
Capítulo 810
Assassino Atemporal
(O Pátio do Castelo de Soron, ponto de vista do Mestre Supremo Argo)
Ao amanhecer do dia seguinte, o silencioso pátio do castelo tinha se transformado numa zona de forja improvisada, com os aprendizes de Argo montando bancadas de trabalho, fixando fornos de mana e reunindo uma variedade de martelos, tenazes, crucifixos e estabilizadores rúnicos com uma eficiência treinada ao longo do tempo.
Fumaça saía das aberturas dos fornos enquanto as primeiras chamas eram acesas, preenchendo o ar com o aroma familiar de carvão em combustão e metal aquecido—um cheiro que Argo conhecia a vida inteira.
No centro de tudo, repousava o Bloco de Metal de Origem, sobre uma laje de pedra, como uma relíquia antiga esperando para ser despertada.
"Crucible pronto, Mestre Supremo", anunciou um aprendiz, levantando o recipiente reforçado, revestido com runas de calor extremo para forja em altas temperaturas.
Argo assentiu com cabeça firme.
"Coloque-o dentro. Comece com uma chama de mana de alta fervura. Vamos ver como ele reage."
Ele instruía, enquanto dois aprendizes levantavam o Metal de Origem com tenazes encantadas e o colocavam no crucible, enquanto outro ajustava os níveis do forno.
Logo, as chamas de mana começaram a inflar numa tonalidade azul vibrante, enquanto a temperatura ultrapassava o ponto de fusão do diamante, do tungstênio e das ligas celestiais, enquanto o ar ao redor vibrava violentamente pelo calor intenso.
Alguns minutos se passaram, depois uma dúzia, depois uma hora.
Gotas de suor escorriam das testas.
As chamas de mana ardiam como brasas vermelhas, enquanto a temperatura subia cada vez mais, até que até o próprio ar parecia líquido de fogo.
No entanto, ao finalmente retirarem o crucible, o Bloco de Metal de Origem voltou a aparecer completamente inalterado, como se o calor não tivesse efeito algum sobre ele.
*Toc*
Argo deu um passo à frente… respirou fundo… e tocou o bloco. Para sua surpresa, a temperatura da superfície não pareceu ter variado sequer um grau.
"…Frio", sussurrou. "Exatamente como quando entrou."
Ele observou, enquanto os aprendizes trocavam olhares apreensivos.
"Mestre… esse metal não parece absorver calor."
"Não há expansão na superfície… mudança de cor… nada."
Um deles se inclinou mais perto, com a voz tremendo.
"Não há como reformatar esse metal por meio de fusão…"
Disse, enquanto outro testava com seu martelo.
*TAC*
O aprendiz bateu com toda a força que tinha, porém, o martelo simplesmente ricocheteou sem causar dano.
*TRINC*
A cabeça do martelo se quebrou limpidamente ao meio, fazendo o aprendiz recuar assustado.
"Mestre, também não é maleável naturalmente! Nossas ferramentas vão se partir antes mesmo de riscar ele!"
Ele apontou, enquanto os outros todos exclamavam, em choque.
"Não reage ao calor, nem faz ressonância elemental, nem conduz mana… ele se comporta como nenhum material conhecido."
Um deles comentou, enquanto Argo coçava lentamente a testa, respirando fundo pelo nariz.
"Parece que…", murmurou.
«Colocou uma mão sobre o Metal de Origem novamente, fechando os olhos como se estivesse ouvindo-o.»
"Justo como suspeitava. Ele não obedece às regras tradicionais de forja. Não derrete. Não amolece. Não ressoa. Não se curva…"
Abriu os olhos, com a expressão mais determinada.
"Não podemos reformá-lo com calor. E tentar força bruta só vai destruir nossas ferramentas. Isso significa…"
Ele parou, olhando para os esboços de Soron presos ao lado da estação de trabalho.
" Transformar isso em uma lâmina terá desafios como nunca enfrentamos antes."
Os aprendizes o encararam com ansiedade.
Argo endireitou a postura.
"Preparem a forja de alma", disse em voz baixa.
"Estamos lidando com um metal mais antigo que a própria mana. Não podemos tratá-lo como um mero metal. Temos que encará-lo… como um material vivo."
"Se métodos tradicionais não conseguem forjá-lo, então a única maneira de moldá-lo pode ser usando a forja de alma…"
Ele afirmou, enquanto os aprendizes assustados exclamavam.
Uma forja de alma consumia a força da própria alma para operar, e para um ferreiro tão avançado quanto Argo usar essa técnica, geralmente significava uma sentença de morte certa.
"Mestre, por favor, reconsidere. Ainda é cedo demais para desistir de métodos convencionais e partir direto para a forja de alma.
Vamos tentar outros truques de metalurgia primeiro."
Um dos aprendizes implorou, mas Argo apenas deu uma risada e balançou a cabeça.
"Garoto tolo, esse não é o momento de se preocupar com minha saúde.
A prioridade de um ferreiro ao aceitar um projeto é levá-lo até o fim.
Tudo o mais é secundário.
Se, ao entrar na forja, sua mente vagar para assuntos do mundo, você nunca será um ferreiro digno de carregar o nome da Forja de Argo."
Admoestou, enquanto os jovens abaixavam a cabeça envergonhados.
A Forja de Alma era realmente única porque, diferente de todos os outros mecanismos de forja já criados, ela não dependia de estímulos externos para moldar o metal.
Para uma forja comum, o calor amacia a estrutura, martelos alteram a forma, e mana refina a grade interna, mas a Forja de Alma ignorava completamente todos esses princípios.
Ela operava numa dimensão totalmente diferente de artesanato, entre a realidade e o mundo interior do artesão.
Sua função principal era simples em teoria, mas quase impossível na prática. A forja absorvia o espírito do ferreiro, extraindo força de vontade e emoções em fluxos constantes, convertendo-os numa força metafísica capaz de superar a rigidez fundamental de materiais indestrutíveis.
Força, determinação, medo, culpa, ambição, orgulho, saudade, amor, ódio, memórias, triunfos, arrependimentos—todo o espectro emocional do ferreiro virava fios de energia invisível, que se envolviam ao redor do metal como mãos de fogo.
A Forja de Alma usava esses fios para penetrar na estrutura do material em um nível muito mais profundo do que a mana jamais poderia alcançar, tocando na essência em vez da superfície.
Enquanto chamas normais tentavam derreter a casca, a Forja de Alma queimava a própria identidade da substância, reescrevendo sua natureza molécula por molécula ou, no caso de materiais divinos, conceito por conceito.
Ela podia dobrar o que não podia ser dobrado, amolecer o que não podia ser suavizado e moldar o que ultrapassava a física mundana, porque não tentava mudar o material pela força, mas impunha a vontade do ferreiro diretamente nele.
Por isso, só alguns forjadores na história sobreviveram ao uso prolongado da Forja de Alma.
A cada golpe do Martelo de Alma, o preço era cobrado. Cada modelagem exigia um pedaço da própria alma.
Um ferreiro mais frágil desmoronaria. Um mais forte envelheceria décadas em questão de momentos.
Somente quem tinha um propósito firme podia usar essa ferramenta sem se perder.
Por isso, ela era a única capaz de manipular uma substância que existia antes da mana, antes das leis, antes da própria criação.
Na compreensão de Argo, o Metal de Origem dificilmente se curvaria ao calor, pressão ou encantamento, e a única forma confiável de forjá-lo era usando a força da alma.