Assassino Atemporal

Capítulo 881

Assassino Atemporal

(Planeta Ixtal, Exército do Culto, ponto de vista de um soldado aleatório)

À medida que o exército do Culto desembarcava em ondas em Ixtal, a raiva que seus soldados sentiam pelo destruição de sua terra sagrada ficava cada vez maior.

De pé sobre os sítios históricos destruídos, enquanto se inclinavam para tocar o chão arrasado sob seus pés, muitos sentiram algo dentro do peito se partir de uma forma que a própria batalha nunca tinha causado.

Não era a destruição limpa da guerra.

Era apagamento.

Por toda a planetas, a terra contava a mesma história.

Sítios históricos reduzidos a silhuetas carbonizadas na terra, academias que antes formavam lendas colapsadas em pedra queimada, ruas que já tiveram desfiles e risadas agora enterradas sob camadas de solo vidro e fuligem dispersa, como se o próprio planeta tivesse sido rasgado e deixado exposto às estrelas.

Ixtal deveria ser sagrado.

Era o lugar mencionado em canções de ninar e velhas histórias, o mundo que toda criança do Culto aprendia antes mesmo de aprender a lutar, o berço de Soron e o símbolo de tudo em que o Culto acreditava ser.

Mesmo aqueles que nunca pisaram em seu solo cresceram imaginando suas florestas, cidades e torres como símbolos mais do que geografia.

E agora esses símbolos jaziam quebrados sob suas botas.


*FSSHH*

*POUSE*

À medida que mais soldados desembarcavam e saíam de suas naves de transporte, o luto só aprofundava.

Não havia aplausos.

Nem cantos.

Nem triunfo.

Apenas respiração.

Um soldado aleatório ajoelhou-se sem perceber, os dedos tocando a cinza cinzenta que cobria o chão, enquanto sentia aquilo se agarrar à pele, manchando-o, como se o planeta em si recusasse deixar que ele saísse ileso.

Cinzas.

Não solo.

Nem pedra.

Cinzas que antes eram casas, bibliotecas, lojas e seres vivos que hoje não existiam mais.

Ao redor dele, outros faziam o mesmo. Veteranos endurecidos por décadas de conflito ajoelharam-se, os ombros tremendo enquanto encaravam as ruínas em silêncio, enquanto soldados mais jovens ficavam imóveis, com os olhos arregalados, tentando e falhando em entender as histórias que cresceram ouvindo com a destruição diante deles.

Em algum lugar próximo, um homem mais velho deixou escapar um som que não virou propriamente um solavanco, suas mãos tremendo enquanto pressionava a testa contra o chão, os lábios mexendo-se numa oração que ninguém mais ouvia.

Ele nasceu aqui.

Isso era claro na forma como seus dedos traçavam linhas invisíveis nas ruínas, como se ainda lembrasse onde ficavam as ruas, onde os mercados abriam ao amanhecer, onde as crianças corriam sem medo sob bandeiras que não tremiam mais.

Outros se juntaram a ele, silenciosamente, sem cerimônia.

Não havia vergonha nas lágrimas. Ninguém zombava delas. Ninguém se afastava. Essa dor era de todos, porque mesmo quem nunca viveu em Ixtal compreendia o que essa destruição significava.

Se os Justos fizeram isso com Ixtal, então seus planetas natais provavelmente não eram diferentes.

O pensamento se espalhou pela tropa sem palavras.

Céus queimados.

Cidades achatadas.

Histórias apagadas.

Mundos que já foram seus, reduzidos a avisos.

À medida que a raiva, lentamente e de forma inexorável, surgia não como um rugido mas como uma pressão por trás dos olhos e sob as costelas, uma compreensão compartilhada se consolidava em cada coração presente.

Isso não era dano colateral.

Era uma mensagem.

Uma mensagem do inimigo que dizia: "você e sua cultura não podem existir sob o mesmo céu que nós."

"AGHHHHH!!!"

O velho soldado gritou ao se levantar, cinzas ainda grudadas às mãos, sentindo algo essencial se partir dentro dele de uma forma que não podia ser consertada.

Ao redor, bilhões de outros sentiram também, o momento em que a dor virou determinação, enquanto as lágrimas secavam, as costas se endireitavam e os olhos se levantavam das ruínas ao céu.

Não era mais a Ixtal que eles lembravam, e, a não ser que agissem agora e levassem a luta ao inimigo, esse seria o futuro de todas as terras do Culto onde ousassem viver.

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(Enquanto isso, Soron)

Soron observava os exércitos do Culto desembarcarem em ondas disciplinadas em Ixtal, sentindo sua força começar a retornar a cada novo grupo que pisava em seu planeta destruído.

"Ainda sou o Mestre de Seita deles", murmurou para si mesmo, sua voz baixa, mas firme, enquanto seus olhos permaneciam na terra quebrada.

"São o meu povo."

As palavras se fixaram profundamente nele, não como orgulho, mas como certeza, ao lembrar-se de que, não importando o quanto o inimigo já tivesse tomado, não importando o quão fraco e diminuído ele estivesse, o Culto ainda tinha vindo. Não por obrigação. Não por medo.

Mas porque escolheram vir.

Porque acreditavam nele.

De seu ponto de vista, Soron os viu se espalharem pela superfície quebrada de Ixtal, aterrissando com a disciplina e moderação de um exército de verdade, fechou os olhos por um instante, inspirando lentamente, sentindo algo quente despertar no seu peito.

Força.

Não a força afiada e violenta que antes conseguia despedaçar montanhas, mas algo mais antigo e estável, algo que aliviasse a dor na alma mesmo enquanto seu corpo machucado protestava a cada movimento.

Cada soldado que pisava em Ixtal parecia um fio reconectando-o ao mundo, costurando-o de volta pedaço por pedaço, até que o vazio que carregava há tanto tempo começasse a diminuir.

"Eles vieram por mim", murmurou Soron, a própria realização expulsando o frio da morte que se ocultava na sua consciência há tempo demais.

Soron viveu uma vida longa, suficiente para entender que o poder desaparece e a carne falha, mas a fé persiste de maneiras mais silenciosas e duradouras.

Assistir esses jovens homens e mulheres entre as ruínas, alguns chorando, outros furiosos, todos resolutos, trouxe-lhe uma paz que não sentia há séculos.

Essa é a sua Seita.

Não os edifícios.

Nem as florestas.

Nem sequer o antigo castelo de pedra.

O povo.

E, enquanto eles se reuniam, enquanto sua presença dava vida a um planeta que tinha sido declarado morto, Soron sentiu um leve sorriso, sua expressão suave e genuína.

O que quer que o aguardasse a seguir, que destino os Justos planejassem, ele sabia que não enfrentaria sozinho.

Enquanto seu povo estivesse com ele, Soron compreendia uma coisa com absoluta clareza.

Ele ainda não tinha terminado.

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