
Capítulo 741
Assassino Atemporal
(Planeta Neutro Cyreth, Transmissão Pública na Praça Principal, Ponto de Vista dos Membros Comuns do Culto)
Em todos os mundos neutros espalhados pelo universo, cada praça principal, taberna e salão de comércio caíram sob o mesmo silêncio enquanto a transmissão começava.
Os céus acima de Cyreth, normalmente repletos pelo suave burburinho de navios aéreos e conversas nos mercados, ficaram inquietantemente calmos quando a maior tela holográfica na praça principal piscou e ganhou vida, projetando a imagem que nenhum dos Cultistas desejava ver.
Seu Dragão.
Seu salvador.
Despojado de sua dignidade básica e forçado a ficar acorrentado, nu, ensanguentado.
O som da multidão de Voralis ecoou pelos alto-falantes, espalhando-se pelas cidades e mercados ao mesmo tempo, enquanto os tambores cerimoniais soavam como sinos de funeral.
As vozes dos cidadãos Justos zombavam e vibravam de alegria, sobrepostas ao estalo rítmico do chicote que ecoava na transmissão.
*CHICOTADA*
*CHICOTADA*
A cada golpe, o povo do Culto recuava, como se a dor fosse sua, seus olhos arregalados e vazios, seus corpos rígidos de incredulidade.
No meio da multidão, eles não ousavam respirar alto demais.
Pois, embora os planetas neutros fingissem ser justos, todos sabiam qual facção detinha o verdadeiro poder aqui, e chorar pelo Culto, ou mesmo parecer demasiado pesaroso, era convidar a prisão ou a morte.
Assim, permaneciam imóveis—homens, mulheres e crianças, envoltos em silêncio enquanto ao redor seguiam as risadas e os gestos, chamando a imagem na tela de um desfecho justo para o "Dragão Mau do Culto".
Ninguém entre os Cultistas falava alto.
Não podiam.
Somente assistiam, cada par de olhos carregava a mesma dor silenciosa.
Um homem de meia idade, vestindo um capote marrom, segurava a mão da filha com mais força, seus nós de dedos brancos enquanto os pequenos dedos dela tremiam em sua palma.
"Pai… por que estão machucando ele?" ela sussurrou suavemente, sua voz quase inaudível contra as risadas de fundo.
Ele não conseguiu responder. Sua garganta parecia trancada, o coração pesado enquanto as palavras se sufocavam dentro dele.
Perto deles, uma mulher idosa ficava com as mãos pressionadas aos lábios, lágrimas caindo livremente pelo rosto enrugado enquanto os soldados na tela levantavam o chicote novamente, atingindo Veyr até que o sangue jorrasse contra a plataforma.
*CHICOTADA*
*CHICOTADA*
*CHICOTADA*
E, apesar de tudo, o Dragão não se curvou.
Mesmo através do brilho pixelado da projeção, sua postura permanecia orgulhosa, cabeça erguida, olhos fixos adiante.
Essa força silenciosa que emanava dele cortava mais fundo em seus corações do que qualquer ferida poderia.
Porque eles sabiam o que aquilo significava.
Significava que, mesmo agora, após ser quebrado, despojado e envergonhado, ele se recusava a se ajoelhar.
E se ele não se ajoelhar, então eles também não poderiam.
Porém, coragem era um luxo que nenhuma deles podia se dar.
Um jovem, de pé no canto da praça, cerrava a mandíbula até que o sangue começasse a escorrer pelo lado da boca, a raiva em seu peito gritando por liberação. Mas quando um dos Cidadãos Justos se virou para ele e riu, ele forçou um sorriso vazio em troca, fingindo compartilhar da situação enquanto a bile subia pela garganta.
Em toda a planetária, a cena se repetia.
Em cada beco, every bar escuro, cada rua movimentada onde a transmissão passava, sobreviventes do Culto assistiam seu orgulho desmoronar ao vivo, e mesmo assim, nenhum ousava demonstrar isso.
Eles abaixavam a cabeça, ou desviavam o olhar, ou mordiam a língua até sangrar, seus corações queimando em silêncio enquanto o resto do universo se regozijava na sua desgraça.
'Será que nos tornamos isso?'
'Será que somos mesmo tão impotentes agora?'
As perguntas ecoavam nos corações de milhões, não ditas, mas compartilhadas, como uma prece coletiva engolida antes de chegar aos ouvidos de Soron.
