
Capítulo 890
Assassino Atemporal
(24 horas antes da execução, Rede Universal de Transmissões)
"Falta apenas vinte e quatro horas para que o Dragão do Culto Maligno seja finalmente levado à justiça, Charlie."
O âncora falou com postura treinada enquanto a câmera se deslocava suavemente pelo estúdio reluzente, com fundos holográficos de mapas celestiais e sigilos girando lentamente ao fundo.
"Quão empolgado você está com esse evento histórico?"
Charlie sorriu, a expressão calorosa e ensaiada, ajustando os botões de punho e inclinando-se um pouco para a mesa.
"Empolgado não é exatamente a palavra certa," respondeu, sua voz calma e confiante, enquanto as palavras saíam sem esforço. "Não se trata apenas de uma execução. É um encerramento. Para inúmeros mundos. Para trilhões que sofreram sob a influência do Culto. Amanhã marca o fim de uma era."
O âncora concordou assentindo, com os olhos brilhando.
"Um fim necessário," disse ele, enquanto a transmissão brevemente mostrava imagens de arquivo de cidades em chamas, spires destruídas e bandeiras do Culto sendo derrubadas dramaticamente. "O símbolo do Dragão do Culto simbolizava o medo por gerações. E agora, o universo finalmente verá esse medo morrer."
Charlie entrelaçou as mãos tranquilamente.
"E é importante enfatizar que isso é justiça, não vingança," afirmou, como se estivesse corrigindo uma ideia equivocada que ninguém tinha expressado.
"A Fação Justa deu ao Culto todas as chances de melhorar seus caminhos.
Entretanto, toda vez que confiamos neles, eles lançam uma ofensiva contra um de nossos planetas, ou realizam um ataque terrorista covarde, como aquele na Arena do Deus do Céu…."
Ele fez uma pausa proposital.
"A destruição do Culto é algo que eles se impuseram.
Não quisemos fazer isso.
Porém, se ameaçarem a paz de nossos mundos.
Se ameaçarem a paz de nosso povo e de nossas crianças.
Então, em breve, eles vão descobrir que a Fação Justa não costuma brincadeira quando o assunto são nossas crianças."
Charlie justificou, enquanto o âncora concordava com cabeça assente.
"Por mais poder que você tenha, por mais que se esconda, o mal nunca fica impune."
O âncora acrescentou, antes de recostar-se um pouco.
"E pelos números, o universo concorda," disse ele, enquanto uma projeção ao lado deles mostrava estatísticas correndo rapidamente.
"Os mercados já reportaram fechamentos. Escolas de milhares de sistemas anunciaram pausas programadas. Até instalações governamentais se preparam para paradas sincronizadas."
Charlie assentiu uma vez.
"Isso não acontecia desde a queda do Dragão Maligno Sherwin, há 750 anos, então, de certa forma, é o maior evento que o universo testemunhou nos últimos milênios."
O âncora concluiu, enquanto o segmento se encerrava com um vídeo de 'ThePit' em preparação para a execução de amanhã.
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Enquanto isso, em um mundo comerciante próximo à extremidade da faixa arco-íris, um mercado lotado desacelerou quando enormes telas se acenderam acima das barracas.
Vendedores pararam no meio de uma transação.
Clientes se voltaram.
Crianças foram puxadas mais perto.
Um peixateiro enxugou as mãos no avental e olhou para cima, com a mandíbula cerrada.
"Então é realmente amanhã…"
Resmungou, enquanto a imagem do Dragão acorrentado preenchia a tela.
Perto dali, uma mulher abraçou o ombro da filha.
"Dizem que ele é um monstro," ela sussurrou. "Que ele foi o motivo de o papai ter morrido tentando salvar o Planeta Nemo."
A filha ficou em silêncio, com os olhos arregalados.
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Em uma lua industrial, as esteiras de transporte pararam de repente enquanto os operários se reuniam ao redor de um monitor gasto presa à parede.
Um homem cruzou os braços apertadamente.
