Assassino Atemporal

Capítulo 925

Assassino Atemporal

(Continuação da Transmissão do Julgamento, O Fossato)

A tensão no ar não se dissipava; ao contrário, grudava no coração do Chakravyuh como uma entidade viva, pesada e sufocante, enquanto Mauriss permanecia de braços cruzados, peso casual apoiado em uma perna, olhar fixo em Kaelith com uma expressão que oscilava entre diversão e avaliação, enquanto Helmuth ficava a alguns passos de distância, sua enorme machadinha ainda encostada na direção do Soberano Eterno, a lâmina abaixada o suficiente para sinalizar contenção, não perdão.

N nenhum deles parecia satisfeito.

A interrupção pairava entre eles como uma mancha que não queria desaparecer, porque, na visão de Helmuth, seu momento de vitória tinha sido negado, enquanto, na de Mauriss, tinha sido redirecionado, e Kaelith permanecia no centro do desgosto coletivo, sentindo a pressão de ambos os lados e cada vez mais tendo dificuldade de entender como ambos poderiam ignorar o que parecia óbvio para ele.

'Incrível.'

Esse pensamento ressoou na mente de Kaelith enquanto seu maxilar se apertava, a irritação se transformando em incredulidade ao olhar para os dois deuses que estavam na posição oposta à dele.

'Tô lidando com crianças idiotas.'

'Eles tratam isso como se fosse um esporte pra se divertir.'

'Como orgulho.'

'Como uma competição de dominância.'

'Quando a realidade é simples.'

'Se Soron tiver espaço para respirar, nós três podemos morrer.'

'Como eles não vêem isso?'

A frustração intensificou-se enquanto ele revivia a sequência na cabeça: o começo, a certeza, o instante em que um único golpe poderia ter resolvido tudo de forma limpa, e o fato de ter sido negado aquilo ainda o corroía como uma ferida aberta.

Mesmo enquanto sua irritação aumentava, Kaelith sabia que era melhor não deixar transbordar.

Uma escalada aqui não levaria a lugar algum.

E assim, apesar de todo seu instinto reclamando contra, ele exalou lentamente e ergueu os dois braços, palmas abertas, mudando sua postura de forma deliberada para algo defensivo, como se cedessem terreno que ele achava que não deveria ter que abrir mão.

"Helmuth," disse ele, com voz firme apesar da tensão que apertava seu peito, "não é que eu não te respeite…."

Ele fez uma pausa breve, deixando as palavras assentarem ao invés de correrem rápido demais.

"Porque eu respeito."

Seus olhos piscavam na machadinha, depois voltavam ao rosto de Helmuth.

"Mas minha decisão de intervir não tem nada a ver com desrespeito, e sim com prioridade, e essa prioridade é a mesma que nos trouxe até aqui."

O olhar de Kaelith ficou mais firme.

"Só quero que o Mestre da Seita do Culto esteja morto. É isso."

As palavras saíram secas, sem teatralidade, sem justificativas além do peso delas mesmas.

"Se minhas ações te ofenderem," continuou, com o tom levemente mais baixo, "peço desculpas."

A admissão tinha um gosto amargo.

Parecia injustificada.

Mesmo assim, ele a fez sair.

"E quanto a você, Mauriss," acrescentou Kaelith, virando a cabeça apenas o suficiente para reconhecer o Enganador sem fixar totalmente os olhos nele, "obrigado por salvar a minha vida."

A frase ficou desconfortável no ar, carregada por mil implicações não ditas, mas foi dita assim mesmo, e por um momento, silêncio morreu na cena.

*Assentir*

O aperto de Helmuth relaxou.

A machadinha foi completamente abaixada, sua lâmina se afastando de Kaelith enquanto o Deus Bersekedo estalava o pescoço com um movimento rápido de ossos e tendões, os ombros subindo e descendo enquanto soltava uma respiração que soava mais como rosnado do que suspiro.

*Bufar–*

"Muito bem," Helmuth falou enfim, com uma voz áspera, mas controlada, a fúria que fervia momentos antes se acalmando em algo mais pesado, mais denso, mais focado. "Fique fora do meu caminho desta vez."

