
Capítulo 758
Assassino Atemporal
(O Oceano Atemporal, Alguns Minutos Depois, Ponto de Vista de Leonardo)
A tempestade envolveu toda a frota em poucos momentos, as velas de repente tremelicando, enquanto a chuva torrencial atingia o convés superior.
*QUÁ*
*BALANCE*
*TROVOADA*
As ondas batiam contra o casco como punhos cerrados, os navios gemendo enquanto seus mastros suportavam o peso dos relâmpagos que rasgavam o céu.
Leonardo se apoiou na amurada, sua capa batendo loucamente atrás dele enquanto seu coração lutava para acompanhar o ritmo da tempestade.
O ar brilhou levemente, e através do som do trovão, algo mais começou a sussurrar.
Foi suave no começo. Familiar.
"Leonardo, meu filho…"
A voz veio suave, quase carinhosa, envolvendo seu ouvido como uma lembrança da infância. Era a voz de sua avó, o mesmo tom que costumava chamá-lo do pátio para jantar, a mesma ternura que ele havia sentido falta nos últimos meses.
Ele congelou. Sua respiração ficou presa.
Então, outra voz seguiu, frágil mas clara.
"Leonardo, me ajuda a encontrar meus óculos, acho que perdi eles…"
A voz dizia isso, e Leonardo reconheceu que era a voz de seu avô.
O mesmo homem cujo túmulo ele visitava todo mês nos últimos anos. O mesmo homem que foi seu melhor amigo enquanto crescia.
*VOOOOOM*
*UIVO*
O vento uivava mais forte, mas de alguma forma os sussurros passavam por ele, claros como pensamentos, entrelaçando-se ao ritmo da tempestade, enquanto Leonardo lutava para separar a realidade da ficção.
Do outro lado do convés, outros marinheiros também começavam a ouvir seus próprios fantasmas, alguns chorando, outros rindo, alguns sussurrando de volta como se acreditassem no que viam.
"Querido, juro que não fui eu quem comi a última fatia…", chamou um homem, parecendo apavorado com o que tinha visto.
"Liora? É você mesmo?" gritou outro, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto cambaleava em direção à borda do navio.
"NÃO ESCUTEM AS VOZES! MANTENHAM A CABEÇA NO LUGAR, RAPAZES!"
O berro de Mickey James cortou a loucura como uma lâmina. Sua voz atravessou o vento, fazendo os homens saírem do transe enquanto ele segurava o mastro principal, a mana ao redor de seu corpo pulsando como fogo.
Mas nem todos escutaram.
Dois soldados pularam ao mar antes que alguém pudesse impedir— um gritando, "Geneveve! Estou vindo por você, meu amor!", e o outro gritando, "Senhor Dragão! Não vou permitir que te humilhem! Vou proteger sua honra!"
Ambos desapareceram instantaneamente sob as ondas, seus gritos engolidos pela boca do oceano enquanto a tempestade assobiava e estalava acima deles.
Leonardo pressionou as mãos contra as têmporas, forçando as vozes a recuarem, obrigando-se a respirar.
A tonalidade de sua avó ainda permanecia… suave, implorando, chamando-o de volta para casa.
Mas ele tentou convencer sua mente de que aquilo não podia ser verdade.
Que ela já tinha morrido e que ele não deveria estar ouvindo a voz dela.
Isso o ajudou a recuperar alguma clareza.
*WSHHHHH*
Nesse ponto, o vento começou a gritar mais alto e a chuva virou uma enxurrada tão densa que o horizonte desapareceu completamente.
Os marinheiros não conseguiam mais controlar as velas, enquanto o navio inteiro tremia precariamente de um lado para o outro.
"Está ficando perigoso demais… Precisamos sair dessa tempestade, e rápido—"
Leonardo murmurou, mas não havia ninguém ao seu redor para ouvir sua voz.
Felizmente, para ele, Anderson Silva atravessava a tempestade, avançando até a proa do navio, lança em punho, sua mana brilhando numa torrente de luz branco-ouro que reluzia intensamente na escuridão da tormenta.
*SWOOSH*
*CORTADA*
Cada golpe de sua arma atravessava a tempestade, rasgando a névoa ilusória enquanto arcos de energia se espalhavam pelos céus.
O ar rachava e a chuva mudava, o próprio mundo parecendo se curvar sob a precisão de seu controle.
Leonardo assistia, maravilhado, enquanto Anderson cortava a tempestade camada por camada, cada golpe abrindo o céu como se rasgasse um tecido.
Um relâmpago o acertou, mas ele não vacilou.
Os ventos uivavam, mas ele permanecia firme.
Até que, lentamente, foi reduzindo a força da tempestade, deixando-a cada vez mais fraca.
Um minuto virou vinte, e quando sua lança desceu, as nuvens acima tinham se transformado em veios de névoa prateada.
O silêncio surgiu. O mar se acalmou, sua ferocidade recuando para um estado de tranquilidade, enquanto a luz do céu do crepúsculo suavemente filtrava pelas nuvens.
Anderson permaneceu imóvel na proa, sua capa encharcada, uma expressão indecifrável, enquanto o riso de Mickey ecoava suavemente do outro lado do convés.
Leonardo respirou fundo, controlando a respiração, enquanto olhava para o céu que tentou destruí-los e falhou, percebendo o quão perigoso podem ser essas expedições.
Se não fosse pelo fato de sua frota contar com dois Monarchs a bordo, uma tempestade assim provavelmente teria causado muito mais mortes do que duas — e Leonardo entendeu o quão forte alguém precisa ser para equilibrar as probabilidades nesse mundo implacável.
A compreensão entrou nele como uma maré lenta, fria e implacável. Poder era tudo neste mundo. Decidia quem vive, quem lidera, quem desaparece sem deixar vestígios nas profundezas. Nenhuma bondade ou talento valiam de nada sem ele.
Vendo Anderson enfrentando a tempestade sozinho, cortando o que parecia divino por natureza, Leonardo finalmente compreendeu o que diferencia homens como ele do restante.
Não era o direito de nascer, nem habilidade, nem destino. Era a vontade, aquela que se recusa a ceder mesmo quando os céus se voltam hostis.
Ele apertou os punhos, olhando para suas mãos trêmulas. Apesar de ser um Grande Mestre, sabia que ainda era fraco demais para mudar alguma coisa, fraco demais para comandar o mar, o céu ou o destino.
"Se essa é a verdadeira força," murmurou baixinho, "então estou bem longe disso."
A dor do pensamento queimou, mas também acendeu algo dentro dele, uma centelha de determinação que queimava mais forte que o medo.
Ele não se conformaria com o conforto, nem com o orgulho herdado da sombra de outro homem.
Buscaría esse tipo de poder, aquele que silencia tempestades e ilusões, mesmo que leve uma vida toda para conquistá-lo.
Pois força não é apenas sobrevivência. É liberdade.