
Capítulo 822
Assassino Atemporal
Os motores da nave sussurravam suavemente sob seus pés ao se abrir a névoa, revelando a visão familiar, embora distante, de Ixtal se espalhando abaixo, suas terras marcadas lentamente se recuperando sob um céu pálido, enquanto Amanda segurava seus filhos um pouco mais perto e soltava um suspiro que não percebia que vinha segurando até então.
"Estamos aqui, meninos, o verdadeiro universo," ela murmurou, enquanto Caleb pressionava o rosto na janela com olhos sérios, e a pequena Mairon grudava na manga dela, com o olhar curioso e arregalado.
Por trás deles, Su Pei ficava de braços cruzados, relaxado, mas atento, enquanto Dumpy se apresentava na parte de trás, na sua forma de rã de quinze pés, olhos dourados semi-cerrados como se estivesse entediado com a viagem, mas Amanda o conhecia há bastante tempo para saber que a fera estava prestando atenção em tudo.
*Assoprado*
A nave tocou o solo na clareira próxima ao castelo de pedra de Soron, seu trem de pouso soltando um sussurro ao se acomodar na terra, enquanto a rampa descia com um som mecânico monótono que ecoou pelo espaço aberto e silencioso.
Do lado de fora, figuras já começavam a se reunir.
Homens, mulheres e alguns adolescentes com armaduras gastas e roupas remendadas, sobreviventes de Ixtal que optaram por permanecer sob a proteção de Soron, avançaram com cautela enquanto tentavam enxergar através do brilho da escotilha aberta.
"Fiquem perto," Amanda cochichou a Mairon e Caleb, enquanto tomava suas mãos e dava um passo adiante, sentindo os pequenos dedos se apertarem ao redor dos seus.
O ar lá fora estava mais frio do que ela imaginava, enquanto o vento carregava o cheiro sutil de pedra, ervas e cinzas antigas.
"Quem são vocês? Qual o motivo de estarem em Ixtal?"
Um dos sobreviventes perguntou, levantando sua lança e cercando a nave com outros, todos sem reconhecer Amanda.
"Eu—"
Amanda começou, tentando se apresentar como esposa de Leo, mencionar Soron, explicar que estavam ali para ficar sob a proteção do Grande Deus.
Porém, ela nunca teve a chance, pois antes que pudesse dizer mais uma palavra—
*BATIDA*
O Dumpy saltou na frente dela com um passo que fez o chão tremer, seu corpo de enorme rã caindo entre ela e o grupo de sobreviventes, suas patas membranosas escavando o solo enquanto ele se erguia na sua altura imensa, braços cruzados sobre o peito, seu olhar endurecendo em algo frio e ameaçador.
"Como vocês, pobres idiotas, têm coragem de apontar uma arma para a esposa e os filhos do Senhor Pai," Dumpy ribombou, sua voz ressoando pelo bosque em um tom profundo, gutural, que fez até os ossos de Amanda vibrarem.
"Vou te dar três segundos para abaixarem essas armas," continuou, olhos dourados estreitados. "Caso contrário, não hesitarei em matar todos vocês."
Ele ameaçou, enquanto o pânico se espalhava instantaneamente entre a multidão reunida.
Alguns latiram e recuaram, suas armas jerking para baixo reflexivamente.
Outros se abrigaram atrás de seus companheiros, enquanto alguns permaneciam congelados no lugar, segurando suas lanças com mãos trêmulas, lutando contra o instinto de sobreviver.
"SORON, SENHOR!" "SORON, AJUDE!"
Vozes elevaram-se em gritos agudos enquanto vários deles se viraram e gritaram em direção ao castelo, o medo amplificando a desesperação em suas gargantas, e a atmosfera ficou tão tensa que Amanda teve que conter a vontade de se colocar na frente de Dumpy e acalmar todos sozinha.
"Dumpy," ela disse suavemente, puxando Mairon e Caleb um pouco mais perto, "você está assustando eles."
"Que se dane," murmurou Dumpy, seu olhar nunca deixando os sobreviventes, como se realmente quisesse dizer tudo que tinha acabado de falar.
*Passo*
*Suspiro*
Um suspiro silencioso vindo de trás de Amanda, enquanto Su Pei finalmente avançava, pinçando a ponte do nariz com dois dedos como se estivesse com dor de cabeça, antes de levantar as mãos lentamente, numa postura não ameaçadora.
"Não se preocupem com a rã," disse Su Pei, numa voz calma e quase cansada, ao ficar entre Dumpy e os sobreviventes, mantendo ainda assim Amanda e as crianças sob sua proteção.
"Sou Su Pei, monarca do Culto, e ajudante do Lorde Dragão Sombrio," apresentou-se, sua voz claramente sendo ouvida por todos na clareira.
"Ao meu lado estão seus familiares. Sua esposa, seus filhos e sua fera de estimação," continuou, apontando suavemente para Amanda, Mairon, Caleb e Dumpy, em sequência.
"Estamos aqui para buscar abrigo em Ixtal até o retorno do exército do Culto."
Compartilhou, e a tensão entre os sobreviventes mudou instantaneamente.
Confusão e medo deram lugar ao choque, e depois ao reconhecimento gradual, enquanto boatos se espalhavam pelo grupo como uma onda.