Alguns se ajoelhavam ali mesmo no barro, pressionando a testa ao chão, murmurando o nome de Veyr por baixo da respiração, na esperança de que, de algum modo, sua fé pudesse alcançá-lo através do vazio.
Outros não conseguiam suportar assistir e viravam de costas, o som da chicotada os assombrando enquanto se afastavam, fingindo que eram indiferentes, enquanto lágrimas escorriam por seus rostos.
E alguns simplesmente ficavam congelados, com o rosto pálido, olhos vazios, observando o homem que um dia simbolizou sua esperança ser tratado como um animal perante o universo.
Para eles, aquilo era pior que o exílio.
Quando seus mundos natais foram conquistados, eles suportaram.
Quando suas cidades foram queimadas, eles suportaram.
Mas agora, ver seu Dragão humilhado enquanto não podiam fazer nada além de ficar entre os zombadores e fingir rir com eles—esse era o momento em que perceberam que tinham atingido o fundo do poço.
E, no entanto, no meio do desespero, uma pequena mas inflexível centelha de esperança despertou na multidão.
Um sussurro.
Quase inaudível.
Uma única voz trêmula que dizia: "Ele ainda está de pé…"
Depois outro: "Ele não se ajoelhou…"
E logo, de cantos da praça, escondidos sob o barulho de risadas, surgiram murmúrios leves de resistência silenciosa.
"Ele não quebrou…"
"Ele ainda é o Dragão…"
"Ele ainda é nosso…"
Nenhum deles ousava levantar a voz além de um sussurro, mas esses murmúrios espalharam-se como ondas por toda a multidão, levados por corações que ainda se recusavam a desistir.
Pois, embora seus corpos fossem escravos do medo, sua fé não era.
Mesmo humilhados, mesmo acorrentados, seu Dragão ainda estava de pé, e isso bastava para lembrá-los de que o Culto da Ascensão ainda não tinha caído de verdade.
Nem ainda.
E assim, mesmo enquanto a transmissão continuava, enquanto a multidão de cidadãos Justos ria alto e jogava insultos na tela, os Cultistas entre eles apenas abaixavam mais a cabeça, escondendo sorrisos tênues por trás de mãos trêmulas.
Pois, embora o universo visse um homem destruído, eles viam uma promessa não dita.
Um juramento de que, um dia, quando chegasse a hora, cada chicotada e cada humilhação seriam pagas em sua totalidade.
—----
Naquela noite, um pequeno grupo de Cultistas se reuniu em segredo, seus rostos escondidos sob capuzes surrados, suas vozes baixas enquanto discutiam com desespero.
"Precisamos salvar o Dragão," disse um, a voz tremendo ao bater a mão na mesa. "Não aguento mais. Todos os dias eles o humilham, toda hora mostram novos trechos do seu sofrimento. Mesmo que eu morra, tenho que tentar. Tenho que salvar nosso Senhor."
"Entendo como você se sente," respondeu outra calmamente, os olhos fixos no chão. "Mas tentar salvá-lo agora seria suicídio. Você não percebe quem o guarda? Ele anda com duzentos soldados Transcendentais e quatro Monarcas. Mesmo se reuníssemos todos os Cultistas deste planeta, não chegaríamos aos degraus da sua cela antes de sermos massacrados."
"Mas e aí?" o primeiro gritou, a voz tremendo. "Ficamos aqui e nada fazemos enquanto o nosso Senhor é chicoteado na frente do universo? Estamos mesmo tão impotentes?"
"Essa é a verdade," disse, por fim, um homem mais velho, com tom baixo e amargo. "Somos impotentes. Não temos líder, não temos exército, nem santuário para fugir. A Facção Justa nos destruiu tudo."
Silêncio se instalou, aquele que sufoca o peito e dificulta a respiração.
Até que, após um momento, uma jovem quebrou o silêncio, sussurrando suavemente. "Talvez… talvez tudo o que possamos fazer agora seja rezar. Se não podemos salvá-lo, ao menos que nossas orações cheguem até ele. Que ele saiba que seu povo ainda acredita."
Os demais abaixaram a cabeça, suas palavras afundando mais fundo do que gostariam de admitir.
"Rezem," repetiu o homem mais velho, a voz tremendo. "Sim. Por enquanto, é tudo que podemos fazer."
Ninguém mais falou após isso.
Pois, em seus corações, cada um deles já sabia que nenhuma oração conseguiria atravessar as paredes de sua prisão, mas continuaram orando, porque era a única coisa que lhes restava para se sentirem esperançosos.