"Perdi meu irmão numa invasão do Culto," disse em tom baixo. "Não me interessa o que dizem. Quero ver ele morrer."
Ninguém discorda.
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Em um planeta central do Clã Du, estudantes estavam numa auditoria quando seu professor desligou a tela de aula mais cedo.
"As aulas de amanhã estão suspensas," anunciou, com tom formal. "A participação na transmissão é… recomendada."
Uma corrente de murmúrios seguiu-se.
Alguns ansiosos.
Outros apreensivos.
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Em todo o universo, o mesmo momento se repetia sem parar.
Casas.
Quartéis.
Mercados.
Naves flutuando entre estrelas.
Trilhões de vidas se alinhando inconscientemente para a mesma hora, o mesmo espetáculo, o mesmo evento único.
A execução de um Messias do Mal.
Não como ato privado.
Não como misericórdia.
Mas como uma mensagem ao universo.
No estúdio, o âncora sorriu para a câmera.
"Amanhã, a Justiça será testemunhada por todos…."
Mas hoje, vamos ver o que as pessoas ao redor do universo sentem a respeito.
Ele disse, enquanto a transmissão voltava a mudar, desta vez para entrevistas de rua gravadas antes, colhidas de diferentes partes do universo, com vozes cuidadosamente selecionadas que reforçavam a mesma narrativa por ângulos distintos.
Em um planeta agrícola médio, um fazendeiro de pé ao lado de um campo de colheitas brilhantes, de braços cruzados enquanto a câmera pairava.
"Não entendo muito de política," disse simplesmente, com a terra ainda sob as unhas. "Mas se matar aquele Dragão mantém meus filhos seguros, assisto duas vezes."
A cena mudou.
Em uma estação de fronteira cheia de marcas de explosões, um oficial de segurança ajustou o capacete e olhou fixamente para a lente.
"Estamos em alerta máximo há décadas por causa do Culto," falou. "Amanhã mostra que os Justos não falam só. Eles agem."
Outro corte.
Uma nobre do Clã Lu em um planeta de jardins, tomando chá com calma enquanto falava.
"Alguns dizem que é cruel," ela disse, com lábios levemente curvados. "Mas permitir que monstros vivam tempo suficiente para atacar de novo é que é cruel."
Cada voz fluía naturalmente para a próxima, enquanto a mensagem se aprofundava na mente dos espectadores.
Medo.
Alívio.
Justiça feita.
Um senso de retidão coletiva.
Em naves de transporte viajando pelo espaço profundo, passageiros se agrupavam ao redor de telas compartilhadas, refeições esquecidas enquanto contadores regressivos apareciam no canto da transmissão.
23:58:17
23:58:16
Crianças faziam perguntas.
Pais respondiam cuidadosamente.
Soldados assistiam em silêncio.
Cativos observavam por trás de escudos de força, perguntando-se se aquilo era o que a justiça realmente parecia quando não era para eles.
Em um mundo distante, um idoso desligou a transmissão e encarou seu reflexo na tela escurecida.
"Eles sempre fazem parecer tão limpo," murmurou, enquanto antigas lembranças despertavam atrás de seus olhos. "Como matar um símbolo termina com a ideia."
Ele não ligou a tela novamente.
Mas a maioria ligou.
Em todo o universo, a excitação crescia junto com o pavor, enquanto a expectativa se transformava em algo quase festivo.
Transmissões especiais eram programadas.
Praças de exibição preparavam assentos.
Vendedores anunciavam lembranças comemorativas já estampadas com datas e slogans.
Dia da Justiça.
O Fim do Culto.
E longe das câmeras e âncoras, longe da confiança na narrativa dos Justos, o universo inconscientemente se inclinava para frente, segurando a respiração, aguardando testemunhar um momento que acreditava que ocorreria exatamente como planejado.
Amanhã deveria ser o fim de uma história.
No entanto, muitos estavam nervosos, pois ainda havia o risco de tudo sair errado.