Assassino Atemporal

Capítulo 859

Assassino Atemporal

(A alguns meses depois, no Mundo Atado ao Tempo, Ilha Flutuante de Moltherak, ponto de vista de Leo)

Leo ficou com as palmas das mãos levemente abertas, enquanto uma corrente constante de aura carmesma saía dele em um fio fino e controlado, flutuando pela câmara como um tentáculo à procura, enquanto Moltherak observava com olhos expectantes, percebendo que Leo estava próximo do avanço que esperava há meses.

Nos últimos ciclos, as leves vibrações que Leo detectava tornaram-se mais claras e frequentes, enquanto as sensações fragmentadas de antes começavam a se alinhar em padrões, até o ponto de, hoje, ele conseguir rastrear não apenas pontos frágeis dispersos, mas sequências completas desses pontos presos na teia invisível da quarta dimensão.

"Ali… outro," murmurou Leo, enquanto sua aura tocava uma depressão rasa, e depois outra a uma curta distância, formando agora uma curva, quase como a crista de uma trilha escondida escavada na escuridão atrás do mundo tridimensional.

"Você está certo."

Moltherak acenou lentamente com a cabeça e deu um passo adiante.

"Agora você os percebe de forma consistente e precisa o suficiente para avançarmos para a próxima etapa…."

Os olhos de Leo se expandiram levemente ao se endireitar, pois sabia qual era essa próxima fase — e aguardava esse momento desde que percebeu a textura temporal pela primeira vez.

"Você passou anos aprendendo a detectar os pontos fracos, mas detectar não serve de nada se você não souber como atravessá-los."

"Então agora começamos a verdadeira exploração do túnel espacial, que é aprender a romper a parede dimensional."

Moltherak explicou enquanto Leo soltava um suspiro suave e retraía sua aura, só para depois desdobrá-la novamente em uma fita mais apertada, na esperança de que permanecesse estável o bastante para a demonstração.

"Então, como eu quebro isso?" perguntou ele.

"Empurrar? Rasgar? Estilhaçar?"

Indagou, enquanto Moltherak balançava a cabeça lentamente em negação.

"Nenhum desses. A quarta dimensão não se comporta como a matéria. Você não pode rasgar o que não consegue segurar. Precisa golpeá-la com precisão, não força… por isso, você vai moldar sua aura numa ponta condensada."

Ele explicou, levantando uma garra e tocando o ar com ela.

"Forme um martelo… ou uma flecha… ou uma adaga… qualquer forma que seja mais fácil para seus instintos. A ideia é a mesma: você pega toda a aura que possui, cada gota de intenção de morte, cada grão de pressão espiritual e a compacta até ficar densa o suficiente para romper a membrana."

Instruiu, enquanto Leo assentia silenciosamente e, então, estende sua aura na forma de uma adaga.

*Tum*

*Tum*

O ar ao seu redor vibrava enquanto ele a comprimia cada vez mais, até que uma ponta semelhante a uma agulha brilhava suavemente na ponta de sua adaga, suas arestas vibrando com foco instável.

"Ótimo. Agora, ouça com atenção, porque essa parte vai determinar se você sobrevive ou sofre um destino bem pior."

Moltherak baixou a voz enquanto a câmara escurecia um pouco.

"A maior preocupação ao fazer túnel espacial é que, no momento em que você entrar na quarta dimensão, o próprio tecido do universo começa a perceber sua presença…."

Moltherak começou, enquanto as sobrancelhas de Leo se franziram de dúvida.

"Não sei como explicar de outro jeito."

"Resumindo, assim que a membrana se romper, uma reação cósmica virá e o vazio além da sua percepção tentará engolir sua consciência inteira…."

"Se você enfrentar isso à toa, vai sentir uma solidão tão absoluta que sua mente acreditará que o universo abandonou você, e pode ser que nunca mais retorne dessa sensação intacto."

Moltherak advertiu, enquanto Leo engolia em seco.

*Engolir*

"Então, como aguento isso?" perguntou ele, enquanto—

"Você não aguenta, você bloqueia."

