Assassino Atemporal

Capítulo 809

Assassino Atemporal

(Planeta Ixtal, ponto de vista do Mestre Supremo Argo)

A nave atravessou as nuvens cinzentas com um zumbido baixo, sua descida firme enquanto a vasta superfície marcada de Ixtal finalmente surgia abaixo deles.

O que antes era um planeta de culto vibrante, com cidades antigas, rios e arquitetura magnífica, agora se transformara em um cemitério de pedra queimada e cinzas frias, estendendo-se infinitamente em todas as direções, exceto uma.

Somente a Floresta Perdida permanecia intocada, seu dossel bramando suavemente com uma luz verde primal, e além dela, erguendo-se como um monumento silencioso que se recusava a se curvar diante da tragédia, ficava o castelo solitário do Lorde.

Argo sentiu o peito apertar enquanto a nave inclinava em direção ao acampamento perto dos portões do castelo, seu semblante escurecendo ao perceber o quão grave devia ter sido a devastação para o povo do Culto que ficou para trás durante a retirada.

"Mestre Supremo, estaremos aterrissando em breve," anunciou o piloto.

No entanto, Argo não respondeu.

Ele apenas permaneceu lá, segurando a barra superior, com os olhos estreitos ao olhar para a terra sagrada que um dia adorára na sua melhor fase, pois, mesmo tendo esperado devastação, vê-la de perto ainda o atingia com mais força do que imaginava.

*Aterrissar*

*Scrrch*

A nave tocou o solo com um sussurro suave, e ao abrir-se as portas, uma onda de vento frio entrou carregando o cheiro de solo queimado e antiga dor.

Argo saiu primeiro, seguido de perto por seus seis aprendizes, suas botas fazendo barulho no chão frágil.

O grupo mais próximo de sobreviventes parou no meio da tarefa ao perceber sua presença, vendo um homem idoso de cabelos grisalhos de ferro presos para trás, avental de ferreiro bem preso na cintura e barba longa trançada com argolas de metal.

Por um momento, o silêncio tomou conta de todos.

Então, uma das civis, uma mulher mais velha com mãos marcadas de fuligem, pressionou uma palma tremula contra a boca, lágrimas surgindo em seus olhos.

"É ele… é realmente ele… Mestre Supremo Argo…"

Sua voz falhou, e de repente, vários outros se reuniram, com expressões repletas de alívio e reverência.

"O maior ferreiro do Culto voltou!"

"Mestre Argo… louvado seja o céu…"

Argo ficou paralisado, surpreso com a rapidez com que o reconheceram, e por causa disso, o peso em seu peito ficou ainda mais pesado.

'O sofrimento deles… preciso fazer minha parte para vingá-los ao máximo.'

Decidiu silenciosamente, acenando uma vez para os civis antes de se virar em direção ao castelo.

"O Senhor está lá dentro?"

Ele perguntou, enquanto os sobreviventes assentiam imediatamente.

"Sim," responderam, indicando suavemente para que ele avançasse em direção à entrada, pela qual caminhou com passos confiantes e firmes.

'Deve ser seguro bater na porta do Senhor, já que ele foi quem nos convocou… certo?'

Ele ponderou, antes de levantar a mão e bater firmemente, enquanto seus aprendizes ficavam em silêncio atrás dele.

*Bater* *Bater*

Ele bateu na porta enorme, e para sua surpresa, não houve atraso algum.

As portas se abriram quase que instantaneamente, como se o castelo estivesse esperando por sua chegada, e ali, imponente e composto como sempre, estava Soron.

A postura do deus era relaxada, seu rosto calmo, mas seus olhos carregavam uma exaustão que poucos ousariam perceber.

"Meu Senhor…" Argo respirou fundo, e antes que pudesse se conter, ajoelhou-se na soleira, seus aprendizes fazendo o mesmo.

Mas os olhos de Soron se arregalaram de genuína preocupação quando ele avançou, segurando os braços de Argo com uma gentileza que contrastava fortemente com o poder divino que possuía.

"Por favor, Mestre Argo. Não se ajoelhe para mim. Você me envergonha fazendo isso," disse Soron com tom suave, porém firme. "Você é um Ancião. Seu respeito é igual ao meu."

Ele elogiou calorosamente, e Argo abaixou a cabeça mais uma vez, embora desta vez permanecesse de pé, enquanto o deus colocava uma mão brevemente sobre seu ombro.

"Venha para dentro," disse Soron, recuando e apontando para o salão iluminado. "Temos muito a conversar."

Argo respirou fundo, fortalecendo sua determinação ao cruzar o limiar, pois, pela primeira vez em muitos anos, sentiu o peso do destino repousar sobre suas mãos marcadas pelo fogo.


"Este é o metal com o qual você precisa trabalhar…"

Soron apresentou uma vez que estavam dentro, colocando um bloco opaco, cinza, e sem graça sobre as palmas abertas de Argo.