Ele mudou a postura, colocando os pés com maior firmeza enquanto seu olhar passava por Kaelith, por um instante se prendendo na posição de Soro, antes de voltar.

"Vou deixar você cortar seu irmão do peito, isso eu juro."

Ele prometeu, enquanto Kaelith sentia algo apertar dolorosamente no peito.

"Mas só depois de eu tirar a cabeça dele primeiro."

As palavras soaram com uma finalização brutal, não como uma ameaça, mas como uma promessa.

"Helmuth... Você quer continuar lutando sozinho contra ele?"

Kaelith perguntou, incapaz de esconder a incredulidade na voz desta vez.

"Você já provou que é mais forte. Você já quebrou ele."

Ele fez um gesto quase imperceptível em direção ao campo de batalha além.

"Por que não terminar isso agora?"

"Por que não me deixar e ao Mauriss entrar pra acabar logo? Como uma equipe?"

Kaelith insistiu, e Helmuth balançou a cabeça em negação imediatamente.

"Não."

A recusa veio sem hesitação.

"Essa é minha luta," disse o Deus Bersekedo, com a voz baixa, fixa e implacável. "E uma luta termina quando o vencedor fica sobre o corpo do derrotado."

Ele se endireitou, o peito se expandindo enquanto sua presença se intensificava.

"Eu já o venci uma vez," continuou Helmuth. "Se tiver outra chance, vou vencê-lo de novo."

A certeza na voz dele não deixava espaço para discussão.

*Bater palmas* *Bater palmas*

Mauriss aplaudiu suavemente, devagar e deliberadamente, seu sorriso se ampliando enquanto mudava seu peso, soltando os braços por pouco tempo para fazer um gesto entre os dois.

"Concordo," disse o Enganador, com diversão na voz enquanto seus olhos se moviam de Helmuth para Kaelith e voltavam. "Deveriam deixar Helmuth terminar o que começou."

A expressão de Kaelith se fechou.

"Porém," Mauriss continuou gentilmente, "como estamos com pressa…."

Seu olhar se estendeu até as movimentações distantes do exército do Culto além da formação.

"Tenho uma sugestão prática…."

Ele levantou um dedo.

"Vamos deixar Helmuth lutando sozinho até que as forças do Culto alcancem o penúltimo anel de nível Monarca do Chakravyuh, ou até que ele vença."

Outro dedo se juntou ao primeiro.

"Se eles nunca chegarem lá, Helmuth pode levar o tempo que quiser, seja mil anos."

Um terceiro dedo seguiu.

"Se eles chegarem dentro de uma hora, duas horas, quatro horas, aí sim a coisa termina."

O sorriso de Mauriss ficou mais afiado.

"De um jeito ou de outro, esse será o ponto final, para garantir que o Deus do Culto não saia vivo dessa armadilha, nem seu exército maligno."

O semblante de Mauriss indicava que o plano estava claro.

Não haveria espera indefinida.

Nem duelo sem fim.

Um horizonte de evento tinha sido estabelecido.

Ele o pôs exatamente de modo que Kaelith não tivesse desculpa para intervir antes que as condições fossem atendidas, tornando-o mais uma testemunha do que um participante ativo.

'Sua rasteja malandra,' amaldiçoou internamente Kaelith, reconhecendo logo a armadilha, ciente de que Mauriss tinha articulado a condição de modo a forçar a aceitação sem parecer fazer isso.

Por fora, não disse nada.

Discutir agora só romperia a frágil aliança que tinham acabado de reconstruir.

E assim, Kaelith virou-se para Helmuth e deu um aceno lento, medido.

"Está bom pra mim," disse ele, embora a tensão ainda estivesse sob a pele.

Helmuth ponderou por um momento.

Depois, também acenou com a cabeça.

"Muito bem," falou o Deus Bersekedo, levantando seu machado mais uma vez, com a postura voltando para o campo de batalha à frente. "Vou garantir que termine antes que isso aconteça."

A compreensão entre eles ficou firmada, tensa, mas funcional, não por confiança, mas por necessidade.

O impasse acabou.

A batalha continuaria.

Porém, a tensão não diminuiu – só se intensificou.

Todos aguardando ansiosamente pelo que viria a seguir.

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