
Capítulo 883
Assassino Atemporal
Soron não respondeu imediatamente à confusão de Leo.
Em vez disso, afrouxou a pegada na adaga de madeira e a deixou repousar naturalmente ao seu lado, a arma sendo tratada menos como um instrumento de combate e mais como um objeto esquecido, agora que a luta tinha se transformado em algo diferente, enquanto seu olhar permanecia firme, paciente e silenciosamente analítico.
"Lutar contra deuses ou semi-deuses na sua fase atual é uma bobagem," disse Soron calmamente, com um tom nem duro nem condescendente.
"Não há uma única métrica em que você possa se igualar a eles."
Leo franziu um pouco o cenho, mas não entrou na discussão.
"Força, velocidade, técnica, resistência, controle de aura, experiência," continuou Soron com seriedade.
"Em todas as categorias mensuráveis, você perde."
As palavras não doeram como Leo esperava. Chegaram limpas, como afirmações de fato, e não como críticas, o que tornava mais difícil ignorá-las.
"Então, se você insistir em enfrentá-los em pé de igualdade, você morre."
"Não há honra nisso, só desperdício."
Soron disse isso enquanto Leo abaixava as lâminas um pouco, sua mandíbula se cerrando à medida que a verdade se firmava na mente.
'Então, o que eu tenho que fazer?'
A pergunta surgiu sem que ele pensasse, afiada e desconfortável, enquanto a solução continuava escorregando de suas mãos.
"Por isso, a resposta torna-se óbvia," respondeu Soron, como se fosse direto ao pensamento de Leo.
"Você não pode vencer imortais nos próprios termos."
Leo olhou para cima.
"Mas você pode negá-los o direito de vencer nos deles."
A frase ficou no ar entre eles, e Leo sentiu seus pensamentos finalmente começarem a se alinhar.
"O que vocês, imortais, confiam quando lutam contra os mortais?" questionou Soron, inclinando levemente a cabeça, não numa provocação, mas em uma contemplação silenciosa.
"Eles não confiam no poder, porque o poder é abundante para eles."
"Nem na técnica, porque a deles já foi refinada além de qualquer comparação."
Ele fez uma pausa, deixando a implicação se estabelecer.
"Eles confiam na certeza," disse Soron.
"Certeza de que são mais fortes. Certeza de que não podem perder. Certeza de que você está abaixo deles."
Ele explicou como algo se movimentava na mente de Leo, sutil, mas inconfundível.
"E a certeza gera negligência," continuou Soron.
"Quando um ser acredita que não pode perder, para de se proteger contra a perda."
"É como competir com uma criança em um esporte.
Você sabe que não pode perder, então para de prestar atenção."
"Essa confiança parece natural, mas é perigosa."
Soron explicou, enquanto Leo sentia um leve nevoeiro começando a se dissipar em sua mente.
"A crença deles na própria superioridade os faz cometer mais erros," disse Soron. "Porque, enquanto lutam de igual para igual com perfeição de forma, foco absoluto e disciplina total, eles se enfrentam com mortais de maneira demasiado casual."
A voz dele permanecia calma e tranquila, como se estivesse enunciando uma lei da natureza, ao invés de oferecer conselhos.
"Então, a questão fica simples," continuou Soron. "Como fazer com que eles cometam um erro?"
"Você os desestabiliza com criatividade," respondeu Leo, com certeza surgindo na voz pela primeira vez, enquanto Soron sorria.
"Exatamente."
"A única métrica em que você pode igualar um deus, ou até superar um, é a criatividade," afirmou Soron.
"Ela não pode ser treinada do mesmo jeito. Não depende de experiência. E não pode ser prevista."
"Para alguém tão fraco quanto você, é o único caminho para vencer."
"Mas, bem usada, pode gerar milagres."
Os olhos de Leo se iluminaram com compreensão.
"Você cria cenários do nada, introduz variáveis que eles não consideraram, e os força a reagir ao invés de agir," explicou Soron.
"E, se tiver sorte, talvez uma em dez mil vezes, eles cometam um erro que você possa explorar."