"Família do Dragão Sombrio…?" "São seus filhos?" "Então aquela mulher é…"
O homem que havia apontado a lança anteriormente engoliu em seco, seu rosto ficando vermelho de vergonha enquanto abaixava completamente a arma e avançava, fazendo uma reverência profunda.
"Oh, me perdoe, senhora," falou rapidamente, a voz carregada de desculpas. "Perdoe minha insolência por apontar uma arma contra você. Não tinha ideia de quem você fosse."
Amanda lhe respondeu com um sorriso pequeno e controlado, embora seu coração ainda batesse acelerado.
"Tudo bem," ela respondeu suavemente. "Você só estava sendo cuidadoso."
Perto dela, Mairon franziu o cenho sério, uma expressão de reprovação ao apontar um dedo acusador para o homem, enquanto Caleb se agarrava silenciosamente à saia de Amanda, seus olhos grandes assistindo tudo com uma mistura calma de fascínio e apreensão.
Amanda acariciou suavemente a cabeça de Mairon, alisando seus cabelos enquanto tentava não rir.
"Ele estava apenas assustado," ela sussurrou para o filho. "Ele não é um tio ruim, só um tio preocupado."
Ela explicou, e antes que Mairon pudesse responder, outro som atravessou a clareira.
"O que está acontecendo aí?" perguntou uma voz profunda, autoritária, de tom casual, mas com peso suficiente para fazer todos se endireitarem instintivamente.
"Quem ousa ameaçar meus cidadãos em Ixtal?"
Ela virou a cabeça junto com os demais ao ver Soron sair da entrada do castelo de pedra, com passos calmos ao descer os degraus curtos, seus olhos refletindo a luz opaca do céu de Ixtal.
Imediatamente, os sobreviventes reagiram à sua presença.
Toda a multidão na clareira, do lanceiro às mulheres e adolescentes nervosos, ajoelharam-se quase em uníssono, com as cabeças baixas em sinal de respeito e medo reverente.
"Meu Senhor," disseram todos juntos, suas vozes se sobrepondo, misturando respeito e temor em uma reverência.
Amanda seguiu o exemplo sem hesitar, guiando suavemente Mairon e Caleb ao seu lado, ajoelhando-se no chão, cabeça baixa, enquanto lançava um olhar de relance por debaixo das pestanas para Soron.
Todos se ajoelharam.
Todos, exceto Dumpy.
O sapo permaneceu de pé onde estava, com os braços ainda cruzados, olhos dourados fixos em Soron, com uma calma desafiadora que quase imperceptivelmente apertou o ar ao redor.
Soron lançou um olhar sobre a multidão ajoelhada e parou em Dumpy, levantando uma sobrancelha de leve irritação.
O velho Deus não conseguir entender por que a fera não se ajoelhava diante dele.
"Desculpe, velho, mas essa rã já tem um mestre," disse Dumpy, quebrando o silêncio primeiro, com tom firme, mas de forma estranha, respeitosa na sua própria maneira.
"Só me ajoelho diante do Senhor Pai, e mais ninguém," concluiu, enquanto os sobreviventes prendiam a respiração, os olhos nervosos entre Soron e a rã que ousava falar com tanta intimidade.
"Pfft—"
Soron bufou suavemente, uma leve ponta de diversão brincando no canto da boca enquanto olhava para Dumpy por mais um momento, claramente ponderando se a afronta valia a pena ser reprimida ou não, mas no final decidindo que não valia o transtorno.
"Que leal essa fera…"
Disse, balançando a cabeça, enquanto seu olhar se desviava da rã e finalmente se fixava em Amanda e nos dois pequenos ajoelhados ao seu lado.
Ao observá-los, sua expressão lentamente se transformou numa surpresa genuína, embora sutil.
"Aquelas crianças…?" murmurou sob a própria voz, tão baixo que Amanda quase não conseguiu ouvi-lo.
"Elas compartilham meu sangue," disse Soron, enquanto seus olhos se estreitavam pensativos, e os fios dourados do destino, que só ele poderia perceber, brilhavam à vista enquanto o ligavam aos meninos ao lado de Amanda.
Mairon virou-se desconfortável sob o peso daquele olhar, apertando a manga de Amanda com mais força, enquanto Caleb olhava curioso, sentindo algo, mas sem entender exatamente o quê.
Amanda também olhou para eles, sentindo um frio estranho percorrer sua espinha, como se uma teia invisível tivesse se apertado ao redor de todos, mudando algo sutil, porém importante, de uma forma que ela ainda não conseguia definir.
Soron manteve o olhar por um segundo a mais, antes de soltar lentamente o ar.
*Huff–*
"Entrem," disse finalmente, com tom casual novamente, como se estivesse convidando conhecidos, não estranhos.
"Faz tanto tempo que não tenho visitas despretensiosas," acrescentou, com um sorriso irônico nos lábios.
"Mas acho que posso abrir uma exceção para vocês,"
Disse, virando as costas e apontando para a porta aberta do castelo de pedra.
"Tudo bem entrar?"
Amanda perguntou a Su Pei assim que Soron virou, e Su Pei assentiu com confiança.
Seus sentidos de Monarca não detectaram intenção de杀, o que indicava que o Velho Deus não tinha más intenções.
"Tudo bem…"
Ele confirmou, enquanto Amanda cuidadosamente guiava Caleb e Mairon para dentro do castelo, seu coração batendo acelerado, acompanhada por Su Pei e Dumpy, prontos para protegê-la a qualquer custo se as coisas desandassem.