Assassino Atemporal

Capítulo 744

Assassino Atemporal

(Dezesseis séculos atrás, planeta Ixtal, ponto de vista de Kaelith)

Kaelith atravessou a Floresta Perdida como uma tempestade, seus passos deslizando sobre o chão coberto de musgo enquanto folhas e poeira se agitando ao seu redor, e o fraco brilho das vinhas bioluminescentes desenhava rastros efêmeros de luz atrás dele.

O aroma de chuva ainda pairava no ar, pesado e metálico, mas ele não deu atenção. Seu pai havia convocado, e isso era tudo que importava. Quando o Assassino Atemporal chamava, ninguém ficava para trás.

Desde ontem, ele alcançara o que ninguém antes conseguira. A 108ª conquista bem-sucedida em nome do Culto, um número que finalmente ultrapassara o recorde antigo de seu pai, de 107.

A façanha foi celebrada em todos os sistemas conquistados como o início de uma nova era, enquanto anciãos e soldados sussurravam que Kaelith, o Príncipe Conquistador, logo ascenderia ao posto de Líder da Seita do Culto da Ascensão.

No entanto, o tom da mensagem que o chamara para casa carregava nada daquela alegria. Era grave, e sob ela, uma inquietação que ele não conseguia nomear.

Logo, a fortaleza de pedra de Ixtal surgiu à vista enquanto ele cruzava a última crista, suas torres opacas elevando-se na neblina como um castelo de contos de fada.

Kaelith entrou sem pausa, seu manto arrastando-se pelos corredores silenciosos, enquanto caminhava em direção à câmara interior. O zumbido familiar da mana divina ecoava ao redor, profundo e ressonante, como se a própria fortaleza respirasse em sintonia com a vontade do mestre.

Ao chegar ao salão principal, ajoelhou-se sem hesitar. "Pai, o senhor me chamou."

O Assassino Atemporal permanecia ao lado da grande janela que dava para a Floresta Perdida, suas roupas ainda escuras como o vazio, seus cabelos levemente prateados, sua presença tão imensa que era capaz de silenciar o próprio ar ao seu redor.

Mas quando se virou, não havia vitória em sua expressão. Seu olhar era calmo, mas algo nele tremia entre orgulho e culpa.

"Sim, meu filho," ele falou lentamente. "Há algo que desejo conversar com você."

Kaelith endireitou-se, uma confusão passando por seu rosto normalmente composto.

O tom do Assassino Atemporal diminuiu, carregando o peso de uma acusação silenciosa. "Na sua última conquista," ele disse, "você matou o filho mortal de Helmuth, o Berserker, de cinco anos? Ouvi rumores de que você pessoalmente esmagou seu crânio com as mãos."

Kaelith apertou a mandíbula por um breve instante, mas seus olhos permaneceram firmes enquanto erguia a cabeça. "Sim, pai. Fiz isso. O menino me atacou com uma lâmina. Sua idade, sua fraqueza, suas lágrimas—nada disso importava. O que importava era a intenção dele. Ele nutria ódio ao Culto, e o ódio gera perigo. Eu eliminei uma ameaça antes que ela pudesse crescer. Minhas ações foram lógicas e limpas. Como você me ensinou."

Silêncio absoluto seguiu, cortante e sufocante, enquanto o silêncio das tochas criava um som de crepitar que preenchia o vazio entre eles.

Os olhos do Assassino Atemporal escureceram com uma tristeza que ele não pronunciou, enquanto estendia seus sentidos, vasculhando a aura do filho em busca até mesmo de um lampejo de dúvida ou arrependimento. Mas nada encontrou, apenas uma calma firmeza ao seu redor.

*Suspiro*

Ele suspirou profundamente, como se o próprio som carregasse a exaustão de séculos. Naquele momento, viu não seu filho, mas seu reflexo, um espelho de sua juventude impiedosa, esculpido com precisão de sua própria imagem.

"Você parece decepcionado, pai," disse Kaelith, sua voz baixa, mas afiada. "Por quê?"