A primeira vista, parecia completamente comum, quase decepcionante, como se estivesse ao lado de um monte de sucata de aço, nenhum ferreiro daria uma segunda olhada nele.

Mas Argo sentiu a verdade no momento em que seu peso se acomodou em suas mãos, sua sobrancelha levantando em descrença.

"…Mais pesado que aço," murmurou, surpreso.

"Muito mais pesado. Mas esse tamanho e densidade não deveriam pesar tanto."

Ele levantou suavemente, testando o equilíbrio, e quase amaldiçoou em voz alta.

Nenhum metal, liga ou minério forjado divinamente tinha esse peso sem se tornar radioativo ou instável.

No entanto, aquele bloco estava de alguma forma completamente inerte.

"Interessante… muito interessante."

Refletiu, colocando ambas as mãos ao redor do bloco, respirando fundo e lentamente canalizando mana pelas pontas dos dedos para dentro do metal.

Cada metal existente reagia à mana.

Até materiais inertes tremiam, ressoavam ou emitiram leves vibrações quando a mana passava por eles.

Alguns metais vibravam em um zumbido.

Outros reluziam.

Alguns expandiam ou contraíam microscópicamente.

Alguns até cantavam, com notas que só ferreiros experientes podiam ouvir.

Era a lei da metalurgia em um mundo onde mana fluía por toda parte.

Mas este metal…

Não demonstrava reação alguma.

Nem um som.

Nenhuma vibração.

Nenhum brilho.

Nenhuma melodia.

Era como empurrar mana para um vazio que engolvia tudo sem sequer tremer.

Ao senti-lo, os olhos de Argo se arregalaram de descrença.

"Pelas alturas…" sussurrou, com a voz tremendo nas pontas, "Um elemento tão único. Ele rejeita toda mana externa. Não ressoa, não treme, nem reconhece que a mana existe."

Disse chocado, passando o polegar por sua superfície lisa.

"Parece metálico… mas não é exatamente um metal."

Tem uma densidade bem maior que o chumbo, mas ainda não é radioativo.

Está frio ao toque… mas não absorve calor.

Deveria ser impossível… e ainda assim, está aqui."

Argo balançou a cabeça lentamente, tomado por uma mistura de admiração e medo.

"Meu Senhor… do que exatamente essa coisa é feita?"

Perguntou curioso, enquanto Soron cruzava os braços, com uma expressão séria.

"Chama-se 'Metal da Origem'. É o remanescente de um tempo antes do universo como o conhecemos ter sido criado. Portanto, de certa forma, ele é anterior até mesmo à mana."

Disse, enquanto a respiração de Argo ficava presa na garganta.

"Não é à toa… a mana não faz nada com ele. Ele existia antes mesmo de a mana surgir."

Disse incrédulo, enquanto Soron assentia lentamente.

"Por isso preciso de você, Mestre Argo, para moldá-lo numa arma formidável que se encaixe no meu estilo de combate."

Ele avançou, tocando a superfície do bloco.

"Algo como isto…"

Disse segurando um pergaminho e desenrolando-o sobre a mesa mais próxima.

"Duas lâminas de duas pontas. Ambas levemente curvas.

Trinta e três centímetros de comprimento da lâmina.

Onze centímetros de empunhadura, com o ponto de equilíbrio exatamente a um terço do guarda."

Argo se aproximou, com os olhos se estreitando em foco intenso.

"Preciso que o peso esteja concentrado na região central da lâmina," continuou Soron. "Não na aresta, não na empunhadura, mas no centro. Para permitir mudanças rápidas de direção sem perder força em cada golpe."

Argo assentiu lentamente, absorvendo cada detalhe enquanto Soron apontava para o desenho da seção transversal da lâmina.

"Também preciso que a espinha seja hollowada em exatamente um milímetro, e que as bordas sejam comprimidas até ficarem finas como átomos. Não afiada, comprimida. Metal da Origem não serra, então você deve dobrar as bordas para dar forma."

Ele instruía enquanto Argo engolia em seco.

"Será… extremamente difícil, Meu Senhor."

Reconheceu, enquanto Soron lhe dava um sorriso cansado, mas gentil.

"É por isso que te chamei, Mestre Argo. Sei que é complicado, mas é o que preciso."

Disse, enquanto o silêncio se estabelecia entre eles.

'Este é… o projeto da minha vida.'

Pensou Argo, enquanto seus dedos traçavam o potencial oculto dentro do Metal da Origem, sua mente acelerada pensando em técnicas, temperaturas, possibilidades de encantamento e outros detalhes necessários para processá-lo.

'Esse metal provavelmente não obedecerá às regras tradicionais…'

Percebeu mesmo antes de começar a forjar, sabendo que esse seria um desafio absurdamente difícil.

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