
Capítulo 784
Assassino Atemporal
(Planeta Ixtal, ponto de vista de um soldado comum)
O vento que soprava pelas planícies queimadas de Ixtal carregava o odor de sangue antigo e metal derretido, misturado à fumaça acre que ainda subia dos escombros do que já fora o coração da civilização culta, outrora próspera.
A terra sob os pés dos soldados era de um cinza escuro, rachado, que se recusava a cicatrizar mesmo após meses de rituais de purificação e limpeza de mana.
"Lugar nojento," resmungou um dos soldados, chutando a terra como se ela tivesse cometido um insulto pessoal. "Por mais água benta que joguemos aqui, ainda cheira a corrupção. Até o ar parece errado, como se estivesse encharcado de blasfêmia."
Uma onda de concordância baixa seguiu-se, suas vozes cansadas mas repletas de desdém.
"Fdp imundos," cuspiu outro, a armadura refletindo levemente sob a luz pálida. "Juro que o mal corre no sangue deles. Gerações inteiras nascidas corrompidas. Até os cadáveres, quando viramos os escombros, parecem orgulhosos."
"Pois é," acrescentou outro, ajustando o cabo da espada. "Destruímos seus templos, queimamos suas bibliotecas e achatamos todas as torres que tinham aqueles malditos símbolos do Culto gravados nelas, e ainda assim este planeta parece estar nos observando… como se dissesse que não pertencemos aqui. Dá vontade de arrepiar."
O grupo riu baixinho, sombriamente, embora nenhum deles tivesse coragem de olhar na direção do horizonte onde ainda fumegavam as ruínas da capital.
"Vai levar séculos para transformar essa desgraça no modelo da Facção do Justo," disse o capitão do pelotão, com tom carregado de desprezo. "Vamos ter que arrancar até os ossos deste planeta, purificá-lo até o núcleo. Até lá, continuará amaldiçoado."
Desde que cheguei aqui, não tenho tido uma boa noite de sono. E provavelmente não terei, até estar de volta ao meu lar em Dereva.
Uma murmuração de concordância passou pelos homens até que um deles, um recruta mais jovem, falou hesitante. "Senhor, tem uma coisa que não entendo."
"O quê?"
"A Floresta Perdida… e o Castelo de Pedra do Deus Mal Soron. Ambos ainda estão de pé. A Ordem até cercou a área, dizendo que ninguém pode se aproximar."
Pensava que estávamos apagando cada traço do Culto, então por que deixar aquela… coisa intocada?"
O capitão franziu a testa, olhando na direção do horizonte norte distante, onde um brilho sutil e antinatural marcava a fronteira da floresta. "Ordens de cima," respondeu finalmente. "Parece que os superiores acham que destruir o castelo de Soron pode desestabilizar o fluxo de mana do planeta. Algo sobre raízes antigas ou selos divinos. Seja lá o que for, não é problema nosso."
Em nosso nível, é melhor não pensar demais nas conspirações cósmicas.
Ou nunca conseguiremos seguir ordens fiéis."
"Mas, senhor—"
"Chega." A voz do capitão endureceu.
"Somos soldados, não estudiosos. Se a Ordem quer deixar aquilo intacto, deixamos. Agora cala a boca e mantém os olhos abertos. Este planeta pode estar conquistado, mas ainda é perigoso.
Ontem à noite, tiveram relatos de insurgentes cultistas sobreviventes que derrubaram uma patrulha!
Alguns desses ratos ainda estão se escondendo debaixo dos escombros, então precisamos estar atentos."
Ele advertiu, enquanto a conversa morreu ali, os homens voltaram à patrulha, pisando na terra quebradiça com seus passos pesados.
*Estalos*
*Estalos*
Por um tempo, tudo voltou ao normal, o céu acima de Ixtal seu azul habitual, até que, de repente, o som começou.
*VROOOOOOOMMMM*
Uma vibração profunda percorreu as planícies, seguida pelo uivo agudo dos alarmes ecoando por todas as guarnições.
"O quê—?"
Os soldados congelaram enquanto o céu acima deles tremia, sua cor azul escurecendo em tempo real, misturada a um vermelho antinatural.
"Ataque aéreo?" alguém gritou, sua voz abafada pelo estrondo repentino dos motores enquanto jatos Justos decolaram dos hangares próximos, cortando as nuvens em formação apertada.
A patrulha olhou para cima, protegendo os olhos contra o clarão, enquanto dezenas de Comandantes nível Monarca surgiam no céu como faixas de luz, seus rastros de mana cortando o ambiente enquanto subiam para encontrar o que quer que estivesse vindo.
Então, por um único instante, tudo ficou em silêncio.
O ar engrossou, as nuvens se contorceram e uma luz — pura e carmesim — rasgou os céus ao meio.
*Estalo*
*Explosão*
A pressão caiu como uma onda gigante, achatando a relva e fazendo os soldados caírem de joelhos, com os ouvidos zunindo e o coração pulsando forte.
"O quê?"
"Que pressão insana é essa? O que foi aquele ataque?"
Perguntaram uns aos outros, mal levantando a cabeça, enquanto a cena que se desenrolava diante deles gelava o sangue nas veias.
O céu acima estava cheio de corpos caindo.
Doze Monarcas, cuñas auras se apagando no ar, suas cabeças decapitadas rodando em arcos vermelhos enquanto seus corpos sem cabeça caíam, desaparecendo em cinzas antes mesmo de tocar o solo.
Sangue chovendo em rastros de vermelho brilhante, dissolvendo-se antes de tocar o chão.
"QUE PORRA… O QUE FOI QUE ACONTECEU?" gritou um soldado, tremendo de medo.
Então, através das nuvens, uma figura começou a descer: uma espécie de entidade etérea envolta em vermelho, branco e dourado, cuja presença irradiava tanto divindade quanto terror.
Cada passo que dava em direção ao chão criava ondulações no ar, distorcendo a luz ao redor dele.
Só de olhar para ele, toda a batalha parou, até mesmo os alarmes pareciam desaparecer sob sua pressão sufocante.
Seus olhos, frios e antigos, varreram a terra que uma vez lhe pertencia, sua expressão claramente descontente ao observar a destruição que causaram em Ixtal, com os dentes cerrados.
"E-esse é S-s-soron," gaguejou um dos soldados, a voz tremendo enquanto recuava, suas pernas vacilando.
"Deus Mal Soron…" repetiu outro, quase sem fôlego, enquanto a compreensão atingia como um martelo.
O Deus do Culto tinha retornado.
E à medida que sua sombra cobria novamente as planícies de Ixtal, os soldados comuns sentiram algo primordial despertar dentro de si, uma emoção há muito enterrada sob orgulho e fé.
Ela serpenteou por suas veias como gelo, transformando coragem em silêncio, enquanto percebiam, com horror, que a terra que pensavam conquistada estava apenas adormecendo — esperando o retorno de seu verdadeiro mestre.