O Assassino Atemporal virou-se, incapaz de olhar nos olhos do filho. "Porque você me lembra demais do que eu já fui," respondeu suavemente. "Você é tudo o que eu já fui… disciplinado, frio, absoluto. Você é o filho que moldei na minha própria sombra. Mas talvez, eu tenha cometido um erro. Talvez, deveria ter me esforçado para torná-lo melhor do que eu. Mais misericordioso. Mais humano. Uma fonte de liderança que as pessoas pudessem amar, e não apenas obedecer."

Kaelith sentiu uma coisa se torcer no peito, uma dor que não era exatamente raiva, mas se aproximava disso. "Você fez o seu melhor, pai," disse ele, sua voz tremendo apenas um pouco. "Se eu sou sua reflexão, então considero isso a minha maior honra. Mesmo que eu só alcance metade da grandeza que você tem, já será suficiente."

O Assassino Atemporal se virou novamente para ele e, por um breve instante, uma lágrima transparente escapou do seu olho esquerdo, traçando uma linha tênue pelo rosto antes de desaparecer na luz.

"Sinto muito, meu filho," falou ele. "Pelo que me tornei, pelo que levei de você. Estava errado em pensar que o poder absoluto era o único caminho para a verdadeira força. Mas ainda há tempo para você crescer além de mim. Você ainda pode ser melhor do que eu."

Suas palavras tremiam levemente, mas quando endireitou-se, sua postura divina retornou, o ar ao seu redor estabilizando-se novamente.

"Na cerimônia de nomeação do próximo Líder da Seita," continuou, "vou nomear Soron como o próximo Líder."

As palavras atingiram Kaelith como um golpe de lâmina através da armadura.

Por um instante, pareceu que ele havia entendido errado. "O que você disse?"

A expressão do Assassino Atemporal permaneceu firme. "Deixe Soron carregar a responsabilidade da liderança por uma vez. Que ele contribua de forma significativa para esta família."

Ele é gentil. Ele é suave. Talvez, possa ser um líder melhor para este Culto, do que qualquer um de nós…

E mais importante, ao assumir o comando do Culto, você poderá finalmente se libertar das responsabilidades que tenho pressionado sobre você desde o nascimento.

Você poderá finalmente se libertar da minha crueldade.

Da minha fiscalização.

Da minha obsessão pela perfeição.

E então, quem sabe, você ainda poderá crescer para ser melhor do que eu…

Kaelith piscou lentamente, enquanto o significado dessas palavras se fixava nele como veneno. Sua respiração ficou superficial, seu pulso pulsava forte nas têmporas, enquanto fios dourados do destino brilhavam sutilmente ao seu redor, tecendo um destino que ele não podia mais controlar.

"Pai…" começou ele, sua voz perigosamente calma, "você construiu esse império através da conquista. Você me criou para conquistar. Você fez de mim sua lâmina, seu herdeiro, seu sucessor escolhido. E agora, você entrega isso a ele?"

O Assassino Atemporal permaneceu em silêncio, sua quietude falando mais alto do que qualquer argumento.

As mãos de Kaelith se cerraram em punhos, suas unhas cravando-se nas palmas até que sangue começasse a pingar no chão. Sua compostura se quebrou, um tremor mínimo percorrendo seus ombros enquanto sua voz se tornava amarga e trêmula.

"A vida toda, fiz o que você pediu. Matei quando ordenou. Conquistei os mundos que apontou. Enterrei minha misericórdia porque você me disse que era fraqueza. E agora… agora você diz que eu estava errado por escutar?"

O Assassino Atemporal fechou os olhos. "Talvez você tenha sido."

Palavras que o destruíram mais do que qualquer lâmina poderia.

As tochas oscilaram, suas chamas rubras tornando-se pálidas, enquanto o ar ficava carregado com o cheiro de ferro. Lá fora, trovões rolavam no horizonte de Ixtal, enquanto Kaelith permanecia imóvel, seu mundo inteiro desmoronando em silêncio.

Aquele foi o dia em que seu propósito morreu.

E em suas cinzas, nasceu algo muito mais sombrio.

O céu acima da fortaleza esmaeceu, como se os céus próprios compreendessem o que havia sido posto em movimento.

Pois foi naquele dia que Kaelith, o filho mais velho do Assassino Atemporal, começou a sonhar não mais de conquista—mas de traição.

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