
Capítulo 745
Assassino Atemporal
(Dia atual, Jardim Eterno, Ponto de vista de Veyr)
“Ainda assim, foi ele quem me fez assim…”
À medida que as palavras de Kaelith se perdiam no silêncio, sua compostura habitual começou a se fragmentar, a máscara de calmaria divina escorregando à medida que linhas tênues se formavam na testa e sua mandíbula se apertava. Seus dentes rangiam audivelmente, o brilho sutil de raiva pulsando sob sua expressão serena.
“Eu não desprezo o Culto,” ele disse enfim, a voz baixa, mas tremendo de emoção contida. “Nunca senti isso. Na verdade, já o amei mais do que qualquer um poderia. Afinal, fui criado para liderá-lo — para guiá-lo a uma era de paz e prosperidade além do alcance do caos ou da ganância.”
Ele fez uma pausa, seu olhar se tornando distante enquanto a névoa prateada ao redor deles se agitava levemente, moldada pelo seu humor. “Então não, jovem Dragão, ao presumir que não sinto nada por ele, você está enganado. Na verdade, dói-me assistir aos mundos que conquistei caírem em ruínas, ver o legado que construí para o sonho do meu pai sendo agora distorcido por Mauriss e seus homens repugnantes.”
Os olhos de Veyr se arregalaram, sua respiração ficando presa por um instante enquanto ele dava meio passo à frente.
Nunca tinha ouvido esse lado da história antes, ninguém no Culto tinha.
A história que eles conheciam retratava Kaelith como o traiçoeiro, o deus que virou a lâmina contra seu próprio sangue. Porém, ali, parado, ouvindo a amargura escondida sob a calma da voz de Kaelith, Veyr sentiu o primeiro tremor de dúvida.
“E quanto ao Soron,” Kaelith falou suavemente, sua tonalidade mudando para algo que quase parecia calor, “ele continua sendo meu irmão amado, o único parente que realmente valorizei além do nosso pai, pois o universo testemunha que praticamente o criei sozinho.”
“Quando meu pai estava ocupado demais governando o Culto, fui eu quem passou horas incontáveis corrigindo sua postura, aprimorando sua técnica, moldando seus instintos até que pudesse se manter orgulhoso em qualquer campo de batalha.”
Seu olhar ficou distante, uma leve nostalgia escapando por sua voz. “Fui eu quem o conduziu além dos mesmos obstáculos que antes me atrapalharam, quem compartilhou todos os segredos que aprendi através da dor e da conquista. E por causa disso, a base dele superou a minha, seu potencial foi libertado, sua força cresceu até se tornar o segundo depois do próprio nosso pai.”
Kaelith respirou lentamente, um leve brilho de melancolia atravessando seus olhos. “Então, quando pergunto como ele está, não estou mentindo, Dragão. Eu me importo profundamente, não apenas pelo que ele se tornou, mas por quanto tempo mais ele ainda tem de vida.”
Kaelith falou, enquanto Veyr vacilava; sua raiva inicial foi reprimida, começando a tratar esta conversa de forma mais racional.
“Para ser honesto, não sei como ele está realmente.
O único momento em que vi Lorde Soron pessoalmente foi quando ele participou da luta entre eu e Leo para ser nomeado Dragão, e naquela época, ele pareceu estar bem para mim.
Então, se não estiver… não é algo de que tenho conhecimento.”
Veyr respondeu, cauteloso, sem revelar demais sobre o Culto, enquanto Kaelith acenava em concordância.
“Acho que você não vai saber como ele está realmente, afinal, não era do feitio dele mostrar suas fraquezas aos outros.
Talvez a única pessoa que sabia de sua saúde fosse Charles, e ele já morreu.”
Kaelith falou sem emoção, enquanto as pupilas de Veyr se contraíam ao ouvir o nome de Charles, a morte do Monarca lembrando-lhe o fato de que foi o próprio filho de Kaelith, Raymond, quem matou o Vice-Sete-Mestre do Culto.
“Você quase me convenceu agora,” disse Veyr finalmente, sua voz baixa, mas tremendo de fúria contida. “Quase.”
