
Capítulo 785
Assassino Atemporal
(Planeta Ixtal, Ponto de Vista de Soron)
Enquanto Soron descendia do céu, a tempestade de energia carmesim que o acompanhava começava a se dissipar, sua luz residual se dispersando pela horizonte destruído como brasas de um fogo divino que se apagava.
Ixtal se estendia aos seus pés em ruínas, sua sociedade outrora vibrante agora reduzida a um cenário destroçado de pedra queimada e bandeiras estrangeiras que tremulavam em locais onde antes estavam as bandeiras do Culto, orgulhosamente empunhadas.
A visão apertou seu peito, um sentimento complexo demais para ser expresso por mera raiva.
'O que... O que é isso?'
Ele se perguntou, seu olhar varrendo as planícies, enquanto cada centímetro de terra clamava por destruição.
As bandeiras da facção Justa, tecidas em suas cores imperialistas, estavam cravadas na terra sagrada de Ixtal como lanças zombando dos mortos.
Seus soldados, formigas diante de sua presença imponente, se embrenhavam em pânico, gritando ordens, fortalecendo defesas, suas vozes abafadas e insignificantes sob o zumbido lento do vento.
'Como ousam esses escória infestarem MINHA terra,' pensou, seu maxilar cerrando-se enquanto sua aura divina pulsava, rachando o ar ao seu redor.
'Como ousam pisar em algo que nunca foi deles…'
Ele lançou uma maldição, mas, sob aquela raiva, também despertava uma confusão.
Ele ainda sentia eles. As pulsações ténues e persistentes das almas dos Idosos do Culto.
Eles ainda estavam vivos em algum lugar no universo.
Mas não em Ixtal.
'Impossível…'
Pensou, estreitando os olhos, seu senso divino abrangendo todo o planeta.
'Como os Idosos ainda podem estar vivos se as bandeiras Justas estão aqui?' ele sussurrou em voz alta, sua voz baixa, mas ressonante o suficiente para reverberar pelo céu.
'Se eles ainda respiram, então este mundo ainda deveria nos pertencer…'
Concluiu, embora o fato permanecesse claro: não era isso o que acontecia.
Ao seu redor, via a arquitetura inimiga emergindo das cinzas: postos avançados de metal, alojamentos temporários, condutos artificiais canalizando mana em arrays de contenção.
Os Justos estiveram aqui por meses, talvez anos. Conquistaram, reconstruíram, profanaram, e, de alguma forma, seu povo ainda sobrevivia por baixo de tudo isso.
Aquela contradição o dilacerava mais que qualquer ira poderia.
O céu acima ainda queimava por sua chegada.
Dezenas de naves justas jaziam incapacidades nas nuvens, seus cascos rasgados pelo efeito rebote de sua descida, enquanto seus comandantes de nível Monarca eram reduzidos a cinzas antes mesmo de compreenderem quem estavam enfrentando.
Porém, de alguma forma, todas aquelas mortes não podiam desfazer o dano causado a Ixtal.
Pois, mesmo tendo eliminado a liderança inimiga que controlava o planeta sem sequer mover um dedo, ele ainda não podia desfazer o que já tinha sido feito.
'Valeu a pena minha ausência?'
Ele se perguntou, enquanto cada soldado inimigo ao seu redor se ajoelhava em rendição, seus espíritos esmagados apenas por sua presença.
Ele poderia acabar com todos eles com um simples movimento do dedo,
apenas um gesto pequeno e poderia limpar toda a superfície de Ixtal, contudo, nem todos aqui pareciam ser inimigos.
'Deveria fazer isso? Deveria acabar com todos eles?'
Pensou, enquanto a ideia de deixar sua aura envolver Ixtal novamente e extinguir toda vida aqui parecia tentadora…
Porém, apesar do seu desejo, hesitou, seu braço se tensionsando antes de lentamente baixá-lo ao lado.
'Não… ainda não.'
Ele pensou, ainda podendo sentir os vivos, e nem todos eram inimigos.
A aura dos cidadãos do Culto, fraca mas distinta, piscava como estrelas enterradas sob a crosta do planeta.
Ao contrário dos soldados da facção justa, que se encolhiam e ficavam devastados com sua chegada, os cidadãos do Culto estavam felizes, sua aura envolta em um azul brilhante, ao contrário do bordô escuro dos adversários.
