Assassino Atemporal

Capítulo 887

Assassino Atemporal

(2 dias antes da execução, Jardim Eterno, ponto de vista de Veyr)

A fome corroía as entranhas de Veyr em ondas surdas e implacáveis enquanto ele pendia suspenso na escuridão, com os pulsos amarrados bem alto acima da cabeça por correntes frias e inflexíveis que cutucavam sua pele sempre que seu peso se movia, mesmo que levemente.

O cômodo estava completamente às escuras.

Não era a escuridão reconfortante da noite, mas o tipo absoluto, aquela que engoliria profundidade e distância por inteiro, deixando-o apenas com o som de sua própria respiração e o leve arranhar de metal toda vez que seu corpo se balançava.

Passaram-se dias.

Ou talvez semanas.

Ele já não sabia mais.

Não havia marcas de tempo aqui, nem vozes, passos, sons além de sua própria respiração e o ocasional ressecamento na garganta quando seu corpo exigia água que nunca vinha.

*Gorgolejo*

*Rebolo*

Seu estômago voltou a apertar, agudo e insistente, enquanto sua cabeça se inclinava para frente, fraca, com fios de cabelo embaraçado caindo sobre os olhos.

'Faltam poucos dias agora.'

O pensamento surgiu sem querer, silencioso e pesado, enquanto seu relógio biológico sussurrava o que a escuridão se recusava a confirmar.

A data de sua execução se aproximava, e com ela vinha a consciência inevitável da morte.

*BRILHO*

De repente, uma luz cortou a cela quando uma porta se abriu em algum lugar à frente, inundando o chão negro com brilho por um instante passageiro, enquanto Veyr sussurrava suavemente e fechava os olhos com força, suas pupilas contraídas dolorosamente pelo ataque repentino.

Passos ecoaram.

Medidos.

Sem pressa.

Então, ao forçar os olhos a se abrirem novamente, uma silhueta se destacou na porta, luz se espalhando ao redor da figura enquanto uma esfera luminosa flutuava preguiçosamente em uma das mãos.

Raymond entrou.

A porta deslizou e fechou atrás dele, mergulhando a sala novamente na sombra, exceto pelo brilho frio da esfera que iluminava a cela só o suficiente para revelar a forma acorrentada de Veyr.

"Ah, primo, você ficou muito mais miserável desde a última vez que te vi."

A voz de Raymond era fácil e divertida, enquanto ele se aproximava e inclinava um pouco a cabeça, inspecionando Veyr como uma obra de arte deixada a apodrecer.

"Aposto que agora queria ter continuado a me ensinar aqueles movimentos proibidos."

Ele sorriu mais abertamente.

"Pelo menos assim, você teria vivido seus últimos dias como um hóspede de honra no Jardim Eterno, em vez de se afogar na fome e na miséria assim…"

"Lembre-se sempre, primo, você colheu o que plantou."

"Você escolheu proteger os Cultistas até o último suspiro, mesmo sendo inútil e fútil, e por isso, perdeu a pequena alegria que poderia ter tido em seus últimos momentos como homem…"

Que pena."

Raymond zombou enquanto Veyr lentamente levantava a cabeça, seu pescoço protestando, e seus olhos encontraram os do Raymond na penumbra, o desprezo ardendo mais forte do que o cansaço.

"Vaza."

As palavras saíram suturnas, mas firmes.

Raymond parou por meia piscada, então explodiu em risadas, o som ecoando de forma exagerada pelo espaço confinado enquanto batia palmas, alegria evidente em seu rosto.

"Hahaha."

Ele acenou com a cabeça, ainda rindo.

"Muito bem. Isso foi muito, muito bom."

Disse enquanto circulava Veyr lentamente.

"Um dragão rebelde vai fazer um ótimo espetáculo quando chegar a hora da execução."

"Cheguei a pensar que uma versão indefesa de você poderia fazer alguns mortais sentirem pena da sua morte…"

Sua expressão ficou mais afiada.

"Mas, felizmente, com essa atitude sua, eles não vão."

Raymond falou, ao parar mais uma vez na frente de Veyr e se aproximar, as mãos subindo em direção às correntes enquanto o metal se mexia e as travas se soltavam.

*Cliq*

Os olhos de Veyr se arregalaram levemente ao ver a tensão desaparecer de seus pulsos.

"Você está me libertando."

"Quer dizer que hoje é o meu dia de morrer?"

Ele perguntou, enquanto Raymond parava por um instante e dava de ombros de forma despreocupada.

"Não, infelizmente, não é."

Ele respondeu antes de continuar a trabalhar nas amarras.

"Faltam mais dois dias para sua sentença, mas recebi ordens para te levar ao 'Poço' hoje."

Ele disse, endireitando-se.

"Aparentemente, Mauriss, a cobra, não confia o suficiente no meu pai para te entregar a tempo se esperarmos até o último dia, então estou te levando agora."

Ele disse com seu sorriso de volta.

*Respiração profunda*

Um suspiro suave escapou involuntariamente dos lábios de Veyr, alívio e pavor entrelaçados no peito.

Saber exatamente quando seria a sua morte não facilitava sua cabeça.

No entanto, tornava possível se preparar.

*Clic*

*Clic*

*Ruído de queda*

As últimas correntes foram soltas enquanto Veyr caía pesadamente ao chão, suas pernas cedendo instantaneamente sob seu peso, a dormência roubando força delas, enquanto uma dor aguda atravessava suas juntas ao ele se ajoelhava.

*Respiração ofegante, respiração ofegante*

Ele permaneceu ali alguns momentos, respirando fundo, antes de se erguer com esforço trêmulo. Raymond observava atentamente, esperando em vão que Veyr pudesse revidar de alguma forma, apenas para ficar desapontado quando nada aconteceu.

Passaram-se segundos, mas nada ocorreu — Veyr nem atacou nem fugiu, a ausência de resistência apagando o sorriso de Raymond.

"Tsc, que estraga o clima."

Reclamou Raymond, suspirando teatralmente e fazendo um gesto de displicência com a mão.

"Eu queria uma briga rápida só pra te quebrar todo, jogar sua cabeça no chão."

Ele virou-se e indicou a porta.

"Mas não quero mais, porque você tirou toda a graça."

Disse Raymond, ao dar passo de lado e abrir a saída.

Veyr avançou cambaleando, cada passo pesado e irregular, seu corpo fraco, mas com a coluna ereta, passando pelo limiar sem resistência.

Ele não lutou.

Ele não implorou.

Ele já sabia o quanto ambos seriam inúteis.

E, enquanto avançava em direção ao seu destino, começou a aceitar a certeza da morte com a calma resoluta de um Dragão que já entregou tudo que tinha para dar.

Ele iria morrer. Não havia duas maneiras de encarar isso.

Pelo menos, tinha a intenção de enfrentar o fim com um sorriso desafiador no rosto até o último instante.

Um sorriso que diria ao seu povo que ele esteve com eles até o fim.

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