dela.

Por isso, alguns ferimentos permanentes não importavam para ele, contanto que seu corpo ainda pudesse se mover e suas mãos ainda pudessem lutar de volta.


(Enquanto isso, dentro do círculo mais interno do Chakravyuh)

Raymond observava seu pai sangrar, com evidente choque estampado no rosto. Uma enxurrada complexa de emoções inundava seu peito ao mesmo tempo, sua respiração ficava presa enquanto seus olhos se fixavam na cicatriz fresca marcada no rosto de Kaelith.

Por um breve momento, vergonha e uma sensação viscosa aqueceram seu peito.

'Que venha, seu bastardo doente.'

Ele pensou, enquanto a imagem de Kaelith recuando queimava em sua mente, a visão daquele rosto perfeito, intocável, finalmente marcando-o, gerando uma onda de satisfação vingativa que nunca permitira sentir antes.

No entanto, esse sentimento não veio sozinho.

Quase imediatamente, veio a confusão, enquanto os pensamentos de Raymond se voltavam para as consequências, não para o prazer. Ele se perguntava se esse ferimento tornaria seu pai menos imponente aos olhos do universo ou se uma falha visível enfraqueceria o mito que mantinha todos na linha há tanto tempo. Embora não estivesse preocupado com seu pai, ele tinha receio de sua influência ser diminuída por associação.

'Se ele parecer menos invencível... então o que isso significa pra mim?'

Ele se questionou, inquieto, enquanto seu olhar oscilava entre Kaelith e os inúmeros Deuses que assistiam sua queda como abutres.

Porém, com o passar dos segundos, e ao ver como Kaelith permanecia ereto mesmo com a dor, como sua aura continuava sufocante e sua presença intacta, uma percepção clara surgiu: aquela ferida não era uma perda de autoridade, mas um tipo diferente de punição.

Perpétua.

Dolorosa.

Duradoura.

E inócua para o mandato de Kaelith como o Eterno Sovereign — essa compreensão acalmou sua ansiedade significativamente.

A inquietação desapareceu, substituída por uma calma satisfeita, enquanto seus lábios se curvaram em um sorriso que não se esforçou por esconder.

'Fico feliz que tenha acontecido.'

Ele pensou simplesmente, pois a marca no rosto de Kaelith tinha menos o sentido de uma ameaça à ordem das coisas e mais a de um lembrete de que até monstros podiam ser feitos sofrer.

Perto dali, Yu Kiro observava a cena em silêncio, sua expressão sempre composta, mas seus olhos ficaram um pouco mais atentos à sangue de Kaelith, uma mudança sutil que revelava seus verdadeiros pensamentos de forma muito mais clara do que palavras poderiam fazê-lo.

Embora nenhum dos Deuses do Grande Clã tivesse falado, um entendimento silencioso e compartilhado passava entre eles, enquanto sorrisos discretos surgiam nos cantos de seus lábios — contidos, mas inequívocos. Cada um deles saboreando a cena à sua maneira.

'Espero que vocês dois se matem hoje.'

Pensou Yu Kiro, internamente, com pensamentos firmes e calculistas, imaginando um universo sem a sombra opressora de Kaelith dominando todas as decisões dos grandes clãs.

'Esse seria o cenário mais ideal.'

Sonhou, imaginando um vácuo de poder grande o suficiente para que os Grandes Clãs finalmente avançassem e assumissem a dominação universal.

'Por mais que você acredite que é melhor que o Assassino Atemporal, a realidade é que não é.'

'Seguimos você porque é um líder conveniente, não porque o respeitamos ou tememos.'

'E já está na hora de alguém colocar você no seu devido lugar...'

Pensou Yu Kiro, enquanto seu olhar se desviava do rosto sangrento de Kaelith para Soron, que permanecia na essência do Chakravyuh, refletindo sobre a decisão que os líderes do Grande Clã tomaram mais cedo — que, sem dúvida, foi a certa.

'Graças a Deus que não enfrentamos esse demônio nos últimos 2250 anos.'

'Ele ainda tem o que é preciso...'

Pensou, enquanto as implicações dessa realização pesavam em seu peito, seus dedos se curvando lentamente ao lado enquanto imaginava como seria o campo de batalha se ele ou qualquer outro Deus do Grande Clã estivessem ali, onde Helmuth e Mauriss estão agora.

Ao ver Soron lutando apesar de um corpo que, de acordo com tudo, já deveria ter colapsado há muito tempo, Yu Kiro sentiu uma rara sensação de alívio tomar conta de si, reconhecendo que um poder assim não deve ser posto à prova levianamente, nem confrontado, a menos que seja absolutamente necessário.

Por mais machucado e corroído que estivesse, Soron ainda controlava o ritmo da batalha, obrigava os Deuses a sangrar, a hesitar, e isso bastou para que Yu Kiro concluísse que evitar o confronto direto com ele ao longo dos anos não foi covardia, mas uma jogada brilhante.

'Deixe os velhos monstros se destruírem.'

Pensou calmamente, decidido de que, independentemente do desfecho, os Grandes Clãs jamais se colocariam na trajetória de Soron, pois o homem era demasiado perigoso, mesmo à beira da morte.

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