Soro sentiu um calor em seu peito ao ver que finalmente aquela ideia se encaixava na cabeça de Leo.
"Quando qualquer guerreiro é forçado a reagir a uma situação inesperada que não levava a sério, seu julgamento vacila," explicou Soron. "E os imortais não são exceção."
O olhar dele permaneceu fixo em Leo, avaliando compreensão ao invés de prontidão.
"E, nessas raras ocasiões, eles cometem erros que nunca cometeriam normalmente."
"Essa é sua janela de oportunidade."
Soron deixou o silêncio se estabelecer.
Leo lentamente levantou a cabeça, os olhos agora sem nuvens de confusão, mas estreitos de reflexão, enquanto a lição se consolidava.
Contra deuses, poder não significava nada.
Justiça era irrelevante.
A luta já era decidida bem antes do primeiro golpe ser desferido.
E a única chance que tinha, uma jogada de uma em dez mil, estava na criatividade, em forçar o inesperado e transformar um único erro em vitória.
"Então, não caia na armadilha de lutar corpo a corpo contra um deus."
Não os enfrente inutilmente numa luta de força.
Não tente superá-los na força física.
Pois tudo isso, inevitavelmente, levaria à sua derrota.
Use a criatividade...
Soron sugeriu, com voz calma e sem pressa, como se estivesse corrigindo uma ideia errada simples, ao invés de desmontar tudo o que Leo achava que entendia sobre combate.
E, naquele momento, Leo finalmente compreendeu onde tinha errado na luta de hoje.
Ele tinha ficado de pé contra Soron como um tolo, com as adagas erguidas, postura travada, esperando que ele avançasse, como se fosse realmente possível bloquear os ataques de um deus se ele lançasse uma chuva de golpes no momento certo. O que deveria ter feito era simplesmente fugir, reposicionar-se, distorcer o fluxo da luta ou forçar Soron a situações que não esperava.
Ele tratou a luta como um duelo.
Quando ela nunca foi uma batalha formal.
'Contra um Deus, ficar parado é o mesmo que perder.'
A compreensão se consolidou profunda, pesada e inegável, enquanto Leo revivia na mente os segundos iniciais do combate, vendo agora o quão absurdo tinha sido esperar, preparar-se, fingir que o timing e a técnica sozinhos poderiam fechar uma lacuna de dimensões ao invés de habilidades.
*Suspiro*
Leo soltou um profundo suspiro enquanto seus ombros finalmente relaxavam, a tensão saindo dele não porque a pressão havia desaparecido, mas porque o entendimento tinha substituído a confusão.
Mesmo que tudo estivesse perfeito, mesmo que ele fugisse, enganasse, desviando o ritmo de Soron e o obrigasse a reagir ao invés de agir, as chances ainda seriam esmagadoramente contra ele.
Contra um deus, suas chances de vitória eram quase nulas.
Mesmo com execução perfeita, mesmo com o destino ajudando, o único cenário real de matar um deus seria se usasse uma Lâmina de Origem, algo capaz de cortar as leis que protegem seres como Soron.
Sem ela, a criatividade só compraria tempo.
Contra um semi-deus, a situação melhorava um pouco, mas ainda assim era brutal.
Nove mil novecentos e noventa e nove derrotas em dez mil.
Esses eram os números reais.
Frio.
Implacável.
Honesto.
Mas, ao invés de desanimar, aquela verdade o manteve firme.
Porque agora ele entendia que o fracasso de hoje não vinha apenas da fraqueza, mas de ter encarado um inimigo impossível com a mentalidade errada.
Ele tentou lutar contra um deus como se fosse um guerreiro.
Quando, na verdade, o que precisava era de algo completamente diferente.
' Agora entendo….'
Leo pensou, enquanto se endireitava lentamente, as lâminas baixadas ao lado, olhando de volta para Soron, já não mais confuso, nem frustrado, mas pensativo.
Essa luta nunca foi sobre vencer.
Era sobre eliminar a ilusão.
E agora que essa ilusão tinha desaparecido, ele finalmente viu o caminho estreito para a vitória.