E embora houvesse menos de duas mil pessoas presentes no planeta, Soron não conseguia se convencer a matar todos eles junto dos inimigos.
*Suspiro*
Ele exalou lentamente, sua raiva fervendo por baixo da superfície como metal fundido preso em pedra.
'Ixtal,' murmurou, com tom baixo, reverente e furioso ao mesmo tempo. 'O que fizeram com você?'
Seus olhos se voltaram para o horizonte ao norte, onde o brilho tênue da Floresta Perdida ainda permanecia intocado, a única parte do planeta que os Justos não ousaram profanar.
No centro dela, ele podia sentir o antigo castelo de pedra, deixado intocado, e compreendeu imediatamente que era uma ordem de seu irmão.
Pouco mais de um irmão, talvez, pois só Kaelith poderia proteger aquele lugar por apego sentimental.
Ainda que ninguém mais se importasse muito com isso.
'Às vezes, não entendo o que você quer, irmão.
Mas, infelizmente para você, já parei de me importar há muito tempo.
Da próxima vez que nos encontrarmos, virei sua vida.'
Pensou, enquanto direcionava seu olhar para um soldado próximo, e sinalizava para que se aproximasse.
"Você... Venha!"
Exigiu, enquanto o soldado, assustado, imediatamente encharcava as calças, tremendo enquanto se aproximava lentamente.
"S-sim, Senhor."
Disse, enquanto Soron apontava para o leste e instruiu: "Tem um sobrevivente do Culto nessa direção. Aproximadamente duas milhas. Vá buscá-lo para mim nos próximos dez minutos.
Falhe e vou explodir seu coração dentro do peito, e você morre.
Se conseguir, prometo libertá-lo."
Soron instruiu, enquanto o soldado aterrorizado partia correndo a leste, com toda a desesperança de alguém que agarra sua última chance de viver.
O deus o observou partir, sua expressão impassível, seu olhar fixo bem além do que olhos mortais poderiam enxergar, enquanto o horizonte tremecia suavemente ao longe.
Passaram-se minutos em silêncio, quebrados apenas pelo som do metal queimando e o sussurro da cinza ainda caindo do céu. Então, finalmente, o soldado voltou.
Ele retornou mancando, o rosto marcado de sangue, o hálito ofegante, carregando um corpo meio morto nas costas.
Um corpo que mal respirava, mas ainda se agarrava à vida com a teimosia de quem se recusa a morrer antes do amanhecer.
*Impacto*
O soldado caiu de joelhos diante de Soron, a voz tremendo enquanto ofegava: "M-meu Senhor… Eu o encontrei. Um sobrevivente do Culto… exatamente como você disse."
Os olhos de Soron se estreitaram ligeiramente ao ver o homem machucado escorregando do ombro do soldado e caindo de joelhos diante dele.
Seu rosto estava irreconhecível por causa do sangue, um olho inchado, mas atrás da carne rasgada brilhava inconfundível a centelha de fé.
Por um momento, nenhum deles falou. O vento carregava o som de alarmes distantes e o crepitar do fogo. Então, por entre lábios partidos, o sobrevivente sorriu, um sorriso amplo e trêmulo que atravessou a ruína como raio de sol penentrando a fumaça.
"O Senhor retornou…" sussurrou, a voz tremendo enquanto lágrimas começavam a escorrer livremente pelo rosto.
"Nossos sofrimentos… nossa humilhação… agora serão vingados."
Disse, tentando se curvar, mas sua força falhou no meio, e ele simplesmente caiu para frente, a testa colada ao chão coberto de cinzas aos pés de Soron.
*Baque*
A expressão de Soron suavizou-se imperceptivelmente ao olhar para o homem destruído, e naquele momento algo dentro de seu peito se apertou, uma dor rara que não tinha nada a ver com fúria ou vingança, lembrando-lhe mais uma vez o que significava ser seguido, confiar e amar.
'Meu povo, eles sofreram… mas perseveraram,' pensou, baixando ligeiramente o olhar. 'Mesmo depois de todo esse tempo… eles ainda esperam por mim.'
Estendeu a mão, com o gesto àquelas alturas, e usando apenas uma pequena fração de sua energia divina, curou completamente o homem em segundos.
"Levante-se agora, homem valente. Levante-se e me diga o que aconteceu aqui…."
Ele ordenou, enquanto o homem quebrado, com os olhos marejados, começava a relatar sua história.