A resposta veio quase que imediatamente.

"Antes de atingir o ponto fraco, deve ativar seu escudo de aura, porque esse escudo vai absorver a reação, anestesiando-a, amaciando-a, impedindo que o vazio toque sua mente.

Sem o escudo, a reação irá se imprintar direto na sua consciência, e você será destruído sob a ilusão de uma solidão eterna."

Leo apertou as mãos com força, imaginando a sensação— o universo ficando silencioso, cada som desaparecendo, cada sentido sendo arrancado até que só sobrasse o frio infinito.

"É isso que acontece com os guerreiros que falham?" perguntou suavemente, enquanto a expressão de Moltherak escurecia.

"Alguns ficam sem falar por meses, outros gritam a noite toda, e alguns nunca mais aparecem. O vazio faz com que eles acreditem que nasceram sozinhos e morrerão sós, e essa verdade os destrói."

*Huff—*

Leo respirou fundo, acalmando a respiração.

"Então, passo um… perceber o ponto fraco. Passo dois… formar a adaga. Passo três… me envolver com o escudo de aura. Passo quatro… atacar. Passo cinco… entrar?"

"Exatamente," disse Moltherak, assentindo.

"Hoje você vai abrir a quarta dimensão, mas não vai entrar nela."

Moltherak instruiu, enquanto Leo fechava os olhos e desdobrava sua aura como seda ao redor, formando camadas sobre sua pele até que a pressão familiar do escudo o envolvesse, firme e reconfortante, como uma armadura forjada pela própria vontade.

"Vamos lá, faz isso!

Ele murmurou, quando o ponto fraco piscou novamente, um leve tremor na parede distante, enquanto moldava sua aura em uma ponta condensada e a lançava com precisão absoluta, a ponta vibrando com força ao cortar a membrana invisível.

*RACHADO—*

O mundo não se partiu simplesmente; vibrou, como se toda a câmara fosse uma corda tensa picada por uma mão invisível, o chão zumbindo sob seus pés enquanto as paredes ondulavam de leve, como se fossem feitas de líquido esticado, em vez de pedra, enquanto o ar se tornava espesso de repente, pesado como uma tempestade se formando por dentro.

*FSSSH—*

A rachadura alargou-se um pouco, uma linha fina e oscilante de luz distorcida cruzou o espaço, dobrando a câmara em formas impossíveis; as arestas retas curvavam, as sombras alongavam-se e torciam para cima, enquanto as cores se misturavam como se as leis de visão estivessem começando a se desmanchar.

Uma pulsação de baixa pressão irradiou-se da rachadura, fazendo os ouvidos de Leo zumbirem enquanto o oxigênio ao redor parecia rarefazer, cada respiração mais fria e vazia que a anterior, como se a ruptura estivesse sugando o calor da própria existência.

"O que… que é essa pressão?" perguntou ele, quando, naquele momento, a reação cósmica atingiu.

*BZZT*

A sensação não era como som ou força comuns, quase como uma onda silenciosa de maré que colidia diretamente contra sua consciência, uma presença esmagadora que pressionava seus pensamentos e tentava esvaziá-los, sussurrando de um vazio infinito onde nenhuma estrela nasce e nenhuma voz jamais existe.

Por sorte, o escudo de aura resistiu, já que, embora o peso esmagador pressionasse sua consciência, ele logo se dissolveu e foi absorvido pelo escudo antes que pudesse atingir seus pensamentos, deixando apenas um zumbido suave nos ouvidos ao invés do pavor sufocante que deveria acompanhá-lo.

*Pah!*

Leo soltou um suspiro suave ao ver a rachadura se ampliar por fração de segundo, revelando um vazio giratório além— imenso, frio, infinito— antes de se fechar com um estalo violento.

*Swooope*

Moltherak assentiu.

"Essa foi sua primeira rachadura na parede dimensional. Clumsy, instável, incompleta… mas suficiente."

Incentivou, enquanto Leo exalava lentamente, o peito arder com uma mistura estranha de cansaço e entusiasmo, ao vislumbrar pela primeira vez o mundo além do que conhecia.

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