Ele deu um passo lentamente à frente, sua sombra caindo sobre o mármore divino sob eles, e sua expressão se endurecendo enquanto seu tom se aprofundava. “Porém, esqueci-me do fato de que foi seu filho quem matou Charles, e mais ninguém. Você está aqui agora, agindo como se não tivesse parte na queda do Culto, como se suas mãos estivessem limpas. Mas a verdade é muito mais feia, não é?”
Seus olhos se intensificaram, ardendo com uma ira irrestrita. “Você é a razão do sofrimento do Culto. Você foi quem o levou para esses tempos sombrios.”
Kaelith se virou na direção dele, a leve luz do Jardim Eterno refletindo em seu rosto enquanto seus olhos brilhavam com arrogância divina. Quando falou, sua tonalidade não foi nem de desculpa nem de defesa, mas sim de orgulho.
“Você está absolutamente certo.”
As palavrassoaram como um trovão, congelando o ar entre eles. O coração de Veyr pulou uma batida, sua respiração presa de surpresa com a ousadia daquela confissão.
O olhar de Kaelith fixou-se nele, calmo, mas incendiado pelo peso da convicção. “Não menti quando disse que me importo com o Culto e com Soron. Mas isso não significa que negue minha parte na sua queda. Sou seu destruidor tanto quanto fui seu protector uma vez.”
Ele deu um passo à frente, a luz dourada do jardim ondulando ao seu redor, seu tom se tornando mais firme, carregado de poder e ressentimento antigo. “Quando meu pai me negou meus direitos de nascimento, quando me tirou tudo de que fui criado para ser, fiz uma promessa a mim mesmo. Que, se o Culto não pudesse ser meu para governar, então não pertenceria a ninguém. E desde aquele dia, comecei a planejar seu fim.”
A expressão de Kaelith escureceu, sua compostura divina desmoronando enquanto o mar atrás dele começava a se agitar. “Durante duzentos anos, trampei. Fiz pactos com Mauriss, a serpente traiçoeira. Apertei as mãos com Helmuth, o bruto. Reuni os Seis Grandes Clãs sob uma única causa: derrubar meu pai e acabar com a era do Assassino Imutável.”
Relâmpagos brilhavam tenuemente na névoa prateada, como se o próprio Jardim Eterno recuasse perante a verdade sendo revelada.
“Orquestrei a Grande Traição,” declarou Kaelith, sua voz profunda e poderosa. “Unifiquei os últimos deuses sob uma única bandeira, e juntos, derrotamos o maior guerreiro que o universo já conheceu.
Fui eu quem terminou seu reinado, quem tomou suas adagas, e quem esculpiu uma nova ordem a partir das ruínas deixadas por ele.”
Seus olhos brilharam com intensidade maior, sua aura se elevando até mesmo fazer as pétalas das flores divinas se curvarem. “Após a Grande Traição, conquistei mais uma vez, não pelo Culto, não pelo Pai, mas por mim mesmo.
Tornei-me o arquiteto da Aliança Justa. Reconstruí o universo. E agora, após todos esses anos, até apaguei as últimas braseiras da rebelião do Culto da existência.”
A voz de Kaelith subiu, poderosa e definitiva, cortando o ar como um julgamento divino. “Posso não ser o deus mais forte, nem o mais astuto, nem o mais amado — mas sou o mais próximo do meu pai, aquele que ele criou para ser como ele.”
Sua sangue corre em minhas veias. Sua vontade ainda ressoa em minhas veias. E, mesmo não sendo um guerreiro tão bom quanto ele, tenho a mentalidade dele como ninguém mais.”
A antiga profecia diz que o Assassino Imutável caminharia entre os segundos mais uma vez.
Mas eu acredito que ele já o faz.
Pois, após meu pai, eu sou o novo Assassino Imutável.”
A última palavra reverberou pelo jardim, enquanto o céu escurecia e o oceano tremia em resposta à sua alegação audaciosa.
Veyr ficou parado, respirando superficialmente, o corpo frio.
Pois, naquele momento, Kaelith não parecia culpado nem arrependido.
Ele parecia divino.
Justo.
E assustadoramente convencido de estar certo.
Foi nesse momento que Veyr finalmente percebeu que não era a memória do seu pai que Kaelith realmente reverenciava, mas sim o reflexo que ele via no espelho toda vez que se olhava.